Patrocinadir

Posts de janeiro, 2009

Padre Servat, o inspirador do MST

terça-feira, janeiro 27th, 2009

“A Igreja queria a reforma (agrária) mas não queria a esquerda na sacristia (em 1985). Nesse cenário, já antes, agentes da pastoral começaram a articular um futuro sem envolvimento direto dos bispos na questão fundiária.

“Numa conversa informal no Centro de Treinamento de Líderes, da Arquidiocese de Goiânia, o padre José Servat, um belga originário da Ação Católica, que exerce seu ministério no Nordeste, lembrou ao acaso que a saída poderia ser a de criar um movimento de trabalhadores sem terra, para que essa mudança não afastasse da luta pela reforma agrária os leigos da Igreja”.

Trecho do artigo do professor de sociologia da USP, José de Souza Martins, sobre os 25 anos do MST no jornal O Estado de S.Paulo (Caderno Aliás, 25 de janeiro de 2009)

O padre José Servat, na verdade francês e não belga, veio para o Brasil em 1964, quando passou a atuar na ACR - Animação dos Cristãos no Meio Rural, em Pernambuco. No ano de 2002, depois ser homenageado pelo Partido dos Trabalhadores na Assembléia Legislativa pernambucana, voltou à França.

O padre José Servat, ao agradecer a homenagem, lembrou que sua visão de fé ajudou a descobrir os sinais de Deus na luta pela vida, em homens religiosos, como o Padre Cícero ou Antônio Conselheiro, ou afastados da Igreja, da religião, como Gregório Bezerra, pois souberam viver e sofrer por amor da justiça, na esperança de um mundo novo para os mais castigados pela miséria.

Padre Servat defendeu o crescimento libertador do homem brasileiro, em particular do nordestino, e que ele seja o critério fundamental nos planejamentos e decisões de todos nós. “Que minha última palavra - afirmou - seja para nos lembrar a justiça e a solidariedade com os que são condenados pelas evoluções econômicas atuais, marcadas pela concentração sempre maior da terra e da riqueza, do saber e da informação”.

Há espaço para a Paz, concordam judeu e palestino

terça-feira, janeiro 27th, 2009

A programação da Assembléia Legislativa na TV, veiculada na noite de quinta, 22, pela TV Universitária do Recife, exibiu um debate sobre o conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza.
Participaram o professor de História Judaica, Jader Tachlitsky, representando a comunidade israelita local, e Jaime Asfora, neto de palestinos, advogado e presidente da OAB-PE. A mediação foi do jornalista Antonio Magalhães.
Abaixo, alguns trechos do debate na televisão, o primeiro feito por uma emissora local:

Origem do conflito

Jader Tachlitsky

Não considero que a criação do Estado de Israel seja a causa do sofrimento do povo palestino. Para mim, a causa dos conflitos é não aceitação do direito de Israel de existir e conviver dentro do mundo árabe.
O Estado de Israel é mais ou menos do tamanho Sergipe. Tem 20 mil quilômetros quadrados. O mundo árabe é de aproximadamente 13 milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a toda America do Sul. Por isso acho que não é inviável a existência de um pequeno estado judeu convivendo dentro do grande mundo árabe.

Jaime Asfora

Hoje é inconteste, tanto pelos israelenses, como pelos palestinos, de que há um território palestino em Gaza e na Cisjordânia. Deve-se contextualizar essa questão. Desde 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, a ONU, Estados Unidos e o mundo todo sabe da necessidade da criação de um Estado Palestino. E por que ele não existe? É muito mais por conta dos extremismos, tanto do lado israelense, como do lado dos radicais palestinos. Ambas as sociedades querem a paz e não a guerra.

Acho que há caminhos para se chegar à paz. O processo já amadureceu muito, como disse o professor Jáder, sobretudo nos acordos de Oslo (Noruega). Esses acordos de 1993 foram tão bem feitos que deram o prêmio Nobel da Paz a Itzak Rabin (primeiro ministro israelense) e a Yasser Arafat, presidente da OLP, representante do povo palestino. Rabin foi assassinado por um extremista israelense, Arafat morreu e Bill Clinton não conseguiu concluí-los no seu mandato. Mas faltou pouco, chegou bem perto de uma solução para a região.

