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domingo, 07-03-2010 |
Em julho de 2007, Rogê deu essa entrevista a revista Algomais. Com a sua nomeação para presidente da TV Pernambuco, televisão do Governo do Estado, vale a pena conhecer um pouco da sua vida.
Antonio Magalhães
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A sopa do Chacrinha da esquerda
Drogas | A favor da descriminalização da maconha, mas contra o crack, a droga que é o combustível da violência urbana
Por Antonio Magalhães
A cena é diária como seu programa na TV Universitária. O apresentador Roger de Renor, o Rogê, 47 anos, chega esbaforido, suado, depois de pedaladas de Boa Viagem à rua da Aurora, troca a camiseta no estúdio, ainda suado veste por cima um blaser de cor indefinida e entra no ar às 12 horas com seu Sopa Diário, a sopa vista pela ótica da mosca. Um cenário exótico abriga a mesa de entrevista, um carretel gigante de fios de telecomunicação. Os temas puxam para o popular, a visão do povo pela ótica da esquerda. As conversas giram sobre tudo que interessa a galera que lhe dá audiência, política, sexo, drogas e música. No palco ao lado recebe bandas e músicos conhecidos. E também desconhecidos, iniciantes, marginais, populares, todos que tenham talento.
Filho de um oficial da Aeronáutica, nascido em Piedade, morador da vila militar, Rogê não assimilou a disciplina militar. É um anárquico. Começou como capoeirista, foi divulgador de disco, dono de bar, apresentador de rádio e agora está na TV, atuações formais. Numa delas, como dono da Soparia, bar que fez sucesso nos anos 90, no Pina, foi processado pela Ordem dos Músicos de Pernambuco porque deixava os músicos tocarem sem contrato. Talvez sem essa irreverência não houvesse o movimento Mangue Beat, que teve seu palco inicial nesse local.Só agora está chegando a um acordo judicial com a Ordem.
No vídeo se multiplica: é sério, irritado, engraçado, debochado, em momentos diferentes, e tem língua solta para gírias e palavrões hoje pueris, uma mistura da linguagem dos anos 70 com o palavreado jovem atual. “A minha importância na cultura pernambucana é por estar no lugar certo, na hora certa. Estou aqui na TV mais como articulador. Esse papo de abrir espaço fica para o Dr Smith (da série dos anos 60 Perdidos no Espaço)”, diz Rogê.
Ele pode não gostar, mas alguns o chamam de Chacrinha da esquerda. Ao contrário do velho apresentador dos anos 70 já falecido, que lançava bacalhau para o público, Rogê lança mensagens culturais e torpedos políticos. Vale a pena saber o que ele pensa na entrevista abaixo.
Algomais | Como você se define? É um produtor cultural, um artista ou um articulador cultural?
Roger de Renor | Acho que eu sou mais um comunicador popular do que um produtor cultural. Na comunicação você está sempre produzindo e o tipo de coisa que faço está sempre ligado à cultura, então eu levo o nome de produtor. Na área que trabalho, prefiro dizer que estou apresentador de TV, como eu poderia estar no radio FM, numa emissora comunitária, até mesmo numa perna de pau com um megafone, atrás de um balcão de bar ou nas mesas da praça. Eu trabalho com comunicação.
Am | Você teve um programa no rádio chamado a Sopa da Cidade?
RR | Foi na Rádio Cidade por três anos. Trabalhava de uma forma mais irresponsável, no limite permitido à comunicação das FMs. Até então a FM funcionava assim: pouco papo e muita música. Está comprovado hoje que as pessoas querem ouvir muito papo, música e opinião. Então fui aos extremos do rádio ao vivo local. O diferencial era esse, enquanto as outras emissoras não tinham opinião, lá eu tinha liberdade total de dizer o que queria. Até para falar gírias locais, como tu num sabe, oxê, peraí, meu irmão. Convencionou-se que apresentador de FM tem que dizer ô, louco! Dei um sotaque regional à FM.
Am | Por que a fixação na sopa?
RR | Depois de trabalhar como divulgador de disco, resolvi botar um bar, a Soparia, que durou quase 10 anos, lá no Pina. O bar ficou marcado pela diversidade cultural. Só não dava grana. Fiz uma consulta ao Sebrae para saber por que a Soparia não lucrava. Os consultores me disseram que mesmo que vendesse diariamente todo o estoque de bebidas não ia render nada. Era financeiramente inviável. Pensei depois que devíamos ter feito a consulta como veículo de comunicação. Porque, na verdade, o que eu fazia lá era isso que faço hoje: comunicação. A Soparia, como uma metáfora, virou uma marca, fui para o radio com a Sopa da Cidade e para a TV como o Sopa Diário.
Am | A Soparia teve o mérito de divulgar bandas do movimento Mangue Beat, como o Maracatu Nação Zumbi & Chico Science e a Mundo Livre?
RR | A Soparia foi mesmo um local de encontro dessa galera. Era um espaço aberto. Tinha música ao vivo com nome dos artistas ou das bandas. Dentro da Soparia tivemos as primeiras reuniões para o Abril Pro Rock. Foi um bom momento, enquanto eu saia do trabalho de divulgador de disco para abrir o bar, Fred Zero Quatro deixava o estágio de jornalismo para se dedicar à banda Mundo Livre.
Am | Como foi sua amizade com o Chico Science?
RR | Chico ia muito ao bar. Numas dessas conversas, ele identificou as minhas fantasias de carnaval como originais de uma estética Mangue, por ser uma coisa psicodélica com elementos regionais. No disco Afrociberlia tem uma foto da minha fantasia de girassol que uso até hoje. Foi mais uma identificação estética do que praticamente uma amizade diária E tem a história do Gálaxie Landau também. Eu comprei um .Na volta de uma excursão pelos Estados Unidos Chico viu meu carro e comprou igual. Mas ajeitou o dele para ficar parecendo com os carrões americanos do Brooklin. Com sonzão, luz negra. Era mais a identificação estética. Com a música que ele fez para o bar, “Cadê Rogê”, a Nação Zumbi me deu mais força do que eu dei para Chico.
Am | Depois da Soparia você abriu o bar Pina de Copacabana, na rua da Moeda?
RR | A Soparia perdeu o controle. Eram muito bares, muita gente, ambulante, policiais e traficantes. Eu não conhecia mais ninguém, não conseguia mais controlar tudo aquilo. Meus amigos não iam mais lá, já não me divertia como antes. Afinal de contas não queria que aquilo virasse um trabalho. Fui para a rua da Moeda para formar um novo público.
Am | Quanto tempo passou lá?
RR| No Pina de Copacabana fiquei dois anos e meio mas já era previsto que seria uma temporada curta. Por ser mais perto do centro do Recife também houve o descontrole da rua. Saí na hora certa, com o público lotando o bar.
Am | O Recife sobrevive culturalmente sem o apoio da prefeitura?
RR | Não. Nos últimos anos corremos atrás da Prefeitura do Recife, do Governo do Estado e da Chesf. A Chesf suspendeu os patrocínios e deixou todo mundo aperreado. A gente também depende dos sistemas de incentivo à cultura, o SIC (municipal) e o Funcultura (estadual). Muitos dos projetos aprovados, inclusive o Sopa Diário, têm que depender desse incentivo. Não há opção, no momento, para o setor cultural. A função dos fundos de cultura é financiar os projetos mais ousados até que eles possam andar com suas pernas.
Am | O patrocínio oficial não tira a independência cultural?
RR | Quando o patrocínio é direto existe a possibilidade de intervenção. Mas com fundos de cultura é diferente. Eles servem para que possamos sobreviver às mudanças de governo. Mas o que precisamos mesmo é mudar a mentalidade empresarial da cidade: muitos empresários não entram no fundo de cultura com medo de fiscalização da Fazenda.
Am | Ariano Suassuna criou o Movimento Armorial para dar ares eruditos à cultura popular. Já você valoriza a cultura popular com tecnologia. Você vê uma grande diferença entre o seu ponto de vista e o do Movimento Armorial?
RR | Não. Muda apenas a forma como se faz o trabalho. Estamos voltados, nós e o Armorial, para dar destaque ao que se faz nas comunidades, onde se faz cultura e há uma concentração de pobreza. Só que vejo para a cultura popular as possibilidades tecnológicas de mixar, de reprocessar, com outras culturas. Já Ariano trabalha a cultura popular de forma mais purista. Prefiro o remix disso tudo. Gosto de ouvir tanto o mestre Salustiano como ele toca e como o que fez mixado pelo DJ Dolores e já transformado. Acho que termina todo mundo lutando no mesmo front.
Am | A pirataria já faz hoje parte do mundo cultural?
RR | Exato. Sou contra a pirataria comercial que tem um dono e que cada carrocinha de CD pirata funciona como um elo de uma cadeia empresarial. Defendo o compartilhamento da informação, da sua distribuição gratuita na Internet, sem o atravessador e com autorização do próprio autor..
Am | Sua atuação é forte nas comunidades pobres com focos de violência. Pode-se combater isso com a arte?
RR | Quando vejo a moçada pela rua, lembro-me do ditado de minha avó: cabeça vazia morada do diabo. É preciso ocupar essa galera de rua. Ela vive o tempo inteiro bombardeada pela mídia para comprar o novo tênis, o novo celular, para ficar bonita e para comer a gostosa da propaganda da cerveja. O pessoal vai para a rua querendo isso e não vai encontrar. Vai encontrar vinho barato, pedra de crack para fumar. Vai encontrar a polícia para receber lapada. A gente precisa ocupar essa galera e ocupar mesmo, não só com eventos, mas no seu lugar para que ela não precise sair do seu bairro para ir ao centro.
Am | As políticas públicas são eficientes?
RR | Temos que ir além da atual política. Temos que fazer um corpo-a corpo, pois a gente está numa guerra. Se ninguém fizer nada não se vai ter tempo de fechar o vidro do carro para a moçada. Cada um tem que fazer a sua parte, inclusive todos os veículos de comunicação.
Am | E a música seria uma dessas ações?
RR | A trilha sonora é o fator principal para um final feliz. Para o Recife a música é o principal viés.
Am | Como você vê o crescimento do consumo de drogas em Pernambuco?
RR | Eu vejo com muito pesar e uma dor enorme. Acompanho esse pessoal desde a Soparia. Saí de lá principalmente porque o comércio de droga girava em torno do bar. A droga atrai violência, atrai gente equivocada, público equivocado, polícia e traficantes equivocados, consumidor equivocado. A droga é um grande equívoco. Sou a favor da descriminalização da maconha, mas sou a favor também de uma política de combate ao uso de crack, que tem contribuído para a violência. Os meninos de rua não cheiram mais cola fumam crack. A droga mudou.
