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A última na Algomais: entrevista com Enilto do Egito

Escrito em 15 de dezembro de 2009 – 23:30 | por antonio |

Na minha última participação na equipe da revista Algomais, que ajudei a criar e a dar os primeiros passos, apresento nesta edição de dezembro de 2009, nº45, a entrevista com o médico pernambucano Enilto do Egito. Ele levanta uma questão importantíssima: a contrapartida que o médico formado em universidade pública tem a dar à sociedade. A Faculdade de Medicina de Pernambuco é gratuita e agora a Ciências Médicas, da UPE, também. É um bom momento para discutir essa contrapartida do formando. 

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O bom trato do coração pernambucano

Compensação | Os médicos formados em universidades públicas deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior

Antonio Magalhães

O cardiologista Enilto Sérgio Tabosa do Egito, 59 anos, casado, cinco filhos, pode tanto ser encontrado num consultório do mais importante hospital especializado de São Paulo como na mais desbragada festa de Carnaval do Recife envergando uma fantasia, possivelmente a de Maurício de Nassau, o guru da confraria dos pernambucanos na capital paulista.

O Dr. Enilto do Egito fez a travessia bem sucedida de Timbaúba, na Mata Norte de Pernambuco, onde foi criado, embora nascido na Fazenda Balanço em Macaparana, para o maior centro médico do País, São Paulo. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas, da UPE, em 1974, ele foi naquele mesmo ano para Residência no Hospital da Beneficência Portuguesa com Dr. Adib Jatene e de lá, com o mesmo Jatene, para a chefia da emergência do Hospital do Coração. Lá, construiu uma carreira vitoriosa.

Hoje, Enilto do Egito é referência médica nacional e, principalmente, entre os pernambucanos que vão procurá-lo em São Paulo para tratar dos males do coração. A metafórica coronária saudosa de outros pernambucanos que vivem em São Paulo, como ele, trata com doses exageradas de cultura pernambucana na Confraria Maurício de Nassau, onde é presidente. Um bom remédio para o coração, costuma dizer, é o bom relacionamento com as pessoas.

E ele pratica. Enilto do Egito veio comemorar os 35 anos de formatura com os colegas num resort de Pernambuco. Os velhos amigos. Lá, concedeu esta entrevista a Algomais. Durante a conversa, o médico emocionou-se profundamente duas vezes, travou a fala quando se referiu ao reencontro dos companheiros da primeira viagem a São Paulo e quando enfatizou o orgulho de exercer a profissão. Enfim, um homem ajustado e de bem com a vida.
 
Algomais | Como foi sua trajetória de Timbaúba para São Paulo?

Enilto do Egito | Aos 22 anos candidatei-me a vice-prefeito na chapa de oposição aos Ferreira Lima, uma oligarquia que dominava a cidade há 50 anos. Perdemos por 300 votos, quando na maioria das eleições eles ganhavam com uma diferença de até 10 mil votos. Depois da derrota fui fazer a residência médica em São Paulo e, como o mais velho, proibi meus irmãos de se meterem em política. No mesmo ano de formado, 1974, fui trabalhar com Dr. Adib Jatene, que já fazia pontes de safena. São Paulo só tinha dois centros de cirurgia cardíaca, o do Dr. Adib e o do Dr. Zerbini, o maior especialista da época em transplantes de coração. Fiz um grande relacionamento com Dr. Adib, o que me permitiu fazer uma ponte com os colegas cardiologistas do Recife, tirando dúvidas e resolvendo as broncas que aconteciam por aqui. O que não aconteceria hoje: o Recife é o segundo centro médico do País e um importante centro da América Latina.

AM | Como foi sua adaptação em São Paulo?

EE | Foi um choque ver uma cidade tão grande. Mas morava na residência médica e quase não saia de lá. Era solteiro e não tinha tempo de passear. Só um ano depois, quando fui a show de Luiz Gonzaga, reencontrei velhos companheiros de viagem num velho fusca do Recife a São Paulo. Estavam lá Luciano Siqueira e Wilson Pimentel que não os via desde a chegada. Fiquei emocionado.

AM | A adaptação foi lenta?

EE | A minha atividade me absorvia muito. Não tinha lazer. Quando estava terminando a residência médica foi inaugurado o Hospital do Coração, o HCOR, e fui chamado por Dr. Adib para chefiar a emergência desse hospital. A partir daí, em 1976, fomos subindo juntos. Como o nordestino leva sua cidade dentro dele dentro, continuei ligado a minha terra, participando quando podia de atividades em Timbaúba e mantendo contato com colegas médicos daqui. O Hospital do Coração foi o começo de tudo.

AM | São Paulo concentra 60% de todos os residentes médicos do Brasil. Não é uma grande concentração?