Estes acordos previam o término dos conflitos, a abertura das negociações sobre os territórios ocupados, a retirada de Israel do sul do Líbano e a questão do status de Jerusalém.

Como disse o professor Jader, se o Egito fez a paz com Israel, se já há tratativas em vários países do mundo em busca da paz, se já houve quase a consolidação dos acordos de Oslo, não é possível que palestinos e israelenses não encontrem a paz, superando um sofrimento inesgotável para ambos os povos.

Obama vai ajudar na resolução do conflito entre israelenses e palestinos?

Jaime Asfora

Acho que hoje vivemos um momento interessante, apesar da violência em Gaza: a posse do presidente americano Barack Obama. Já há a intermediação da ONU, da Rússia e da União Européia, mas ela não é suficiente sem os Estados Unidos.

Jader Tachlitsky

Barack Obama é um facilitador para um acordo de paz. Acho que todo mundo espera que ele venha a ser o impulsionador do processo de paz do Oriente Médio.

O único entrave que eu vejo agora é não haver negociação direta entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina. Muita coisa já tem consenso. Existe ainda a questão de Jerusalém, cidade que os palestinos querem fazer sua capital. Isso precisa ser mais bem negociado, mas acredito que já existe um caminho político para a paz.

Dentro do processo, o Hamas vem boicotando as negociações. Por isso o povo palestino vai ter que tomar para si esta responsabilidade e saber quem realmente está lutando por seus interesses e quem luta contra seus interesses. Porque, no momento em que se consolidar uma liderança palestina em busca dos acordos de paz, o caminho estará aberto para a sua concretização.

A propaganda exacerbou a vitimização dos palestinos nesse conflito?

Jaime Asfora

O que houve foi uma reação desproporcional do Governo de Israel às agressões do Hamas. Foram lançados milhares de foguetes contra Israel, mas a incursão dos israelenses foi desproporcional, matando centenas de crianças e civis. Veículos de comunicação sérios e independentes mostraram o desrespeito à Convenção de Genebra. A guerra não tem ética, mas deve ter regras. A Convenção de Genebra diz que, numa guerra não se pode matar refugiados em escolas e três delas da ONU foram bombardeadas. Mais de 400 crianças morreram no conflito.

Acho que o peso do ataque à Gaza foi proporcional à impopularidade do atual governo de Israel às vésperas de uma eleição. Aproveitando a proximidade da saída de George Bush, os políticos judeus tentaram se cacifar diante do eleitorado de Israel e aproveitar os últimos momentos complacentes de um governo americano verdadeiramente criminoso.

Jader Tachlitsky

Toda guerra é trágica. Sensibiliza a todos, principalmente quando tem inocentes mortos. É difícil para a opinião pública entender quando um governo toma uma atitude drástica e tem que assumir o ônus dessa medida.

Israel respondeu aos ataques do Hamas, não de um dia ou de um mês, mas agressões de alguns anos contra seu território. A permanência do conflito na Faixa de Gaza impediu que tanto os israelenses como os palestinos pudessem trabalhar ali para sua prosperidade. Essa área foi transformada num bunker, com muitas armas, um grande arsenal com objetivo de atacar Israel.

Quando o Hamas lança um foguete de Gaza a esmo contra uma cidade israelense não tem a precisão onde ele pode cair: numa escola, numa casa ou hospital, em qualquer lugar. A arma tem o objetivo deliberado de promover vítimas civis. Israel promoveu as ações de guerra depois que foi quebrada pelo Hamas uma trégua de seis meses, saudada com o lançamento de centenas de foguetes contra cidades israelenses, inclusive as que não tinham sido vitimadas anteriormente. A questão do foguete do Hamas fazer poucas vítimas ou muitas vítimas em Israel depende apenas do acaso, de onde ele cai.

Israel respondeu fogo contra as instalações de onde partiam os foguetes. Infelizmente o Hamas não teve apreço por sua população civil. Ele usou a população palestina civil como escudo, usou-a criminosamente colocando-a no front de guerra ao misturá-la aos combatentes. Soube-se que o Hamas entrava à força na casa de cidadãos palestinos para usar suas residências como base de lançamento de foguetes, impondo riscos a essas famílias. É muito importante que se diga que Israel respondeu aos ataques do Hamas e não da população civil de Gaza. Não foi um conflito contra o mundo árabe ou contra o povo palestino, mas contra o Hamas.