Am | O consumo de crack acontece também na classe média?
RR | Vejo os jovens de classe média sendo internados para tratamento, mas também vejo taxistas, guardadores de carros, ambulantes, morrendo magros, secos, chupados por causa da porra dessa droga. É preciso também encarar o problema da droga de forma menos hipócrita. E menos velada do que a gente trata no Recife. Parece uma coisa que rico pode e temos que fazer silêncio. Quando o caso fica grave ele vai para clinica de desintoxicação. Já o pobre é safado, viciado, e quando fica fodido vai preso ou vai morrer no hospital público.
Am | Você é um homem das mil faces. Pinta o cabelo, deixa a barba crescer, corta um ou outro várias vezes, depois volta ao natural. Por que as mudanças?
RR | Não sei se é por ansiedade ou é uma forma de brincar. Faço do rosto uma piada, uma nova fantasia. Na verdade me fantasio o ano todo e no carnaval apareço com minha verdadeira cara. As pessoas podiam colaborar mais para o mundo ficar mais alegre. Já que não posso mudar o cenário do programa todo o mês, mudo o rosto. Fica mais barato.
Am | O bom humor é só no programa ou você se considera uma pessoa bem humorada?
RR | O meu bom humor é proporcional ao meu mau humor. Eu tenho cara de bem humorado, espirituoso nas brincadeiras, mas ao mesmo tempo fica difícil manter isso quando se trabalha com comunicação, com um programa diário. Às vezes fico pensando como posso manter o equilíbrio com tanta informação ou se deveria buscar a poesia da informação para não ficar rancoroso com o dia-a-dia, uma realidade tão cruel no Recife, uma cidade tão linda e antagônica. Então eu aproveito o meu bom humor para viver bem o dia-a-dia.
Am | E como alivia essa tensão?
RR | Moro no edifício Califórnia, em Boa Viagem, e venho de bicicleta para a TV Universitária para pensar melhor. É muito perto vir para cá, apesar de todo risco. Geralmente venho pela avenida José Estelita ou Sul e volto por um dos passeios mais lindos do Recife, pelos arrecifes. Atravesso de barco com a bicicleta por R$ 1,50, sigo pela beira da praia em Brasília Teimosa e chego logo em casa.
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terça-feira, 15-12-2009 |
Na minha última participação na equipe da revista Algomais, que ajudei a criar e a dar os primeiros passos, apresento nesta edição de dezembro de 2009, nº45, a entrevista com o médico pernambucano Enilto do Egito. Ele levanta uma questão importantíssima: a contrapartida que o médico formado em universidade pública tem a dar à sociedade. A Faculdade de Medicina de Pernambuco é gratuita e agora a Ciências Médicas, da UPE, também. É um bom momento para discutir essa contrapartida do formando.
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O bom trato do coração pernambucano
Compensação | Os médicos formados em universidades públicas deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior
Antonio Magalhães
O cardiologista Enilto Sérgio Tabosa do Egito, 59 anos, casado, cinco filhos, pode tanto ser encontrado num consultório do mais importante hospital especializado de São Paulo como na mais desbragada festa de Carnaval do Recife envergando uma fantasia, possivelmente a de Maurício de Nassau, o guru da confraria dos pernambucanos na capital paulista.
O Dr. Enilto do Egito fez a travessia bem sucedida de Timbaúba, na Mata Norte de Pernambuco, onde foi criado, embora nascido na Fazenda Balanço em Macaparana, para o maior centro médico do País, São Paulo. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas, da UPE, em 1974, ele foi naquele mesmo ano para Residência no Hospital da Beneficência Portuguesa com Dr. Adib Jatene e de lá, com o mesmo Jatene, para a chefia da emergência do Hospital do Coração. Lá, construiu uma carreira vitoriosa.
Hoje, Enilto do Egito é referência médica nacional e, principalmente, entre os pernambucanos que vão procurá-lo em São Paulo para tratar dos males do coração. A metafórica coronária saudosa de outros pernambucanos que vivem em São Paulo, como ele, trata com doses exageradas de cultura pernambucana na Confraria Maurício de Nassau, onde é presidente. Um bom remédio para o coração, costuma dizer, é o bom relacionamento com as pessoas.
E ele pratica. Enilto do Egito veio comemorar os 35 anos de formatura com os colegas num resort de Pernambuco. Os velhos amigos. Lá, concedeu esta entrevista a Algomais. Durante a conversa, o médico emocionou-se profundamente duas vezes, travou a fala quando se referiu ao reencontro dos companheiros da primeira viagem a São Paulo e quando enfatizou o orgulho de exercer a profissão. Enfim, um homem ajustado e de bem com a vida.
Algomais | Como foi sua trajetória de Timbaúba para São Paulo?
Enilto do Egito | Aos 22 anos candidatei-me a vice-prefeito na chapa de oposição aos Ferreira Lima, uma oligarquia que dominava a cidade há 50 anos. Perdemos por 300 votos, quando na maioria das eleições eles ganhavam com uma diferença de até 10 mil votos. Depois da derrota fui fazer a residência médica em São Paulo e, como o mais velho, proibi meus irmãos de se meterem em política. No mesmo ano de formado, 1974, fui trabalhar com Dr. Adib Jatene, que já fazia pontes de safena. São Paulo só tinha dois centros de cirurgia cardíaca, o do Dr. Adib e o do Dr. Zerbini, o maior especialista da época em transplantes de coração. Fiz um grande relacionamento com Dr. Adib, o que me permitiu fazer uma ponte com os colegas cardiologistas do Recife, tirando dúvidas e resolvendo as broncas que aconteciam por aqui. O que não aconteceria hoje: o Recife é o segundo centro médico do País e um importante centro da América Latina.
AM | Como foi sua adaptação em São Paulo?
EE | Foi um choque ver uma cidade tão grande. Mas morava na residência médica e quase não saia de lá. Era solteiro e não tinha tempo de passear. Só um ano depois, quando fui a show de Luiz Gonzaga, reencontrei velhos companheiros de viagem num velho fusca do Recife a São Paulo. Estavam lá Luciano Siqueira e Wilson Pimentel que não os via desde a chegada. Fiquei emocionado.
AM | A adaptação foi lenta?
EE | A minha atividade me absorvia muito. Não tinha lazer. Quando estava terminando a residência médica foi inaugurado o Hospital do Coração, o HCOR, e fui chamado por Dr. Adib para chefiar a emergência desse hospital. A partir daí, em 1976, fomos subindo juntos. Como o nordestino leva sua cidade dentro dele dentro, continuei ligado a minha terra, participando quando podia de atividades em Timbaúba e mantendo contato com colegas médicos daqui. O Hospital do Coração foi o começo de tudo.
AM | São Paulo concentra 60% de todos os residentes médicos do Brasil. Não é uma grande concentração?
EE | Esse é o grande problema da área médica no Brasil. Nosso país tem hoje 300 mil médicos. Só São Paulo deve abrigar pelo menos 150 mil, a metade deles. É um problema que as autoridades estão se voltando. Para fixar o médico fora dos grandes centros não é só dar um bom salário. Tem que oferecer também condições de trabalho. Ninguém quer ser médico em Altamira, no Pará, onde não há equipamentos fundamentais para um diagnóstico. As autoridades pensam em criar residências médicas no Norte e no Nordeste para fixar os profissionais. Se eles vão para São Paulo, se dão bem, são grandes as chances deles não voltarem aos seus estados. No Recife se sente menos isso, por conta do Polo Médico, mas no Interior há muita carência de médico especialista porque não se cria uma boa estrutura para o ato médico. Muita gente sai para trabalhar por lá e volta para a capital.
AM | Quer dizer então que a Medicina está cada vez mais dependente dos equipamentos de alta tecnologia?
EE | Não tenha dúvida. A figura do médico com um estetoscópio é cada vez mais antiquada. Claro que a clinica médica continua soberana. O contato pessoal do médico com o paciente é muito importante. Mas ele tem que ficar atento, pois precisa de um diagnóstico. Hoje se cobra muito dos médicos o apoio tecnológico. E a tecnologia é cara: um aparelho de ressonância magnética, por exemplo, custa dois, três milhões de Reais que têm que se pagar. Há aí o problema crônico das cidades periféricas: sem a tecnologia não há possibilidade de fixar o médico no Interior.
AM | A saúde pública então fica jogada às traças por falta de verbas para equipamentos de alta tecnologia?
EE | Vou frequentemente a Macaparana, a São Vicente Ferrer, a Timbaúba, e vejo as dificuldades da área de saúde. Normalmente para se fixar no Interior, o médico vai se transformar em político, fazendeiro, ou marido da filha do líder político local. Essa é maneira mais fácil que os colegas encontram para viver fora dos grandes centros. Vale mais o amor à camisa, a sua relação com a cidade, para um profissional trabalhar, por exemplo, em São Vicente Ferrer com poucas condições de infraestrutura na área.
AM | A formação dos médicos é deficiente?
EE | Veja bem, a Faculdade de Medicina ensina o indivíduo a aprender. Hoje para completar a formação são necessários 11 anos de estudo e prática – seis na faculdade, dois na residência médica e três anos de especialização. É uma formação complexa. O funil hoje não o vestibular de Medicina, mas a Residência: são quatro mil vagas para 10 mil médicos que se formam por ano no Brasil.
AM | O Brasil tem suficientes Faculdades de Medicina?
EE | Demais até. São Paulo tem um médico para 500 habitantes, quando o ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, é em torno de um médico para mil habitantes. Pernambuco é um dos estados que mais segurou a criação de novos cursos. Teve durante muito tempo duas faculdades de Medicina e agora chegou uma terceira. Já o Amapá tem quatro faculdades, vai ver que duas são do (senador) Sarney. São faculdades sem condições de formar médicos e que não contam sequer com um hospital. Uma faculdade de Medicina não é uma Escola Superior de Direito, onde o cara estuda no livro. Ela tem que ter a prática e para isso precisa de um hospital. Dr. Adib Jatene que comanda hoje o Conselho Nacional de Residência Médica tem brigado muito contra isso e vai fechar muita faculdade por aí.
AM | Então a maior queixa não é pela falta de médicos, mas pela centralização deles em determinada região?
EE | Certamente. Há uma revoada para os grandes centros. Em São Paulo não cabe mais. Todo ano vão centenas de médicos nordestinos e nortistas fazerem a Residência em São Paulo. O estado que gastou na formação dos profissionais vai vê-los trabalhando para outro estado.
AM | Os formandos das faculdades públicas não deviam ter compromisso com o estado que possibilitou sua formação?
EE | É o caminho certo. Não há outra saída. Deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior. E essa opção está se definindo.
AM | Recife é o hoje um centro médico de excelência. E como era antes?