EE | Esse é o grande problema da área médica no Brasil. Nosso país tem hoje 300 mil médicos. Só São Paulo deve abrigar pelo menos 150 mil, a metade deles. É um problema que as autoridades estão se voltando. Para fixar o médico fora dos grandes centros não é só dar um bom salário. Tem que oferecer também condições de trabalho. Ninguém quer ser médico em Altamira, no Pará, onde não há equipamentos fundamentais para um diagnóstico. As autoridades pensam em criar residências médicas no Norte e no Nordeste para fixar os profissionais. Se eles vão para São Paulo, se dão bem, são grandes as chances deles não voltarem aos seus estados. No Recife se sente menos isso, por conta do Polo Médico, mas no Interior há muita carência de médico especialista porque não se cria uma boa estrutura para o ato médico. Muita gente sai para trabalhar por lá e volta para a capital.

AM | Quer dizer então que a Medicina está cada vez mais dependente dos equipamentos de alta tecnologia?

EE | Não tenha dúvida. A figura do médico com um estetoscópio é cada vez mais antiquada. Claro que a clinica médica continua soberana. O contato pessoal do médico com o paciente é muito importante. Mas ele tem que ficar atento, pois precisa de um diagnóstico. Hoje se cobra muito dos médicos o apoio tecnológico. E a tecnologia é cara: um aparelho de ressonância magnética, por exemplo, custa dois, três milhões de Reais que têm que se pagar. Há aí o problema crônico das cidades periféricas: sem a tecnologia não há possibilidade de fixar o médico no Interior.

AM | A saúde pública então fica jogada às traças por falta de verbas para equipamentos de alta tecnologia?

EE | Vou frequentemente a Macaparana, a São Vicente Ferrer, a Timbaúba, e vejo as dificuldades da área de saúde. Normalmente para se fixar no Interior, o médico vai se transformar em político, fazendeiro, ou marido da filha do líder político local. Essa é maneira mais fácil que os colegas encontram para viver fora dos grandes centros. Vale mais o amor à camisa, a sua relação com a cidade, para um profissional trabalhar, por exemplo, em São Vicente Ferrer com poucas condições de infraestrutura na área.

AM | A formação dos médicos é deficiente?

EE | Veja bem, a Faculdade de Medicina ensina o indivíduo a aprender. Hoje para completar a formação são necessários 11 anos de estudo e prática – seis na faculdade, dois na residência médica e três anos de especialização. É uma formação complexa. O funil hoje não o vestibular de Medicina, mas a Residência: são quatro mil vagas para 10 mil médicos que se formam por ano no Brasil.

AM | O Brasil tem suficientes Faculdades de Medicina?

EE | Demais até. São Paulo tem um médico para 500 habitantes, quando o ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, é em torno de um médico para mil habitantes. Pernambuco é um dos estados que mais segurou a criação de novos cursos. Teve durante muito tempo duas faculdades de Medicina e agora chegou uma terceira. Já o Amapá tem quatro faculdades, vai ver que duas são do (senador) Sarney. São faculdades sem condições de formar médicos e que não contam sequer com um hospital. Uma faculdade de Medicina não é uma Escola Superior de Direito, onde o cara estuda no livro. Ela tem que ter a prática e para isso precisa de um hospital. Dr. Adib Jatene que comanda hoje o Conselho Nacional de Residência Médica tem brigado muito contra isso e vai fechar muita faculdade por aí.
AM | Então a maior queixa não é pela falta de médicos, mas pela centralização deles em determinada região?

EE | Certamente. Há uma revoada para os grandes centros. Em São Paulo não cabe mais. Todo ano vão centenas de médicos nordestinos e nortistas fazerem a Residência em São Paulo. O estado que gastou na formação dos profissionais vai vê-los trabalhando para outro estado.

AM | Os formandos das faculdades públicas não deviam ter compromisso com o estado que possibilitou sua formação?

EE | É o caminho certo. Não há outra saída. Deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior. E essa opção está se definindo.

AM | Recife é o hoje um centro médico de excelência. E como era antes?

EE | Quando saí do Recife existiam duas faculdades – a Ciências Médica e a Federal. Mas tinham grande médicos, como Luís Tavares. que trouxe muita tecnologia para cá. Mas não tinham pessoas, por exemplo, formadas para cirurgias cardíacas. Era uma coisa muito nova. As cirurgias de ponte de safena completaram 50 anos agora. Eu estou em São Paulo há 35 anos. Embora hoje o Recife tenha uma estrutura muito boa, não dá mais para voltar. Tenho outras atividades extracurriculares. Sou diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e muita coisa me prende em São Paulo.

AM | Para o jovem médico o Recife é bom centro formador?

EE | Sem dúvida. Ele pode tranquilamente escolher o Recife para praticar sua atividade. Ir para São Paulo só para estágios específicos, assim como se vai para Inglaterra ou Estados Unidos. E não, como já foi no passado, o único centro avançado para exercer a profissão.

AM | Mas sua experiência paulista foi bem positiva?

EE | De fato. Conheci no Hospital do Coração minha mulher, que é pernambucana e médica. Foi uma adaptação bem mais fácil porque tive logo o reconhecimento profissional e a sobrevivência garantida pelo emprego no hospital. O médico que tem que lutar pela sobrevivência tem mais dificuldades que podem prejudicar seu desempenho. Por outro lado, para suprir a carência afetiva ou saudade da nossa terra criamos há mais de 20 anos a Confraria Maurício de Nassau, que congrega pernambucanos.
 