Em qualquer conflito, a primeira preocupação de um governante, de um exército é proteger a população civil. Infelizmente, o Hamas nunca teve esse tipo de preocupação.

Jaime Asfora

Concordo com o professor Jader, o Hamas não tem tido essa preocupação. O Hamas não é bom para o povo palestino, mas é preciso que haja negociação. Negociação que conta com a disposição do povo palestino e acredito também dos israelenses. E ela deve ser feita com ajuda de atores internacionais relevantes, como o Quarteto da Paz, a ONU, a Rússia, a União Européia e os Estados Unidos. Acredito que os palestinos querem entrar no Estado de Israel para trabalhar e consumir, como os israelenses querem ir a Cisjordânia passear, fazer compras, visitar amigos. Creio que é possível fazer a paz num ambiente de conciliação, onde a diplomacia vença a guerra e a violência.

Jader Tachlitsky

Israel conseguiu ao longo de 63 anos construir uma sociedade moderna e democrática, economicamente viável, com alto índice de educação, com muitos doutores universitários e desenvolvimento de alta tecnologia. Tudo isso num ambiente de guerra. Imagine o que Israel pode conseguir num ambiente de paz para ser compartilhado por todo o Oriente Médio. Israelenses e palestinos têm muito a construir num ambiente de paz.

Hugo Chávez tem coluna em jornais

quarta-feira, janeiro 21st, 2009

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, começará nesta quinta, 22, a ser colunista de sete jornais do país, sendo um nacional, Últimas Notícias, e os demais regionais. A coluna de Chávez terá o nome de “As linhas de Chávez”. O presidente disse que o objetivo é “dar voz aos que não têm voz”, referindo-se ao espaço que não teria na mídia tradicional.

“Eu gosto de escrever, só que às vezes não dá muito tempo, é verdade, mas vou encontrar tempo”, disse o presidente venezuelano. No primeiro texto, Chávez evocará seu passado, falará da época em que era jogador de futebol. Os textos de Chávez serão publicados nas publicações toda terça, quinta e domingo.

Com informações da Reuters.

Chávez já vem fazendo televisão, agora maltrata o idioma espanhol arriscando-se como jornalista. Já fechou o canal de TV mais popular da Venezuela por não suportar suas críticas. E agora entra na imprensa escrita. Em breve jornais oposicionistas podem fechar. É a democracia chavista, aquela das reeleições perpétuas. Democracia sem intermediação, sem congresso, sem juízes e sem imprensa.

PS - Hei, Chávez. Cadê a parcela do investimento da PDVSA na refinaria Abreu e Lima, em Suape?

Erro na propaganda depõe contra Eduardo Campos

terça-feira, janeiro 20th, 2009

A propaganda institucional às vezes exagera. O anúncio, no rádio e na TV, sobre o programa Vida Nova do Governo de Pernambuco informa que foram tirados das ruas 5.000 crianças e adolescentes. Feito impossível de ser conseguido: nunca houve 5.000 meninos de rua no Estado.

Na verdade, o que o programa queria dizer é que 5.000 crianças e adolescentes se inscreveram no Vida Nova. Equívocos como esse não ajudam em nada a gestão de Eduardo Campos.

O PT e os judeus no Brasil - o que mudou

terça-feira, janeiro 20th, 2009

Em fevereiro de 2003, o sociólogo e militante petista de origem judaica, Maurício Waldman, deu entrevista à revista Judaica, da comunidade que faz parte. Explicava as mudanças dentro do PT a respeito de Israel. E acreditava que o Partido dos Trabalhadores punha de lado o comportamento antissemita. No conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e a organização Hamas, os petistas mostraram que nada tinha mudado, de acordo com uma nota divulgada pelo partido e assinada pelo presidente Ricardo Berzoini.