EE | Quando saí do Recife existiam duas faculdades – a Ciências Médica e a Federal. Mas tinham grande médicos, como Luís Tavares. que trouxe muita tecnologia para cá. Mas não tinham pessoas, por exemplo, formadas para cirurgias cardíacas. Era uma coisa muito nova. As cirurgias de ponte de safena completaram 50 anos agora. Eu estou em São Paulo há 35 anos. Embora hoje o Recife tenha uma estrutura muito boa, não dá mais para voltar. Tenho outras atividades extracurriculares. Sou diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e muita coisa me prende em São Paulo.
AM | Para o jovem médico o Recife é bom centro formador?
EE | Sem dúvida. Ele pode tranquilamente escolher o Recife para praticar sua atividade. Ir para São Paulo só para estágios específicos, assim como se vai para Inglaterra ou Estados Unidos. E não, como já foi no passado, o único centro avançado para exercer a profissão.
AM | Mas sua experiência paulista foi bem positiva?
EE | De fato. Conheci no Hospital do Coração minha mulher, que é pernambucana e médica. Foi uma adaptação bem mais fácil porque tive logo o reconhecimento profissional e a sobrevivência garantida pelo emprego no hospital. O médico que tem que lutar pela sobrevivência tem mais dificuldades que podem prejudicar seu desempenho. Por outro lado, para suprir a carência afetiva ou saudade da nossa terra criamos há mais de 20 anos a Confraria Maurício de Nassau, que congrega pernambucanos.
AM | Têm muitos pernambucanos como você na Confraria Maurício de Nassau de São Paulo?
EE | Têm muitos médicos. E já houve mais. Alguns estão voltando. Quando o Banorte existia tinha mais gente de vários setores profissionais que participava da confraria. Depois que foi vendido ficou um grupo grande de médicos. Aí demos uma diminuída porque tinha virado um congresso. Não era mais uma confraria.
AM | O que é a confraria?
EE | É um ponto de encontro para conversas, discussões sobre a cultura pernambucana, apresentações de artistas, com jantares mensais, onde se é possível saber o que a nossa gente está fazendo em São Paulo. Fazemos festa de Carnaval, São João, mantemos nossas tradições e hábitos. Temos até um boneco de Maurício de Nassau feito pelo bonequeiro de Olinda Sílvio Botelho. Nas comemorações dos 350 anos da vinda de Nassau ao Recife quiseram trazê-lo, mas ninguém queria se responsabilizar por ele. Não deixei.
AM | Quer dizer que o pernambucano se mantém igual fora de casa?
EE | Não perde nem o sotaque. Eu cheguei em 74 e aonde chego o cabra sabe de onde sou pelo sotaque. Ser de Pernambuco sempre foi um estimulo para nós. Cobram de você uma posição mais ética. E assim deve ser: você traz o Estado, tem uma obrigação. É uma coisa muito interessante.
AM | Os pernambucanos lhe procuram muito em São Paulo?
EE | Tenho grandes amigos. Cada paciente termina um amigo. Tem dias que atendo até seis, sete pernambucanos. Cuido do coração e dou referências de outras especialidades. Inclusive para parte social do Hospital do Coração que atende os carentes de qualquer parte do País.
AM | Como está o coração do brasileiro?
EE | O coração do brasileiro se compara aos corações do Primeiro Mundo ocidental. A quantidade de mortes aqui é igual a dos Estados Unidos. Perdemos 350 mil, 400 mil pacientes por ano por doenças cardíacas. Na fase mais produtiva e na meia idade. Por isso que se gasta tanto em Cardiologia porque pega o indivíduo na fase ascendente. Uma das causas que mais contribuem é o estresse. O que reduz o estresse é o que estou fazendo em Pernambuco, recarregando as baterias, revendo os amigos, como a confraria faz.
AM | O fim do sedentarismo e mais exercícios ajudam também?
EE | Do ponto de vista médico são corretos. Em Timbaúba a gente comia fígado, sarapatel, mas andava muito. Meu avô andava seis quilômetros para fazer qualquer coisa. As pessoas se exercitavam muito. Hoje não se mexe nem na alavanca para baixar o vidro do carro. É tudo botão, controle remoto. As pessoas estão cada vez mais sedentárias. A comida é fast food, pizza, hábitos alimentares errados.
AM | Hoje as cirurgias cardíacas não preocupam?
EE | Atualmente a mortalidade em cirurgia cardíaca é menos de um por cento. É uma rotina com poucos acidentes porque temos um check list. O cirurgião já sabe o que vai fazer com toda segurança. O stent, uma molinha que é colocada por um cateter dentro da coronária esmaga a placa de gordura como se fosse um minúsculo bob de cabelo. A grande noticia é que o hoje o stent é usado em 70% dos pacientes que eu abriria seu peito há 20 anos. Além do mais, a parte clinica melhorou muito. Quatro remédios que salvam vidas hoje: a Estatina contra o colesterol, a Aspirina, que afina o sangue, os inibidores de enzimas que protegem as artérias, e o beta bloqueador. Eles mudaram a história da mortalidade nessa área. Hoje, com remédio, o fim do cigarro, exercícios regulares, boa comida e bons relacionamentos, a história de um possível futuro enfartado é outra.
AM | Mas você tem maltratado seu coração torcendo pelo Santa Cruz? Inclusive por ser conselheiro do time?
EE | Time de futebol você não escolhe. É escolhido por ele. Você troca de mulher, mas não de time. Parece masoquismo. Mas sou tricolor desde criança e vejo com muita tristeza esse momento do Santa. É um time fora de série, não tem mais série para ele jogar, diz a piada. Mas isso passa isso e ele vai se erguer novamente para nos dar muito orgulho. Mesmo do jeito que está o Santa não me faz mal. Pelo contrário, só me dá alegria.
AM | Qual o conselho você daria para um jovem estudante de Medicina?
EE | Essa é uma profissão de sacrifício. É uma maneira de ajudar o próximo. Caso não pense assim, está na profissão errada. Vá ser comerciante, qualquer coisa. Por aí se diz que não tem médico pobre. É uma verdade desde que não seja preguiçoso. Porque, embora existam 300 mil médicos, há um mercado que necessita de profissionais. Alguns hoje cumprem uma tripla jornada de trabalho. Há espaço para os novos. Sinto muito orgulho de ser médico. Vivo o sonho que sonhei, ajudando as pessoas. Ser médico é ter que trabalhar e estudar muito. E também se inteirar com o que existe em volta, melhorar como ser humano para ser mais útil a si próprio e aos pacientes. Aconselho sempre que se mirem nos seus professores.
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sábado, 14-11-2009 |
Artes plásticas: antes e depois de Abelardo - Revista Algomais nº44
Cuidado | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas.
Antonio Magalhães
As casas da Rua do Sossego se parecem. Mas ao entrar na de número 307, o que se vê é uma decoração completamente inusitada. São esculturas em cimento, em bronze, grandes e pequenas, quadros, gravuras, tapetes. É nessa casa que vive desde 1954 o escultor, desenhista, gravador e ceramista Abelardo da Hora, de 85 anos.
Sua obra é extensa e pode ser vista nas ruas do Recife, galerias, residências, museus do país e do Exterior. Recentemente um neto encontrou pela Internet uma peça sua no museu de Praga. Para o pintor José Cláudio, as artes plásticas pernambucanas estão marcadas em dois períodos: antes e depois de Abelardo da Hora. Não é exagero do amigo e ex-pupilo, Abelardo formou gerações e ícones, como Francisco Brennand.
No fim dos anos 40, Abelardo entrou para o Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, chegando a ser, nas proximidades do golpe militar de 1964, Secretário de Agitação e Propaganda. Ele mesmo: um bem humorado artista, baixo e magrinho, tomou conta da mente das comunistas
Casado há 61 anos com Margarida, irmã do ex-prefeito Augusto Lucena, Abelardo é um homem de família. Cultua os filhos e netos. E está interessado em preservar seu trabalho. Criou o Instituto Abelardo da Hora para estimular novos artistas e manter suas obras.
Abelardo conversou com Algomais na casa-galeria.
Algomais| Como foi sua formação artística?
Abelardo da Hora| Foi uma coisa puramente acidental. Pensava em estudar Mecânica. A passagem do Zepellin pelo Recife me fez desejar construir máquinas. Para tanto, optei pelo curso de mecânica do Colégio Industrial (hoje Etepam). O meu irmão Luciano é queria ser escultor. Na hora da matrícula, não tinha mais vagas para Mecânica e terminei inscrito, com meu irmão, em Artes Decorativas. No primeiro ano já me destaquei dos colegas, inclusive do meu irmão. Depois de fazer a escultura de uns violeiros, o professor Álvaro Amorim conseguiu para mim uma bolsa na Escola de Belas Artes do Recife.
AM | E como foi na Escola de Belas Artes?
AH | Fiz o curso de escultura com o professor Cassimiro Correia que também tinha uma empresa construtora de estuques. Paralelo à escola trabalhava como estucador. Tenho trabalhos na maioria dos prédios da Avenida Guararapes e até no Bar Savoy. Umas mãos no teto foram feitas por mim. Mas quando estava no último ano fui eleito para o diretório da escola e decidi levar os colegas para pintar a natureza fora das salas de aula. Numa dessas andanças, fomos ao Engenho São João da Várzea do coronel Ricardo Brennand, pai de Francisco. O coronel chegou no seu Buick para falar com aqueles jovens à beira do açude da sua propriedade. Conversei com ele sobre meu pai que tinha trabalhado no engenho e ele viu meus desenhos, um deles de uma morena bonita, Cremilda, lhe interessou. Na hora, dei de presente. Foi o começo da amizade.
AM | Mas você foi trabalhar com Ricardo Brennand?
AH | No açude mesmo ele me fez o convite para montar uma oficina de cerâmica artística na sua fábrica. Isso foi em outubro. Em janeiro de 1943 ele me chamou para dentro da sua cerâmica. Comecei fazendo jarros com motivos florais e grandes pratos decorativos chamados Salvas. A amizade corria solta. Tinha confiança do coronel a ponto dele pedir para orientar Francisco Brennand que começou a se interessar por cerâmica artística.
AM | Você foi o professor de artes de Francisco Brennand?
AH | Francisco estava se preparando para fazer o curso de Direito e eu transformei sua vida. Toda manhã ele ia para oficina para aprender a manipular o barro. Ricardo me disse que tirei o advogado da família. Mas Francisco sempre levou muito jeito fazendo arte. Sempre foi um grande amigo, além de talentoso. Até hoje ele não nega a minha influência na decisão dele.
AM | Como foi sua convivência com os Brennand?