AM | Têm muitos pernambucanos como você na Confraria Maurício de Nassau de São Paulo?

EE | Têm muitos médicos. E já houve mais. Alguns estão voltando. Quando o Banorte existia tinha mais gente de vários setores profissionais que participava da confraria. Depois que foi vendido ficou um grupo grande de médicos. Aí demos uma diminuída porque tinha virado um congresso. Não era mais uma confraria.

AM | O que é a confraria?

EE | É um ponto de encontro para conversas, discussões sobre a cultura pernambucana, apresentações de artistas, com jantares mensais, onde se é possível saber o que a nossa gente está fazendo em São Paulo. Fazemos festa de Carnaval, São João, mantemos nossas tradições e hábitos. Temos até um boneco de Maurício de Nassau feito pelo bonequeiro de Olinda Sílvio Botelho. Nas comemorações dos 350 anos da vinda de Nassau ao Recife quiseram trazê-lo, mas ninguém queria se responsabilizar por ele. Não deixei.

AM | Quer dizer que o pernambucano se mantém igual fora de casa?

EE | Não perde nem o sotaque. Eu cheguei em 74 e aonde chego o cabra sabe de onde sou pelo sotaque. Ser de Pernambuco sempre foi um estimulo para nós. Cobram de você uma posição mais ética. E assim deve ser: você traz o Estado, tem uma obrigação. É uma coisa muito interessante.

AM | Os pernambucanos lhe procuram muito em São Paulo?

EE | Tenho grandes amigos. Cada paciente termina um amigo. Tem dias que atendo até seis, sete pernambucanos. Cuido do coração e dou referências de outras especialidades. Inclusive para parte social do Hospital do Coração que atende os carentes de qualquer parte do País.

AM | Como está o coração do brasileiro?

EE | O coração do brasileiro se compara aos corações do Primeiro Mundo ocidental. A quantidade de mortes aqui é igual a dos Estados Unidos. Perdemos 350 mil, 400 mil pacientes por ano por doenças cardíacas. Na fase mais produtiva e na meia idade. Por isso que se gasta tanto em Cardiologia porque pega o indivíduo na fase ascendente. Uma das causas que mais contribuem é o estresse. O que reduz o estresse é o que estou fazendo em Pernambuco, recarregando as baterias, revendo os amigos, como a confraria faz.

AM | O fim do sedentarismo e mais exercícios ajudam também?

EE | Do ponto de vista médico são corretos. Em Timbaúba a gente comia fígado, sarapatel, mas andava muito. Meu avô andava seis quilômetros para fazer qualquer coisa. As pessoas se exercitavam muito. Hoje não se mexe nem na alavanca para baixar o vidro do carro. É tudo botão, controle remoto. As pessoas estão cada vez mais sedentárias. A comida é fast food, pizza, hábitos alimentares errados.

AM | Hoje as cirurgias cardíacas não preocupam?

EE | Atualmente a mortalidade em cirurgia cardíaca é menos de um por cento. É uma rotina com poucos acidentes porque temos um check list. O cirurgião já sabe o que vai fazer com toda segurança. O stent, uma molinha que é colocada por um cateter dentro da coronária esmaga a placa de gordura como se fosse um minúsculo bob de cabelo. A grande noticia é que o hoje o stent é usado em 70% dos pacientes que eu abriria seu peito há 20 anos. Além do mais, a parte clinica melhorou muito. Quatro remédios que salvam vidas hoje: a Estatina contra o colesterol, a Aspirina, que afina o sangue, os inibidores de enzimas que protegem as artérias, e o beta bloqueador. Eles mudaram a história da mortalidade nessa área. Hoje, com remédio, o fim do cigarro, exercícios regulares, boa comida e bons relacionamentos, a história de um possível futuro enfartado é outra.

AM | Mas você tem maltratado seu coração torcendo pelo Santa Cruz? Inclusive por ser conselheiro do time?

EE | Time de futebol você não escolhe. É escolhido por ele. Você troca de mulher, mas não de time. Parece masoquismo. Mas sou tricolor desde criança e vejo com muita tristeza esse momento do Santa. É um time fora de série, não tem mais série para ele jogar, diz a piada. Mas isso passa isso e ele vai se erguer novamente para nos dar muito orgulho. Mesmo do jeito que está o Santa não me faz mal. Pelo contrário, só me dá alegria.

AM | Qual o conselho você daria para um jovem estudante de Medicina?

EE | Essa é uma profissão de sacrifício. É uma maneira de ajudar o próximo. Caso não pense assim, está na profissão errada. Vá ser comerciante, qualquer coisa. Por aí se diz que não tem médico pobre. É uma verdade desde que não seja preguiçoso. Porque, embora existam 300 mil médicos, há um mercado que necessita de profissionais. Alguns hoje cumprem uma tripla jornada de trabalho. Há espaço para os novos. Sinto muito orgulho de ser médico. Vivo o sonho que sonhei, ajudando as pessoas. Ser médico é ter que trabalhar e estudar muito. E também se inteirar com o que existe em volta, melhorar como ser humano para ser mais útil a si próprio e aos pacientes. Aconselho sempre que se mirem nos seus professores.

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