Abaixo a entrevista de Waldman, na qual ele tentava convencer a comunidade judaica do País das boas intenções do PT nesse campo:   

“A esperança venceu o medo”, afirmou Lula, diante de toda a imprensa nacional e internacional, ao ser confirmada a sua vitória nas urnas ao cargo máximo da Presidência da República. O medo a que ele se referia era o temor das idéias socialistas radicais petistas de seus primeiros 15 anos de existência, que depois foram adaptadas ao pragmatismo das transformações a que o mundo passou. Em meados da década de 80, quando Gorbachov ensaiava a sua perestroika e o Muro de Berlim ainda estava em pé, o sociólogo e militante petista Maurício Waldman criou em São Paulo a Comissão de Assuntos Judaicos do Partido dos Trabalhadores (Caju), visando, entre outros projetos, mostrar para a comunidade judaica que o PT não era anti-semita, não recebia dinheiro da OLP e nem era contra a existência do Estado de Israel. Agora que o Lula chegou à Presidência, nada mais oportuno de que fazermos uma ampla reflexão sobre o que foi a Caju e o que ela significou para o diálogo dos judeus brasileiros com o PT.
     
        Como ocorreu o seu ingresso no PT?
       
          Desde adolescente eu me senti irresistivelmente atraído por quatro concepções básicas: o nacionalismo, o judaísmo, o socialismo e o ambientalismo. Destas quatro inserções, o socialismo foi a matriz mais forte na minha juventude. Desde a adolescência me considerava um socialista. Lia freqüentemente livros, revistas e artigos de orientação marxista. Um aspecto importante era que muito da minha visão de mundo era inspirada pelos profetas judeus da Bíblia, livro que sempre li com assiduidade. Tornando-me adulto, passei a participar de várias mobilizações. Recordo-me vivamente do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, celebrado na Catedral da Sé, nos anos 70, cerimônia na qual compareci de kipá.
        Comecei a me interessar pelo PT quando fazia o curso de Ciências Sociais na USP. Considerei o PT uma opção inseparável de minha trajetória política. Assim, militei em favor do PT nos momentos anteriores à sua própria fundação, terminando por filiar-me em 1986. No Partido, entre outras funções, fui presidente e Tesoureiro do Diretório Distrital da Vila Mariana (na capital paulista), gerente da Loja do DR-SP, administrador-geral do Diretório Regional do PT do Estado de São Paulo, coordenador da Sub-secretaria Estadual do Meio-Ambiente de São Paulo, membro da Coordenação Nacional dos Ecologistas do PT e integrante do Grupo de Trabalho do Oriente Médio, da Secretaria de Relações Internacionais do PT.
        Além disso, exerci diversas outras atividades, participando da campanha eleitoral de 1990 como candidato a deputado estadual, integrando diferentes comissões e assessorias e assumindo durante 15 meses, a Coordenadoria de Meio Ambiente em São Bernardo do Campo na gestão do prefeito Maurício Soares, que naquele momento integrava o PT. Ademais, como se sabe, fui coordenador da Comissão de Assuntos Judaicos do PT durante cinco anos, entre 1986/1990.
      
        A este respeito, qual foi a motivação para a criação da Comissão de Assuntos Judaicos do PT?
      