AH | Muita boa. Ela durou três anos. Dormia num dos quartos da casa com Francisco, Cornélio e Jorge. E as irmãs deles num quarto próximo. Todo dia acordava e via aquela carinha de anjo de uma delas. Não aguentei. Fiz uma escultura - a Torre dos meus Sonhos - com a carinha de anjo da moça Brennand e o homem abraçado nas suas pernas com a minha cara.
AM | Deu problema a escultura?
AH | Ricardo Brennand me chamou. Disse que eu tinha um tratamento especial na família e que me queria como um filho e suas filhas eram como se fossem minhas irmãs. E por isso mesmo eu não era certo botar o olho numa irmã. Entendi o recado. Resolvi deixar a casa no dia seguinte. Brennand ainda me perguntou se eu queria alguma coisa. Respondi que só a amizade da família. E parti.
AM | Foi para onde?
AH | Fui para o Rio de Janeiro. Lá, trabalhei numa fábrica de manequins de lojas. Ao mesmo tempo me encontrava com artistas no bar Vermelhinho, no centro do Rio, quando essa cidade ainda era Capital Federal. Esperava participar do salão anual do Museu Nacional de Artes que dava de prêmio dois anos de estudos artísticos na Europa. Nas conversas com artistas e jornalistas fui me politizando. Eles encheram minha cabeça de política com as críticas ao presidente Dutra. Quando ficou definido que não haveria o salão de artes decidi voltar ao Recife. O Jornal do Brasil registrou a minha decepção em 1946: “Escultor de Pernambuco volta decepcionado com a não realização do Salão do Museu Nacional de Artes”.
AM | De novo no Recife.
AH | Preparei-me para uma grande exposição de esculturas, a primeira do Recife. Enquanto isso me decidia a fundar uma entidade de artistas. Criamos em 1948 a Sociedade de Arte Moderna, uma espécie de atelier coletivo, onde os artistas se preocupavam também com a questão política, denunciando por meio de seus trabalhos as injustiças sociais e a safadeza dos políticos. Nessa época já estava filiado ao Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.
AM | Você não via contradição em ser comunista, num período stalinista da União Soviética, quando os artistas livres eram perseguidos, e estar à frente de um grupo de artistas locais que se propunham a denunciar injustiças e desafiar a autoridade?
AH | Não via contradição. O artista tem que ser sensível às misérias do povo e não viver apenas enfeitando a vida de coisas passageiras. Tem obrigação de denunciar os problemas, como Portinari, Delacroix, artistas que fizeram história. Não é só uma paisagem bonita que emociona ou uma mulher linda. Quando você registra uma verdade nua e crua isso tem uma força muito grande e repercussão dentro de você e na sociedade.
AM | Nessa mesma época Stálin manipulava os artistas.
AH | Sim. Aqui e acolá surgem dirigentes que são realmente prepotentes. Que se acham donos do mundo e sabedores de tudo. Na verdade, todo dirigente tem um pouco disso. Não tenha dúvida que essa é a coisa mais comum no dia-a-dia. O dono da casa é o dono da verdade. O professor, às vezes mesmo errado, se acha dono da verdade. Ao lado disso existem coisas maravilhosas e inesperadas que superam essa questão.
AM | A militância política trouxe dissabores para você?
AH | Como filiado ao Partidão participei de campanhas célebres, como o Petróleo é Nosso, que me levou 30 vezes à cadeia, e outra, contrária a bomba atômica, em defesa da Paz Mundial, arrisquei muito. Escrevi a palavra PAZ na balaustrada da ponte Duarte Coelho, próximo ao prédio da então Secretaria de Segurança Pública. Um amigo me segurava numa corda enquanto pintava. Disse para ele me soltar se viesse a polícia porque sabia nadar. Esse amigo negou-se a pensar nisso: se me soltasse a polícia iria atirar. Dessa aventura escapei livre.
AM | Conviveram bem a Arte e a Política?
AH | Ao lado dos trabalhos com denúncias das injustiças sociais pude perceber uma coisa espetacular: a força da criatividade popular. A percepção do valor da nossa arte popular.
AM | Como foi que você chegou à administração pública?
AH | Na Sociedade de Arte Moderna fizemos um belo trabalho sem qualquer ajuda. O jornalista Otávio Moraes, meu padrinho de casamento, se interessou e levou a questão ao governador Barbosa Lima Sobrinho. Por meio de Barbosa fizemos uma grande exposição na Escola de Engenharia. Miguel Arraes era o secretário da Fazenda e o candidato que seria apoiado pelo Partidão (PCB) ao cargo de prefeito do Recife. Quando foi eleito, me pediu para levar o trabalho da Sociedade à prefeitura para uma ação que planejava de Educação e Cultura. Depois da explanação de Germano Coelho, Arraes disse que esta ação iria se chamar Movimento de Cultura Popular, o MCP, e bateu com a mãozona na mesa.
AM | E aí?
AH | Arraes me nomeou chefe da Divisão de Parques e Jardins. Cuidava das praças, dos cemitérios e era o comandante em chefe da Guarda Municipal. Como chefe da guarda negociei com ambulantes e pacifiquei a cidade. Por conta disso os ambulantes queriam me dar presentes. Recusava tudo. Traziam peixes e outras coisas, fato que levou Arraes a dar grandes risadas.
AM | E como foi a gestão artística na Prefeitura?
AH | Participei das mobilizações do MCP e a pedido da prefeitura produzi esculturas de tipos populares que estão até hoje em praças do Recife. Construí a Galeria de Arte, às margens do rio Capibaribe, centros de artes plásticas e artesanato e cinco praças de Cultura.
AM | Teve também a lei que obrigou as novas edificações terem obras de arte?
AH | A iniciativa foi minha. Com aprovação de Arraes, pedi ao presidente da Câmara Municipal do Recife, Carlos Duarte, para aprovar uma lei que obrigasse os prédios novos a terem obras de arte, uma escultura ou mural. Isso aconteceu no final dos anos 60. No ano seguinte já estava incluída no Código de Obras da cidade.
AM | A política fervilhava?
AH | Claro. No fim do mandato de Arraes na Prefeitura Recife o Partido Comunista articulou o apoio a Pelópidas Silveira, candidato do PSB. O meu cunhado, Augusto Lucena, ia ser nosso candidato a vice na chapa de Pelópidas. Procuramos Lucena e ele disse que tinha passado a semana pensando nessa possibilidade, mas recebeu a visita de João Cleofas, Cid Sampaio e seu irmão, Lael Sampaio, também candidato a prefeito, e foi convidado para ser vice-prefeito nessa chapa. Lucena só pôde mandar um abraço para Arraes e agradecer ao Partido Comunista. Disse na hora: perdemos o vice-prefeito. Naquela época ninguém tomava uma eleição de Lucena, Arraes e Pelópidas. Foram eleitos Pelópidas e o vice Augusto Lucena, da outra chapa.
AM | E Arraes no Governo do Estado dava para você a impressão de um período tranqüilo para o artista Abelardo e para o militante comunista, secretário de Agitação e Propaganda do PCB?
AH | Mas não foi. Quando houve o golpe, a minha proposta como dirigente do PCB foi de pegar o governador do Estado, o prefeito do Recife, o presidente da Assembleia e o da Câmara, juntamente com desembargador presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, ir em comissão ao comandante do 4º Exército para ele dar apoio à legalidade contra o golpe. Pensava numa reação de Pernambuco semelhante a de movimentos do passado. Essa idéia não prosperou E deu no deu.
AM | Pouco antes do golpe militar, os comunistas se sentiram abandonados?
AH | De fato, no 5º congresso nacional do PCB, antes do golpe, foi constatado que tínhamos condições de tomar o poder por meio das eleições. Os militares souberam disso e ficaram revoltados com essa perspectiva. Mas com a proximidade do movimento militar a conversa foi outra. Estávamos eu, Hugo Martins e Gregório Bezerra quando fomos informados pela direção nacional que não havia mais nada a fazer. A ordem foi “salve-se quem puder”. Gregório acusou de ser uma direção partidária de comadres e ameaçou sair do partido. Não houve tempo para isso, nem resistência ao golpe.
AM | Você foi preso?
AH | Logo depois do golpe. Estava na mesma cela com Gregório Bezerra, em Casa Forte. De onde ele foi levado para ser arrastado pelos militares nas ruas do bairro a mando do coronel Viloq. O próximo seria eu. Mas por ser cunhado de Augusto Lucena, já substituindo Pelópidas na Prefeitura do Recife, nada demais aconteceu comigo.
AM | E você foi embora para São Paulo.
AH | Ficando aqui iria magoar meu cunhado responsável pela minha saída prisão. Fui para São Paulo, trabalhei como cenógrafo da TV Tupi e conheci Pietro e Lina Bardi, diretores do Museu de Arte de São Paulo. Os dois se encantaram com meu trabalho e queriam que ficasse por lá. Como iria viver numa cidade onde ninguém tem interesse em ver a lua. O ar de São Paulo era pesado, o frio me incomodava. Passei três anos e na hora de voltar, Bardi fez uma exposição de meus desenhos que vendeu tudo numa noite. Bardi perguntou se isso aconteceria no Recife. Disse ainda que eu não era do Recife, mas sim do mundo. Não houve jeito. Voltei
AM | Voltou direto para o mundo artístico?
AH | Não. Fui trabalhar na empresa de pesca do meu irmão Luciano, o que não deu certo como escultor. Comprava lagosta em Itamaracá para vender no Recife. Cheguei a ter três barcos de pesca. O maior deles era usado na procissão da Buscada de São Gonçalo.
AM | A partir dos anos 70, com os direitos políticos cassados, como trabalhava com arte?
AH | Vivia isolado na Rua do Sossego, onde moro desde 1954. Muitas pessoas deixaram de falar comigo. Trabalhava em casa e vendia muito pouco. De vez em quando me prendiam. A polícia política dizia que algumas manifestações era coisa de Abelardo e lá eu ia preso. Em toda a minha vida já fui preso umas 70 vezes.
AM | As coisas são outras agora. Você é autor da escultura que representa a família do presidente da República no Parque Dona Lindu.
AH | Só conheci o presidente Lula na inauguração do monumento a Dona Lindu, o que chamei de Memorial do Retirante. Disse a Lula que ele era o menor dos filhos na escultura. Ele ficou satisfeito com a obra. Depois João Paulo (ex-prefeito do Recife) contou a minha trajetória artística e política a Lula.
AM | Os governos podem fazer o quê pelas artes?
AH | Acho que poderiam proteger as obras de bom nível. Cadastrariam as obras e as poriam sob sua guarda para evitar o que aconteceu recentemente com as obras de Hélio Oiticica, perdidas num incêndio na casa do irmão.