       O principal motivo que me inspirou foi a minha indignação no tocante à calúnia afirmando que o PT era formado por elementos anti-semitas. Lula particularmente era alvo destes ataques, muitas vezes entremeados com considerações maldosas quanto à sua origem popular. Atente-se que esta intriga respondia por dois motivos básicos: em primeiro lugar, o conservadorismo de largos setores da comunidade. Em segundo lugar, tínhamos a questão do Oriente Médio. O conflito árabe-israelense constituiu raiz de profundo mal-estar na comunidade judaica quando Airton Soares, candidato do PT de São Paulo no início dos anos 80, declarou que o Partido seria contrário à existência do Estado de Israel.
        Esta declaração irresponsável, que não refletia qualquer posição oficial do PT, motivou ainda outras intrigas, como a de que o Partido estaria recebendo dinheiro da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Eu ficava revoltado com esta forma extremamente baixa e vulgar de se fazer política, até porque era uma mentira deslavada. O mais incrível de tudo isto é que estas histórias corriam soltas num momento em que o Partido passava por notórios problemas financeiros e tinha na venda de bótons e de material promocional do próprio PT, além de doações de militantes e simpatizantes, o essencial da sua arrecadação. Eu mesmo tinha feito parte da parte da Comissão de Estadual de Finanças do PT, durante a campanha do Eduardo Suplicy para o governo do Estado em 1986, e enquanto um dos cinco responsáveis pelo dinheiro da campanha, jamais cheguei a ver sequer um centavo da OLP no caixa do Partido.
        Outro motivo que me incentivou a fundar um grupo de discussão judaico no PT era a falta de acúmulo de discussão quanto a temas judaicos no interior do Partido. Embora no Partido existissem, é evidente, vários militantes judeus, eu não percebia qualquer movimentação no sentido desta discussão florescer. Por isso mesmo, decidi juntamente com outros militantes judeus do Partido, criar a Comissão de Assuntos Judaicos do PT. Esta passou a funcionar a partir de 1986, vinculada diretamente ao Diretório Estadual de São Paulo.
        Na sua fundação, teve papel fundamental a atuação de José Dirceu de Oliveira e Silva, que então exercia o comando do Partido em São Paulo. Se houve alguém que colaborou com a formação da Comissão de Assuntos Judaicos do PT, este alguém foi o Zé Dirceu.
     
         Houve outros judeus engajados no projeto? Como ela funcionava?

        Fiquei muito contente no dia em que recebi um comunicado do José Dirceu aprovando, em nome da Executiva Regional, o funcionamento da Comissão de Assuntos Judaicos do PT. Foi assim que o PT tornou-se o único partido no Brasil com uma comissão de assuntos judaicos. A atuação básica deste grupo, uma vez que se tratava de uma comissão do Partido, consistia de reuniões periódicas desenvolvidas na sede do Diretório Regional do PT. Naturalmente, existiram outros judeus que participaram da Comissão.
        Recordo-me particularmente do Vitor Benda, do Sindicato dos Bancários e do Alexandre Leone, que atualmente exerce o rabinato nos EUA. Outros judeus petistas, embora não participassem diretamente, sempre apoiaram o trabalho da Comissão, como foi o caso do economista Paul Singer. Intelectuais próximos ao Partido manifestaram interesse em conhecer o trabalho da Comissão e em alguns momentos contribuíram com o trabalho desenvolvido pelo grupo. Este foi o caso, entre outros, de Maurício Tragtemberg e Boris Chnaiderman.
        Por outro lado, é importante assinalar que a Comissão de Assuntos Judaicos constituía uma instância do Partido, e assim, era aberta a participação de todos os militantes, judeus ou não judeus. Assim sendo, embora a maior parte dos participantes da Comissão de Assuntos Judaicos fosse formada por membros da comunidade, existiam não-judeus interessados pela discussão que ela desenvolvia.
        Para mim, a experiência da Comissão foi muito interessante, porque ficava perceptível a existência de um grande número de “hebrófílos” e a Comissão propiciava este espaço de discussão. Neste particular, recordo-me da atuação de Bergamo Pedrosa, do PT de São José dos Campos (SP) e de Antônio Hohlfeldt, de Porto Alegre (RS).

        Quais as matrizes que pautaram a ação da Comissão de Assuntos Judaicos do PT?

        As linhas políticas básicas do trabalho da Comissão de Assuntos Judaicos do PT foram explicitadas no documento “Teses de Atuação”, apresentado em 1986 junto à Executiva do Diretório Regional do PT de São Paulo. Este documento, lastro de todas as atividades desenvolvidas pela Comissão a partir de então, estabelecia as seguintes linhas de intervenção: esclarecer o Partido com relação aos judeus; fortalecer a atuação do Partido junto às culturas minoritárias; fortalecer a atuação do PT junto à Comunidade Judaica e aprofundar o debate do Partido sobre a Questão do Oriente Médio.
        Uma das mais notáveis iniciativas da Comissão de Assuntos Judaicos do PT foi a realização do Seminário “A Questão Racial e a Esquerda”, em agosto de 1988. O evento desenvolveu-se no Plenário Pedroso Horta da Câmara Municipal de São Paulo e agregou significativa participação e depoimentos muito interessantes, posteriormente transcritos e publicados no livro Política da Minorias - O Caso dos Judeus no Brasil, editado pela Fundação Mercado Aberto e pela editora Mercado Aberto(1).
        Até hoje, este livro foi o primeiro e único a ser publicado por uma comissão do PT, motivo pelo qual mesmo tendo me desvinculado do Partido desde 1993, sinto-me orgulhoso pelo trabalho desenvolvido pela Comissão.