AM | Francisco Brennand não dá muita atenção ao destino das suas obras depois de prontas. E você?
AH | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas. É lamentável que uma pessoa deixe de comprar um pão para adquirir um spray para pichar uma obra. Deveria ter realmente uma educação nesse sentido.
AM | Qual seu conselho ao jovem artista?
AH | Que faça da sua arte um meio de vida fundamental. Como a alimentação. Ele tem que fazer arte constantemente. Não pode parar, é feito bicicleta, se parar, cai.
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segunda-feira, 12-10-2009 |
Sob esse título a revista Algomais, edição nº43, publicou a entrevista do político e advogado Egídio Ferreira Lima, quando ele completou em 2009 os 80 anos de idade. Experiência não lhe falta para dizer o que disse a este repórter. Aproveite!.
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Mandatos | A eleição de 2010 é arriscada para Jarbas porque já se estabeleceu no País a consciência de que o político no Executivo deve manter-se por dois mandatos
Antonio Magalhães
O advogado e ex-deputado constituinte de 88 Egídio Ferreira Lima completou 80 anos em agosto deste ano. Conhece tudo em política: foi vereador de Timbaúba, deputado estadual, deputado federal constituinte em 1988, e, cassado por 10 anos pelo governo militar, aproveitou o recesso forçado para conspirar contra a ditadura. Reunia em seu apartamento lideranças da Oposição para pensar o futuro pós-ditadura. Das formulações discutidas, muita coisa permanece e alguns nomes da época ainda estão na política, como o senador Jarbas Vasconcelos, um dos ouvintes atentos dos conselhos de Egídio nos anos 70 e 80.
Hoje, Egídio não se furta a uma conversa política, tanto para contar episódios passados como para fazer prognósticos. Uma das previsões mais solicitadas é sobre a disputa do governo de Pernambuco, em 2010, possivelmente entre o governador Eduardo Campo e o senador Jarbas Vasconcelos.
Para Egídio, Jarbas é o único com chance de derrotar Eduardo. “Um político não pode dizer que não concorrerá porque pode perder a eleição. Esse não é um comportamento correto. Na derrota ou na vitória ele continua político. A história está repleta de derrotados em eleições que não perderam sua força”, enfatiza o advogado na sua entrevista à Algomais.
Algomais | Como foi sua iniciação política?
Egídio Ferreira Lima | Comecei na política estudantil ainda em Nazaré da Mata, por incentivo do Padre Mota, grande professor de Filosofia do Ginásio São José, que via grande potencial naquele menino com pólio. Quando vinha para o tratamento da doença no Recife ficava na casa de meus tios, donos de extensas bibliotecas, que me davam acesso ao mundo dos livros e da política. Quando chegou a hora de vir para o Recife para concluir o ginásio e entrar no curso Clássico (hoje 2º Grau), meu pai decidiu comprar uma casa na Rua da Amizade e trazer toda a família. Chegando à Capital, entrei no Colégio Osvaldo Cruz, uma verdadeira universidade pela qualidade dos professores
AM | Continuou na política estudantil?
EFL | Sim. Estava até mais articulado a ponto de participar de congressos nacionais da união de estudantes. Quando entrei na Faculdade de Direito do Recife, em quinto lugar no vestibular, participei do diretório estudantil.
AM | Nessa mesma época o senhor foi vereador de Timbaúba?
EFL | Antonio Galvão Cavalcanti, candidato a prefeito de Timbaúba, fez força para que eu me candidatasse a vereador. Todos na cidade conheciam minha atuação política. Cavalcanti foi eleito prefeito e eu vereador. Tomei posse em 1951. Contudo, as sessões eram só às sextas-feiras, o que me permitia estudar no Recife e ser vereador em Timbaúba.
AM | Já havia naquela época uma definição ideológica do jovem Egídio?
EFL | Não tinha preocupação a respeito disso naquela época. Transitava bem em todas as correntes ideológicas da nossa faculdade. Dava-me bem com a Esquerda, com a Juventude Comunista, com Roberto Freire, Marcos Freire, Fernando Coelho, e com a Direita, com Roberto Magalhães. Só vim a me situar ideologicamente mais tarde, no fim do curso, como um social-democrata, equilibrado entre a Direita e a Esquerda, que visava combater as diferenças sociais.
AM | Via futuro na carreira parlamentar a partir da Câmara Municipal de Timbaúba?
EFL | Não. Ser vereador da cidade foi um acidente. Foi o atendimento a um apelo dos amigos e da família. Mas logo vi que para fazer carreira na política tinha que ser num nível maior. Tinha que buscar o voto de opinião do Estado. Terminei a faculdade em 1955 e sem perspectivas políticas imediatas fiz concurso para a Magistratura, assumindo em 1956 a comarca de Parnamirim, depois a de Buíque e a de Vicência. Um período em que suspendi as atividades políticas.
AM | Como o senhor foi como juiz?
EFL | Se atuasse hoje da mesma forma como atuei naquela época já estaria morto. Contrariei interesses. O juiz era visto com muito mais respeito do que hoje.
AM | Por que deixou a magistratura?
EFL | Com a morte de meu pai, tive que dedicar mais tempo à família. E também por conta de Hélio Mariano e João Ferreira Lima Filho, meu primo Joãozito, engajados em secretarias do governo de Miguel Arraes, que me convocaram para a política. O apelo foi forte. Em 1963 desisti do cargo de juiz pela política.
AM | Hoje um juiz não desistiria da carreira pela política?
EFL | Acho que não. Mas também isso não era comum naqueles anos. A ponto do governador Miguel Arraes não querer assinar minha exoneração por achar que eu estava agindo emocionalmente. Mas foi um caso pensado.
AM | Onde foi trabalhar? No Governo?
EFL | De certa forma, sim. Mas como assessor jurídico da Coperbo e depois da Supra, superintendência que cuidava da reforma agrária no Estado.
AM | Mas de olho num mandato parlamentar?
EFL | Certo. Esperava pela eleição de 1966 para me candidatar a deputado estadual.
AM | Mas o golpe militar veio antes, em 1964? O senhor tinha boas relações com o então governador Arraes?
EFL | Sim. No dia do golpe estive com o governador no Palácio do Campo das Princesas. O trabalho com a Ação Católica me dava acesso a Arraes. Ele estava só no seu gabinete e me perguntou sobre a situação do campo naquele momento. Respondi que os camponeses estavam desestruturados para qualquer reação ao golpe. E que Francisco Julião, que tinha estado no mesmo palanque durante a eleição, só queria mesmo era brigar com a Igreja.
AM | Qual era o clima do Palácio do Campo das Princesas?
EFL | Passei parte da noite no Palácio com outros arraesistas. Por volta de três da madrugada fui para casa. Estava comigo Fernando Coelho, depois deputado federal. Na altura do Cais de Santa Rita cruzamos com um tanque de guerra. Vi um mau sinal. Ás seis horas estava de volta ao Palácio. Aí o clima começou a pesar. Durante o dia vieram militares para uma conversa com o governador. Trancaram-se na sala com Arraes e exigiram que ele entregasse o comando da área de segurança do Governo Estadual para continuar no cargo. Arraes disse que aquilo era uma indignidade e que os militares estavam cometendo uma ilegalidade. Eles saíram e deram ordem para todos deixassem o Palácio. Cortaram a comunicação com o exterior e começaram a posicionar tropas na Praça da República. Arraes pediu para que todos deixassem o Palácio, embora muitos quisessem ficar. Eu e Saulo Nascimento - comunista, que insistiu, em lágrimas, para ficar - saímos de automóvel. Fomos revistados nos portões do Palácio, de novo quando deixávamos a praça e na Rua da Aurora. Meu nervosismo era tal que cheguei a atropelar um guarda de trânsito na Rua do Hospício, que me dispensou porque se julgou culpado pelo acidente. De lá fomos encontrar com o pessoal da Ação Católica para ver o que se ia fazer.
AM | Começaram as prisões?
EFL | Bem, dentro ainda de alguns limites. Mas a coisa foi se agravando. O meu irmão Geraldo, prefeito de Timbaúba e tabelião, foi preso por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social da Polícia Civil), comandado por Álvaro Costa Lima, e desapareceu. Minha irmã foi encontrar Geraldo num grupo escolar, usado como cadeia, vizinho a quartel do Exército, em Olinda. Depois ele foi levado para a Casa de Detenção (hoje Casa da Cultura). Assumi sua defesa em meio às maiores dificuldades. No fim do processo começaram os rumores de que eu seria preso. Caso isso acontecesse, eu seria processado e encerraria as minhas chances de uma candidatura em 1966. Resolvi fugir para o Rio, onde passei seis meses. Quando as coisas se acalmaram voltei e fui advogar até a eleição.
AM | Como foi a eleição de 1966?
EFL | Foi importante para o MDB. Elegemos 12 deputados para a Assembléia Legislativa. Fui o segundo mais votado do MDB. Mas o papel da Oposição era muito limitado. Era uma ação mais política. Pelópidas Silveira profetizou que eu estaria cassado em dois anos. Como de fato aconteceu. Em abril de 1970, meses depois do AI-5, foram tirados meus direitos políticos pelos militares.
AM | O que fez?
EFL | Voltei à advocacia. E passei a conspirar com grande intensidade. Reunia oposicionistas em meu apartamento, Jarbas, Marcos Freire, Fernando Lyra, Fernando Coelho, Armando Monteiro Filho, para discutir a situação do País. Foi o núcleo formador do que viria a ser o grupo Autêntico do MDB que resistiu com grande bravura à ditadura militar.
AM | Durante o período de cassação, o senhor conspirou, como diz, viu a Oposição crescer, participou da vitória de Marcos Freire para o Senado em 1974 e viu Jarbas ser derrotado pelas sublegendas da Arena em 1978. O que faltava acontecer?
EFL | A anistia política para cassados, exilados e oposicionistas. Ela já estava madura para acontecer em 1978, mas os militares temiam as eleições daquele ano. Em 1979, ela finalmente aconteceu.
AM | Volta de Miguel Arraes causou problemas com os oposicionistas do MDB?
EFL | Sim. Arraes encontrou a candidatura de Marcos Freire posta para o Governo do Estado em 1982. Ele ficou com receio que as lideranças surgidas durante a ditadura ocupassem seu espaço político, o que não aconteceu. Mas a desconfiança era grande. Arraes vetou meu nome em 1985 para a presidência estadual da Oposição. Na eleição de 1986 foi cogitada uma das vagas do Senado para mim. Arraes vetou. Preferiu Antonio Farias e Mansueto de Lavor. Mas nunca rompemos formalmente. Fui incisivo e duro com ele, mas nunca briguei pessoalmente com Arraes
AM | Por que Arraes agiu dessa forma?
EFL | Ele só foi para o PMDB, porque não tinha jeito. Sentia-se na companhia de onças, coisa só da mente dele, e deu o troco quando pôde: foi para o PSB. E, em 1990, elegeu-se deputado federal com uma votação enorme, levando gente com dois mil votos. Enquanto favorecia a minha derrota para a Câmara Federal, de Fernando Lyra e de Cristina Tavares.
AM | Deixou sequela o gesto de Arraes?
EFL | Não. Acho que Arraes tinha direito a fazer o fez. Foi um round na luta do marginalizado do passado contra as lideranças emergentes.
AM | O senhor vê o governador Eduardo Campos como o sucessor de Arraes?
EFL | Eduardo conseguiu unir as duas coisas: a herança política de Arraes e sua ação política. Teve o problema dos precatórios, mas parece ter superado. Revelou-se mais descontraído, com uma visão liberal da política, o que o favorece, no futuro, a uma proximidade maior com a social-democracia, pensando na redução das diferenças sociais e no desenvolvimento econômico. Já acho que Eduardo está nesse caminho, embora ele não tenha consciência.
AM | Há uma disputa pessoal entre o governador Eduardo Campos e o senador Jarbas Vasconcelos?
EFL | Jarbas fez uma campanha forte contra Eduardo na questão dos precatórios. Ali, as diferenças foram acirradas. Não sei a profundidade daquela coisa dos precatórios. Não ficou muito claro. Acho que Eduardo, por sua prática política, não tem conteúdo para passadas largas no futuro, uma presidência da República. Talvez só tenha pernas para a Câmara Federal ou Senado.
AM | Como será a disputa para o governo do Estado em 2010 entre Eduardo Campos e Jarbas Vasconcelos?
EFL | É cedo para analisar isso. Jarbas é o candidato certo para ser lançado contra Eduardo. Mas não será fácil para o senador ganhar. É uma eleição de risco porque já se estabeleceu no País a consciência de que o político no Executivo deve manter-se por dois mandatos, como ocorre nos Estados Unidos.
AM | Só Jarbas tem condição de enfrentar Eduardo?
EFL | É o único com chance de vitória. Um político não pode dizer que não concorrerá porque pode perder a eleição. Esse não é um comportamento correto. Na derrota ou na vitória ele continua político. A história está repleta de derrotados em eleições que não perderam sua força, Getúlio Vargas, Lula e o próprio Arraes.
AM | Aos 80 anos, o que senhor espera ver mais em política?
EFL | Não faço adivinhação. O que o País está passando não me escandaliza mais. Sarney foi assim a vida inteira assim, só que ele se protegia. O Congresso está num período difícil. Vivemos um processo de quedas e sobressaltos da evolução política. Mas o brasileiro tem que levar em conta que, apesar de todos os problemas, não ocorre qualquer transtorno institucional. A Constituição Federal de 1988 deu um ambiente de segurança para a prática política. O presidente Lula, que fala sobre tudo e às vezes é bem cínico, disse que a Carta Magna, que ele não assinou, é a melhor que o País já teve.
AM | Saímos dessa crise moral?
EFL | Claro. Mas vamos ainda vivenciar esse processo. A Teoria de Darwin não é só para dizer que Deus não existe, mas para mostrar também que o Homem é fruto da evolução das espécies. A tendência é ser sempre melhorar, materialmente e humanamente.
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quinta-feira, 09-07-2009 |
Há uma força econômica no interior de Pernambuco - Revista Algomais nº 40
Proximidade | O distanciamento da representação empresarial em relação ao Governo favorece a elevação dos impostos.
Antonio Magalhães
A trajetória empresarial de Douglas Cintra, 43 anos, foi feita toda no interior de Pernambuco, em Caruaru, onde está a sede do grupo Supermercados Bonanza e Multidistribuidora, que ele toca com os irmãos e a supervisão atenta do pai, Djalma, o fundador do negócio há 31 anos. Hoje o grupo, onde trabalham 2 mil funcionários, é o segundo no segmento de supermercados locais, com o faturamento em 2008 de R$ 507 milhões e com previsão de alcançar os R$ 600 milhões em 2009.
Para Douglas, um disciplinado empresário que ainda tem o hábito de almoçar em casa quando está em Caruaru, a força comercial do Interior é visível. Dois elementos garantem isso: um salário mínimo reajustado anualmente e a Bolsa-Família. O grupo não pensa em trazer o Bonanza à Região Metropolitana do Recife, prefere investir mais onde conhece. Tem 16 lojas de supermercados de Gravatá a Arcoverde e uma em Patos, na Paraíba. E assim vem fazendo. Já Multidistribuidora atua em todo Pernambuco e no vizinho Estado.
O empresário, contudo, não vive só para os negócios. É presidente da Associação Comercial de Caruaru e da Associação dos Atacadistas de Pernambuco, a Aspa. E ainda consegue tempo para ser o secretário de Governo da Prefeitura de Caruaru, o que lhe dá trânsito no mundo político, onde pode estar sendo gerada uma candidatura parlamentar.
Na entrevista a Algomais, Douglas Cintra conta como a atividade empresarial no Interior pode ser um bom caminho para a nossa economia. O Bonanza já praticava a interiorização quando o vocábulo estava apenas nos dicionários e não na agenda política dos governantes.
Algomais | Fazer o curso de Administração foi uma imposição familiar ou o desejo de seguir uma vocação?
Douglas Cintra | Não posso negar que houve alguma influência familiar para que eu pudesse futuramente tocar o negócio da família. Mas não houve pressão, tanto que quando terminei o curso de Administração da Fesp (hoje UPE) fiz um estágio na Fundação Joaquim Nabuco e logo depois ingressei numa empresa internacional de auditoria. Alguns meses depois de empregado, recebi um telefonema do meu pai perguntando se eu ia querer ser um executivo ou tocar o negócio da família para desenvolvê-lo. Pedi demissão e arrisquei naquilo que eu pensava ser a melhor opção, como ficou comprovado depois.
Am | Antes de vir para o Recife, cursar Administração, como era sua convivência com o negócio da família?
DC | Trabalhei no supermercado até o 2º ano do Segundo Grau. Atendia no balcão, ficava no caixa. Vivia o dia-a-dia da empresa. No 3º ano, meu pai disse que eu devia só estudar para passar no vestibular. A minha família sempre deu muito valor à Educação. É uma história antiga. Na época em que vim para o Recife não foi fácil para meu pai manter dois filhos estudando fora de Caruaru. Mas fazia questão que fizéssemos o curso superior. Essa é uma lição da família dele: nascido na zona rural de São Bento do Uma, meu avô sempre incentivou os filhos a estudarem. Tanto que meu pai foi para Caruaru para fazer o Segundo Grau (Ginasial na época). Em São Bento só existia o Primário (hoje Ensino Fundamental). No fim do curso Ginasial meu pai trabalhou como auxiliar de Protético, fazendo próteses dentárias. Conseguiu depois comprar uma pequena mercearia, daí uma padaria e depois um supermercado, o começo da rede Bonanza.
Am | O nome Bonanza foi inspirado na série da TV dos anos 60?
DC | Acredito que houve alguma influência da série de TV. Mas muito mais do que isso: bonança na nossa língua é fartura. E para quem trabalha com alimentos o nome do supermercado é uma boa idéia. O “z” no lugar do “ç” fica por conta do marketing.
Am | Mas com a volta dos filhos formados na Capital o que mudou na empresa familiar?
DC | Meu pai sempre teve a certeza que para a empresa crescer necessitaria da nossa participação. A estrutura que tinha não permitia o crescimento sem a presença dos filhos. Com a nossa chegada, eu, meu irmão, também formado em Administração, e minha irmã formada em Direito, meu pai teve a tranqüilidade para pensar em abrir mais lojas do supermercado, ir a busca de novas oportunidades de negócios. Pudemos juntos planejar o crescimento da empresa. E ele começou em 1990, quando abriu a segunda loja do Bonanza.
Am | Abrir mais lojas no início dos anos 90 não foi uma temeridade? A economia brasileira estava cheia de problemas. Além do mais havia a concorrência das grandes redes de supermercados na área?
DC | As dificuldades pequenas ou grandes sempre existem. O que faz a diferença é a atitude que o empresário toma diante delas. Se havia espaço para uma grande rede supermercados crescer, haveria também para uma pequena desenvolver-se. Cada um aproveitou melhor sua vantagem competitiva, como, no nosso caso, a proximidade com os fornecedores e clientes.
Am | Como os concorrentes reagiram ao bom desempenho comercial do Bonanza?
DC | Especulavam que depois do crescimento do supermercado a partir de Caruaru fôssemos abrir lojas no Recife, na Região Metropolitana. Depois identificaram que o nosso foco era o Interior. E nos deixaram em paz. Isso foi muito bom porque nos deixou mais vontade para trabalhar. Vimos e continuamos a ver que o Interior oferece boas oportunidades de negócios.
Am | Por quê?
DC | O aumento real do salário mínimo todos os anos é a garantia de mais renda para o consumidor. Mais a distribuição da Bolsa-Família, que por si só não resolve o problema dos inscritos, mas realimenta a economia. Ambos são indutores do fortalecimento do comércio no Interior.
Am | Os empresários se queixam que pagam muitos impostos. O que pode ser feito para reduzir essa carga tributária?
DC | Os empresários têm um pouco de responsabilidade por isso. O distanciamento da representação empresarial em relação ao Governo favorece a elevação dos impostos. Falta a classe empresarial chegar mais perto do Governo e mostrar as inadequações dos impostos. O contato com a Fazenda Estadual realizado pelos comerciantes atacadistas em 2002 resultou na criação de leis especiais para atender o setor. Foi demonstrado que se houvesse uma redução nos impostos nós conseguiríamos aumentar a competitividade e aumentar a arrecadação. Isso foi comprovado na prática. A receita do Estado com nosso setor cresceu e nós conseguimos eliminar as empresas que diziam não ter condições de pagar os tributos. Foi colocada uma carga adequada de impostos e acertada pela Associação de Atacadistas de Pernambuco, a Aspa, o pagamento de todos os filiados. O resultado foi bom para o governo e bom para nosso setor. E também para o varejo. É o grande exemplo que gosto de citar de como área empresarial precisa estar próxima dos governos para mostrar que a cobrança indiscriminada de impostos não funciona.
Am | É verdadeira ou falsa a afirmação que o empresário para sobreviver com o negócio tem que sonegar alguns impostos?