        Qual era a opinião geral da comunidade judaica na fase de maior radicalização do PT?

        Era muito ruim. Um setor significativo da comunidade repudiava o PT. Naturalmente, esta posição não era compartilhada pela comunidade na sua totalidade e recorde-se, neste sentido, a existência de judeus militantes do PT desde a sua fundação.

        Como a comunidade via o trabalho da Comissão de Assuntos Judaicos?

        Creio que muito desta percepção pode ser avaliada a partir dos órgãos de comunicação da comunidade. Ao longo dos cinco anos em que exerci a coordenação da Comissão de Assuntos Judaicos do PT foram várias as inserções da Caju na imprensa comunitária. Além das revistas, a Comissão foi particularmente citada em um jornal comunitário que mantinha resoluta oposição a tudo que dissesse respeito ao PT. Neste particular, assinale-se que esta atitude incluía a atuação da própria Comissão. Freud explica! Este jornal tinha evidente dificuldade em explicar como um Partido designado de anti-semita mantinha em funcionamento oficial um grupo judaico.
        Por outro lado, registraria em particular uma entrevista publicada pela revista Emdá (órgão informativo do movimento juvenil comunitário Netzah Israel) que foi, na minha opinião, a mais elucidativa quanto ao trabalho da Comissão e a natureza das questões que esta procurou discutir dentro e fora do Partido(2). Recorde-se também que quando eu fui candidato em 1990, um número expressivo de judeus apoiou minha candidatura. Na ocasião, fui convidado para participar de debates na comunidade, conseguindo conquistar votos de jovens e estudantes universitários em particular. Em resumo, as opiniões relativamente à Comissão sempre foram balizadas, no interior da comunidade, em razão da inserção ideológica das pessoas e dos grupos e assim, pude coletar toda sorte de opiniões quanto à Caju.

        Lula, José Dirceu e Suplicy acompanhavam de perto as atividades da Comissão de Assuntos Judaicos do PT? Como o seu trabalho era visto pelos chefões do Partido?

        Não só os líderes, mas o conjunto do Partido sempre acompanhou o trabalho da Comissão. Em primeiro lugar pelo fato da Comissão ser um órgão do Partido e enquanto tal, regularmente prestava contas das suas atividades nos boletins do PT, que circulavam na massa da militância. Ademais, a Comissão distribuía um informativo próprio, o PT-Shalom!, que era distribuído para todas as instâncias do PT. Sempre senti muito incentivo por parte das lideranças do Partido.
        Obviamente o Lula conhecia o trabalho da Comissão e nunca recebi qualquer observação negativa de sua parte. Em 1986, a Comissão elaborou para ele um “Perfil da Comunidade Judaica de São Paulo” para orientá-lo na campanha eleitoral, um material, aliás, muito elogiado pela sua assessoria. Particularmente, ele dirigiu para mim palavras muito gentis de incentivo quando fui candidato do PT em 1990. Recordo-me quando ele pegou o meu filho Leon no colo e brincou com ele.
        O Zé Dirceu, na época presidente do PT paulista, participou de várias iniciativas da Comissão e há o registro de um depoimento por ele realizado que foi publicado no livro já citado Política das Minorias - O Caso dos Judeus no Brasil. O Eduardo Suplicy manifestou em 1987 seu desejo em visitar a Congregação Israelita Paulista e sua demanda foi prontamente atendida pela Comissão. A visita foi um grande sucesso e o único problema foi a dificuldade do Suplicy equilibrar na cabeça a kipá a ele fornecida pela Comissão.

        Como você pondera o relacionamento da comunidade judaica com o governo Lula, agora presidente de todos os brasileiros?