DC | Quem montar uma empresa pensando em fortalecer o empreendimento por meio da sonegação dos impostos está fadado ao fracasso. Não será bem visto nem pelo Governo nem pelo mercado. A Fazenda tem hoje todas as informações disponíveis sobre as empresas. Não permite mais que elas soneguem e não sejam descobertas. Antes o empresário podia burlar a lei e tinha 10 por cento de chance de ser flagrado. Hoje a possibilidade de ser preso subiu para 90 por cento. Daqui a cinco anos, será 99 por cento. E daqui a 10 anos vai ser impossível sonegar sem ser preso. Então, se algum negocio depender da sonegação, esse negócio não presta. Em vez de o empresário pensar em sonegar, ele deve pensar em reduzir o tributo. Fazer como fez o setor atacadista de Pernambuco.
Am | Além das atividades empresariais lhe resta tempo para presidir a Associação dos Atacadistas de Pernambuco (Aspa), a Associação Comercial de Caruaru e ser o Secretário de Governo da Prefeitura de Caruaru. Qual seu interesse em ter tantas atividades simultaneamente?
DC | A gente aprende com cada uma delas. Define melhor o que se está buscando para você e para quem está a seu lado. Quando se luta nas associações comerciais para conseguir uma tributação mais adequada, se busca a melhoria do setor e também o favorecimento da sociedade. Na Prefeitura, procuro fazer alguma coisa pela minha cidade. Devolver, nessa forma de contribuição, o muito que ela já fez por mim e minha família. E trabalhar ao lado de pessoas sérias como o prefeito José Queiroz é um grande aprendizado.
Am | É a caminhada do líder empresarial até a carreira política?
DC | Como disse antes, o setor empresarial precisa estar mais próximo do Governo. Essa aproximação pode ser como Secretário de Estado, Municipal ou como parlamentar. Veja o caso do presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, que, com o mandato de deputado federal consegue levar o pensamento empresarial junto às autoridades, trazendo com isso um beneficio para todos. Para essa ação pública todas as alternativas são válidas.
Am | Mas a imagem do político está bem desgastada. As pessoas que não têm uma marca política clara resistem a participar dela. Você vai enfrentar esse desafio?
DC | Um representante de uma instituição governamental me recebeu recentemente e por ser uma pessoa conhecida alertou para o fato de eu estar próximo da Política. Disse-lhe que, se não estivermos próximos dos políticos, não poderemos nunca mudar esse mau conceito. Nunca vamos sair desse problema. Acho que temos que dar o bom exemplo do ponto de vista empresarial. Se nós deixarmos as pessoas que estão deturpando a imagem do político continuem no Poder, estaremos contribuindo para isso, sendo coniventes. Vamos, portanto, fortalecer os homens e mulheres sérios apoiados por uma população de pessoas sérias.
Am | Muitas vezes o cidadão metropolitano age de forma preconceituosa em relação aos vindos do Interior, principalmente aqueles bem sucedidos empresarialmente. Você já foi vítima de preconceito por ter sua base operações comerciais no Interior?
DC | Acho que todos nós do Interior já sofremos em algum momento da nossa vida um ato de discriminação por não sermos da Capital. Mas é preciso registrar que isso também acontece em relação aos nordestinos que vão para São Paulo e os brasileiros que vão para os Estados Unidos. Mas se há o preconceito contra nós, há também a força da nossa economia. Saindo das grandes Regiões Metropolitanas se vê o grande motor da economia interiorana, de um Brasil mais justo, onde as pessoas conseguem viver melhor.
Am | Como assim?
DC | Há uma teoria que diz que ocupação urbana em cidades com mais de um milhão de habitantes não é boa. Não se vive bem nesses lugares. O ideal são comunidades menores, nas quais você ter tudo que uma população precisa, sem a necessidade de procurar centros maiores. A interiorização tão falada é, portanto, o uso de todas as potencialidades de cada região. Pelo volume das minhas atividades poderia morar no Recife, mas vivo em Caruaru. Prefiro morar lá. Venho e volto no mesmo dia, as pessoas brincam com isso. Mas lá é minha casa. É o lugar onde consigo acordar melhor de manhã, lá que recarrego as baterias. Essa valorização do Interior, das comunidades sustentáveis, é o novo pensamento mundial.
AM | A sustentabilidade do Interior já é o discurso de campanha?
DC | Nas décadas de 60 e 70 quando alguém queria melhorar de vida ia para São Paulo. Hoje está um pouco diferente em relação às dificuldades para viver nas grandes cidades. Nosso objetivo é mostrar que cada um pode crescer onde está. A grande tarefa do Estado é permitir que o cidadão cresça, se desenvolva, onde ele vive. Isso é que está fazendo o crescimento do Interior. Além da atualização do salário mínimo e a instituição da Bolsa-Família. É um círculo virtuoso.
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sábado, 09-05-2009 |
Quem trabalha com bancos sabe o que foi para a economia pernambucana o fim do Banorte e do Mercantil, ambos com poder de decisão local. O empresariado, sem Jorge Baptista da Silva e Armando Monteiro Filho, ficou órfão nas finanças, nos empréstimos rápidos e dados em confiança de acordo com histórico de cada tomador. Agora surgiu o Banco Gerador, que já começou a atuar mas vai ser lançado oficialmente no Recife em fins de maio, na presença do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
A revista Algomais conversou com o diretor executivo do banco Paulo Dalla Nora Macedo sobre a montagem do Gerador. Vale a pena ler esta entrevista. Quem perdeu na edição de papel da revista, pode ler aqui.
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Um banco com decisão local: desejo do empresariado
Atuação| Negócios com empresas familiares da Região e a oferta do crédito consignado para a iniciativa privada e prefeituras
Antonio Magalhães
Paulo Dalla Nora Macedo tem 33 anos de idade, cara jovial e não aparenta exercer a função que exerce: diretor executivo do Banco Gerador, a mais nova instituição bancária criada em Pernambuco, com sócios pernambucanos – Paulo Sérgio Macedo, Antonio Lavareda e Severino Mendonça - e que tem o foco de atuação no Estado e no Nordeste, como acontecia com o Banorte e o Banco Mercantil, de saudosa memória.
Mas a aparência não é tudo, no caso. Nem mesmo a maleta de trabalho puxado por um desses carrinhos de viagem desfaz a imagem de executivo maduro. Paulo Dalla Nora Macedo é formado em Economia pela UFPE e fez mestrado em Paris na Insead, a mais famosa escola formadora de executivos da França. Durante 10 anos atuou como diretor do Grupo Nordeste e depois esteve no Lloyds Bank.
Para ele, a criação do banco é fruto também da reflexão do grupo de pensadores que fez parte, celebrado na publicação “Pensar Pernambuco”, onde foi possível mapear as reais necessidades do Estado e as alternativas possíveis para o desenvolvimento econômico.
Já a oportunidade do negócio bancário está mais do que confirmada. Segundo Paulo, a revista inglesa The Economist apontou que só oito países entre os 40 maiores terão este ano o crescimento do Produto Interno bruto (PIB) acima de 1%. “Se o Nordeste fosse um país estaria em quinto lugar nesse ranking da revista entre os que vão crescer mais do que 1%. Se a crise financeira internacional é ruim para o Brasil, para o Nordeste vai ser menos danosa”, acredita
Na entrevista a Algomais (edição n, Paulo Dalla Noraº 38 - maio de 2009) Macedo revela qual foi a estratégia para criação de um banco local e qual é seu nicho de atuação. Conta como tudo aconteceu.
Algomais | Por que criar um banco em Pernambuco?
Paulo Dalla Nora Macedo | A idéia de criar o banco surgiu no final de 2007. O grupo de sócios, formado por empresários do Estado, percebeu que o Nordeste e especificamente Pernambuco cresciam, do ponto de vista macroeconômico, mais do que o Brasil. E dentro dessa área, as empresas familiares – o peso da economia regional – não eram atendidas por qualquer banco de local. Os sócios do banco e os empresários do seu relacionamento se ressentiam de um banco com poder de decisão local. Era uma contradição, a região e o Estado de maior crescimento da Federação não terem um banco daqui. Falando agora isso parece óbvio, mas foi exatamente essa obviedade que deu partida ao processo de constituição do Banco Gerador.
Am | Qual foi o passo seguinte?
PDNM | A partir dessa leitura estratégica se contratou uma consultoria – a Control Bank, de São Paulo – para checar se a pretensão batia com a realidade do mercado local. Mas do que o estudo mercadológico valeu o sentimento dos sócios que sempre conviveram com os empresários da região. Havia e há empresas precisando de apoio para a expansão, para aquisições e fusões, e não havia, mas agora há um banco que pode dar suporte a essas operações. Ficou estabelecido claramente que havia essa oportunidade. O banco surgiu para preencher esse espaço. O mercado é grande e seremos um player importante na região.
Am | Quando o Banco Gerador começou a operar?
PDNM | A preparação começou em setembro de 2008 e a operação em março deste ano. Mas é um processo que requer trabalho, paciência e investimento. Tudo não acontecerá do dia para a noite, embora o processo de constituição do Gerador tenha sido rápido. Normalmente até chegar a operar um banco leva, em média, segundo o jornal Valor Econômico, 16 meses. Conseguimos fazer tudo em bem menos tempo. O Banco Central é muito cuidadoso, exige pessoal qualificado, sistemas de informática pesados e muito treinamento. É um processo que tem que ser feito com muita atenção. Estamos trabalhando dentro das metas programadas. Os possíveis ajustes não atrapalham nosso cronograma.
Am | A concretização do Banco Gerador coincidiu com a crise financeira internacional. Isso atrapalhou?
PDNM | Não. Eu vinha acompanhando desde 2007 o desenrolar da pré-crise na Europa, onde vivia. Isso me permitiu mais adiante trabalhar conjuntamente com a consultoria Control Bank na formatação do banco num cenário problemático. Todo o plano de negócio foi revisto e quando a crise financeira internacional foi desencadeada ainda não tinha sido aberto o Gerador. Por isso não houve o elemento surpresa na nossa organização: abrimos depois da crise, não havia qualquer contrato negociado anteriormente. Ao contrário: abriu-se uma janela de mercado no Nordeste importantíssima. A atenção dos grandes bancos com os efeitos da crise fixou-se nos grandes centros econômicos do País. O Nordeste ficou maior para um banco local. E ficou claro para nós que a crise não ameaça o plano do Banco Gerador.
Am | Qual é a área de atuação do Gerador?
PDNM | Damos suporte às empresas familiares da região que estão pensando fazer fusões ou aquisições, reestruturações acionárias, capitalização. E localmente o Banco Gerador também vai ser o condutor de operações para grandes clientes. Esse é um tipo de serviço que não existia por aqui. Vimos várias operações de compras de empresas da região nas quais só os compradores eram assessorados. Os vendedores, por falta de um player local, nunca eram assessorados. Além do mais, o banco pode vir a emitir papéis, debêntures, e ainda ajudar as empresas regionais a abrirem seu capital. A Região e o Estado tinham necessidade de uma organização com bom relacionamento com empresariado local e credibilidade junto aos grandes bancos para montar parcerias nessas operações.