        A ascensão ao poder de Luís Inácio Lula da Silva, o primeiro presidente de origem popular da história da República brasileira é por si só um fato político e cultural de peso extraordinário. Sem nenhum exagero, o simbolismo da vitória de Lula pode efetivamente magnetizar novas esperanças e expectativas no povo brasileiro, particularmente nos setores populares, tradicionalmente excluídos da participação efetiva na vida do País. Ao mesmo tempo, a nova situação que se descortina a partir deste acontecimento suscita uma série de dinamismos que podem desatualizar - e desqualificar - qualquer análise que prescinda da necessária e indispensável preocupação em avaliar o amplo leque de variáveis que justamente pautam o exercício da política no Brasil.
        A política brasileira é um tema difícil de ser compreendido na sua plenitude. Menos ainda quando as ferramentas de análise obedecem antes à pressa do que a meditação, mais a contingência do que as visões de projeto. Mesmo estando afastado da militância partidária - mas não da atuação política - entendo que este momento é de suma importância para que todos os brasileiros, e aí se incluem os membros da nossa comunidade, atuem no sentido de repensar sua prática como cidadãos, pois o País necessita de reformas urgentes.
        Uma vez afastado para sempre o fantasma do “anti-semitismo petista”, o que está reservado aos judeus brasileiros é o mesmo destino comum ao conjunto do povo brasileiro: mudar o nosso País para melhor, muito melhor. Tratemos, pois de aproveitar este momento!

50 anos de revolução cubana: blogueira comenta

quinta-feira, janeiro 8th, 2009

Yo no había nacido cuando en abril de 1961 se declaró el carácter socialista del proceso cubano. “Esta es la revolución socialista de los humildes, por los humildes y para los humildes…” anunció Fidel Castro cerca de las premonitorias puertas del cementerio de Colón. Muchos que lo escucharon, jubilosos y optimistas, suponían que el primer propósito revolucionario sería que dejara de haber gente humilde. Con esa ilusión, salieron a defender un futuro sin pobreza.

Al observar a los actuales destinatarios de lo anunciado hace casi cincuenta años, me pregunto cuándo la prosperidad dejará de verse como contrarrevolucionaria. ¿Querer vivir en una casa a la que el viento no logre arrancarle el techo dejará de ser -algún día- una debilidad pequeño burguesa? Todas las carencias materiales que percibo cuestionan el sentido de este colosal vuelco en la historia del país, sólo para que dejara de haber ricos, al precio de que hubiera tantos pobres.

Si al menos fuéramos más libres. Si todas esas necesidades materiales no se plasmaran también en una larga cadena que hace a cada ciudadano un siervo del Estado. Si la condición de humildes fuera una elección voluntariamente asumida y especialmente practicada por quienes nos gobiernan. Pero no. La renovada exaltación de la humildad lanzada por Raúl Castro este primero de enero nos confirma lo aprendido en décadas de crisis económica: que la pobreza es un camino que lleva a la obediencia.

Da blogueira Yoani Sanchez, de Havana

www.desdecuba.com/generaciony

Até a madrugada da quinta-feira, 08, este post foi comentado por 3.339 internautas

Guerra Israel x Hamas vista de perto

terça-feira, janeiro 6th, 2009

Mudar as palavras - João Pereira Coutinho (Folha de S.Paulo/Blog Reinaldo Azevedo)

Israel está novamente em guerra com os terroristas do Hamas, e não existe comediante na face da Terra que não tenha opinião a respeito. Engraçado. Faz lembrar a última vez que estive em Israel e ouvi, quase sem acreditar, um colega meu, acadêmico, que em pleno Ministério da Defesa, em Jerusalém, começou a “ensinar” os analistas do sítio sobre a melhor forma de acabarem com o conflito. Israel luta há 60 anos por reconhecimento e paz.
Mas ele, professor em Coimbra, acreditava que tinha a chave do problema. Recordo a cara dos israelenses quando ele começou o seu delírio. Uma mistura de incredulidade e compaixão.

Não vou gastar o meu latim a tentar convencer os leitores desta Folha sobre quem tem, ou não tem, razão na guerra em curso. Prefiro contar uma história.

Imaginem os leitores que, em 1967, o Brasil era atacado por três potências da América Latina. As potências desejavam destruir o país e aniquilar cada um dos brasileiros. O Brasil venceria essa guerra e, por motivos de segurança, ocupava, digamos, o Uruguai, um dos agressores derrotados.

Os anos passavam. A situação no ocupado Uruguai era intolerável: a presença brasileira no país recebia a condenação da esmagadora maioria do mundo e, além disso, a ocupação brasileira fizera despertar um grupo terrorista uruguaio que atacava indiscriminadamente civis brasileiros no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

Perante esse cenário, o Brasil chegaria à conclusão de que só existiria verdadeira paz quando os uruguaios tivessem o seu Estado, o que implicava a retirada das tropas e dos colonos brasileiros da região. Dito e feito: em 2005, o Brasil se retira do Uruguai convencido de que essa concessão é o primeiro passo para a existência de dois Estados soberanos: o Brasil e o Uruguai.

Acontece que os uruguaios não pensam da mesma forma e, chamados às urnas, eles resolvem eleger um grupo terrorista ainda mais radical do que o anterior. Um grupo terrorista que não tem como objetivo a existência de dois Estados, mas a existência de um único Estado pela eliminação total do Brasil e do seu povo.

É assim que, nos três anos seguintes à retirada, os terroristas uruguaios lançam mais de 6.000 foguetes contra o Sul do Brasil, atingindo as povoações fronteiriças e matando indiscriminadamente civis brasileiros. A morte dos brasileiros não provoca nenhuma comoção internacional.

Subitamente, surge um período de trégua, mediado por um país da América Latina interessado em promover a paz e regressar ao paradigma dos “dois Estados”. O Brasil respeita a trégua de seis meses; mas o grupo terrorista uruguaio decide quebrá-la, lançando 300 mísseis, matando civis brasileiros e aterrorizando as populações do Sul.
Pergunta: o que faz o presidente do Brasil?

Esqueçam o presidente real, que pelos vistos jamais defenderia o seu povo da agressão.

Na minha história imaginária, o presidente brasileiro entenderia que era seu dever proteger os brasileiros e começaria a bombardear as posições dos terroristas uruguaios. Os bombardeios, ao contrário dos foguetes lançados pelos terroristas, não se fazem contra alvos civis -mas contra alvos terroristas. Infelizmente, os terroristas têm por hábito usar as populações civis do Uruguai como escudos humanos, o que provoca baixas civis.

Perante a resposta do Brasil, o mundo inteiro, com a exceção dos Estados Unidos, condena veementemente o Brasil e exige o fim dos ataques ao Uruguai.

Sem sucesso. O Brasil, apostado em neutralizar a estrutura terrorista uruguaia, não atende aos apelos da comunidade internacional por entender que é a sua sobrevivência que está em causa. E invade o Uruguai de forma a terminar, de um vez por todas, com a agressão de que é vítima desde que retirou voluntariamente da região em 2005.

Além disso, o Brasil também sabe que os terroristas uruguaios não estão sós; eles são treinados e financiados por uma grande potência da América Latina (a Argentina, por exemplo). A Argentina, liderada por um genocida, deseja ter capacidade nuclear para “riscar o Brasil do mapa”.

Fim da história? Quase, leitores, quase. Agora, por favor, mudem os nomes. Onde está “Brasil”, leiam “Israel”. Onde está “Uruguai”, leiam “Gaza”. Onde está “Argentina”, leiam “Irã”. Onde está “América Latina”, leiam “Oriente Médio”. E tirem as suas conclusões. A ignorância tem cura. A estupidez é que não.

Jornal local publica fantasia cubana

terça-feira, janeiro 6th, 2009

Quem quer conhecer a realidade da Cuba de Fidel tem que acessar o site www.desdecuba.com/generaciony . A cobertura dos 50 anos da Revolução Cubana feita por um jornal local foi infame. Era melhor publicar logo os releases do Ministério da Informação Cubano. Não se pode discutir a ideologia do jornalista que foi a Cuba para escrever sobre o tema, mas sim o que foi publicado. Distorce a realidade cubana e faz propaganda política. É curioso que o tal jornal aceite matérias equivocadas propositadamente. Não faz parte da sua história recente. E não há editor internacional que não saiba o que se passa em Cuba. Foi desleixo ou submissão às patrulhas ideológicas, que querem manter a fantasia castrista.