Am | O crédito consignado também está no foco do banco?
PDNM | De fato. Vamos ofertar o crédito consignado a empresas privadas e órgãos públicos. Muitas empresas que têm operações na área de investimentos do Gerador podem ser beneficiadas com o crédito consignado para seus funcionários, o que é praticamente inexistente no mercado, com a taxa menor do que a do crédito pessoal. Na área pública, vamos atrás de prefeituras que, pelo tamanho do negócio, são desprezadas pelos grandes bancos.
Am | Como serão feitas essas operações? Elas precisam de uma rede de agências?
PDNM | Não precisamos de uma rede de agências para atender a este público. Vamos direto às empresas e órgãos públicos. Precisamos, sim, de pessoas com capacidade e relacionamento com o empresariado e gestores. E com credibilidade junto aos grandes bancos para montar parcerias.
Am | Hoje teria espaço no mercado bancário para um banco como o Banorte, regional de atuação nacional com agências em todo o País?
PDNM | Não acredito. Um banco com uma rede de agências pulverizada, como era o caso do Banorte, não teria condições de enfrentar hoje os grandes bancos nacionais. Não teria escala de custo para competir com os bancos com mais de três mil agências. Seria uma briga perdida. E isso não é só no Nordeste. É em todo o País. Dos bancos regionais talvez só o Banrisul, do Rio Grande do Sul, pode topar a concorrência. Os bancos com muitas agências criam mais oportunidades de negócios, mas os serviços regionais específicos precisam do poder de decisão local e ela não está aqui, mas em São Paulo. Por isso não nos colocamos como concorrentes desses grandes bancos. Somos, na verdade, parceiros deles. Porque, pela demanda local, não temos condição de realizar sozinhos todas as operações. Vamos precisar agrupar as operações e mostrar aos grandes bancos as oportunidades de investimentos em empresas familiares. Feito o trabalho de montagem pelo Gerador, os outros bancos podem entrar como parceiros.
Am | O Banco Gerador entra com capital próprio ou é só um intermediador de recursos?
PDNM | Queremos entrar em todas as operações, quando for possível, com capital próprio. Mas obviamente pelo nosso tamanho e pelo tamanho das operações que vamos ser o capitaneador principal isso não vai ser possível. Vamos mostrar, porém, aos bancos parceiros que acreditamos nessas operações. Não podemos é entrar com capital próprio e reduzir o poder de alavancagem do nosso banco. É melhor viabilizar operações regionais de R$ 100 milhões, entrando com R$ 10 milhões, do que não fazer nada.
Am | O que mudou para o Gerador com o aumento do limite garantido de investimentos em depósitos bancários a prazo, anunciado pelo Banco Central?
PDNM | Começamos a operar em 23 de março. No dia 26 de março, o Conselho Monetário Nacional anunciou um aumento da garantia dos investimentos em depósitos bancários a prazo de R$ 60 mil para R$ 20 milhões. Foi uma coisa excepcional. Agora o investidor do Banco Gerador nesse produto entra com essa garantia. É uma coisa importantíssima porque vamos precisar de investidores regionais para fazer com que banco tenha mais capacidade de alavancagem. O investidor, ao invés de ficar preocupado se o Gerador, que é um banco novo, tem boas garantias, pode contar com o fundo garantidor de crédito. Se ele aplicar R$ 10 milhões, R$ 20 milhões, pode ficar tranqüilo. O Governo Federal fez isso para nivelar o jogo com os bancos médios e pequenos em relação aos grandes.
Am | O banqueiro, num contexto mais popular, é visto muito negativamente pela sociedade. Só sobram queixas de exploração do mercado financeiro. Como você vê essa questão?
PDNM | Isso depende de como o banco se coloca em relação ao cliente. Em curto prazo essa má imagem pode existir. Mas em longo prazo o cliente e a sociedade podem observar que isso não é bem assim. Há um papel econômico e social dos bancos e, consequentemente, dos banqueiros.
Am | Mas o spread bancário, o custo do empréstimo, não faz graça para ninguém?
PDNM | Obviamente há exageros na cobrança do spread. Mas a inadimplência e risco da operação de empréstimo têm elevado essa taxa. E alguém, no caso o tomador dos recursos, termina pagando por isso.
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domingo, 22-03-2009 |
Jaboatão tem agora um gestor de crises
Descaso | Jaboatão serviu como centro de treinamento da tropa brasileira que foi para o Haiti pela similaridade com a pobreza haitiana.
Antonio Magalhães
Elias Gomes da Silva, nenhum parentesco com o presidente Lula, conseguiu, aos 57 anos de idade e 37 anos depois da primeira eleição, uma vitória surpreendente para prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, o segundo maior colégio eleitoral da Região Metropolitana do Recife. Derrotou no primeiro turno com 53% dos votos o prefeito Newton Carneiro e o candidato do PT André Campos, aliado de Lula e Eduardo Campos, como João da Costa, do Recife.
Mas não vai ter moleza. “Jaboatão é uma Belíndia”, afirma, numa referência à expressão do economista Edmar Bacha para identificar os contrastes sociais e econômicos do município. Mas diz não tremer nas bases nem se assustar: Elias virou um especialista em administração de crises municipais: esteve na prefeitura do Cabo Santo Agostinho em três mandatos, em Fernando de Noronha, na Secretaria Estadual de Justiça (Governo Jarbas) e agora enfrenta o desafio de fazer andar corretamente a máquina pública de Jaboatão.
Na entrevista à Algomais (nº36 - fevereiro de 2009), esse político risonho com jeito de cantor de baladas românticas, formado em Contabilidade, professor, mas só começou a frequentar a escola a partir dos nove anos, conta um pouco da sua trajetória política e administrativa. Saindo-se bem em Jaboatão diz que não quer se arriscar a voos políticos altos: como o Governo do Estado. “Não pensei nisso, nem tive tempo de pensar”, enfatiza. Seu desejo é focar em Jaboatão. Acredite.
Algomais | É vocação ou destino assumir administrações municipais com problemas?
Elias Gomes | Para mim, a gestão de crises está virando uma especialidade. Assumi a prefeitura do Cabo Santo Agostinho em 1983 em meio ao caos administrativo, depois de derrotar a oligarquia que dominava o município. Uma década depois fui designado pelo governador Miguel Arraes para administrar Fernando de Noronha em meio a uma crise. Na volta ao Cabo, em 1996, encontrei de novo os velhos problemas. E agora Jaboatão com suas dificuldades. Por isso não estou tremendo nas bases, nem assustado. Sou um especialista em crises.
Am | Mas sua carreira começou no Legislativo?
EG | Exato. Na segunda vez que concorri a vereador do Cabo fui o mais votado. Fiz um mandato interativo, diretamente com a população e freqüentando muito pouco a tribuna da Câmara Municipal. Isso me credenciou a disputar o primeiro mandato de prefeito. Depois de botar ordem na casa, fui credenciado pelos eleitores para disputar um mandato na Assembléia Legislativa: tomei posse em 1991 e logo fui ser líder da Oposição ao governo Joaquim Francisco, ao lado de Eduardo Campos, Humberto Costa e João Paulo. Mas não quis concorrer à reeleição: desencantei-me com a política. Só voltei à vida pública por conta do convite de Arraes para administrar Fernando de Noronha.
Am | A situação também estava difícil no arquipélago?
EG | Os desafios grandes me perseguem. Assumi num momento de crise em Noronha (anexada a Pernambuco em 1988). O administrador distrital anterior não tinha sido feliz na sua gestão, o que gerou uma situação de ingovernabilidade. O caos completo: a população rebelada contra Pernambuco. Não havia uma Lei Orgânica, as relações entre o Estado e a população de Noronha estavam por um fio. Cheguei lá com o objetivo de promover o retorno do poder publico à ilha e formatar um pacto com a população para convencê-la a ser pernambucana, o que não acontecia. Em quase um ano, consegui aprovar a primeira Lei Orgânica de Noronha, a constituição distrital. Promovi a primeira eleição do Conselho Distrital e comecei com minha equipe a elaborar o primeiro plano estratégico de Fernando de Noronha. Com a população mobilizada, com a casa em ordem, Fernando de Noronha pôde dar um salto no turismo. Até hoje os noronhenses reconhecem meu trabalho. Inclusive me deram o título de Cidadão Noronhense.
Am | E a segunda vez no Cabo?
EG | Veja como é o destino. Deixei a prefeitura do Cabo em 1988, elegi o sucessor que fez um trabalho razoável. Mas em 1992 as forças políticas ligadas ao passado voltaram à prefeitura e desmantelaram as políticas públicas implantadas, o planejamento foi desfeito, as conquistas da população foram negadas. Quando voltei em 1996, o município devia três folhas de pagamento dos servidores, a rede de educação tinha sido destroçada, crise na saúde municipal, hospital fechado, demitidos servidores concursados. Lá fui eu reconstruir o Cabo, retomar os projetos anteriores e implantar os novos.
Am | Foram oito anos de gestão na administração do Cabo Santo Agostinho.
EG | A partir de 1997 consegui botar a casa em ordem até o ano 2000. No segundo mandato, o Cabo conquistou indicadores sociais importantes: reduziu-se em 63% a mortalidade infantil, houve um crescimento no número de alunos da rede escolar municipal - de 16 mil para 40 mil alunos no último ano de governo. O município colocou 100% das crianças na escola, com reconhecimento nacional. Fui o prefeito que mais construiu escolas na história do Cabo. A administração também implantou um Plano Diretor para atrair investimentos importantes quando Suape ainda não estava de vento em popa, possibilitando o Cabo retomar seu papel de importância na Região Metropolitana do Recife. Avanços importantes na área da infraestrutura mudaram a cara da cidade, passando uma imagem bem positiva do meu governo. E foi isso que me levou a ser vitorioso em Jaboatão. Havia a imagem positiva do bom gestor.
Am | Mas o senhor não conseguiu eleger seu sucessor?
EG | Dois erros na estratégia política. Não preparei um candidato, a exemplo que fez João Paulo com João da Costa. E subestimei as forças políticas que inicialmente me apoiaram e depois tiveram seus interesses contrariados por um governo de rupturas. Essa casta esperou a hora certa para dar o troco.
Am | Foi muito discreta sua movimentação em Jaboatão no período que antecedeu a eleição.
EG | Em 2006 disputei a eleição para deputado federal. Andei por toda Jaboatão. Uma pesquisa apontou que os eleitores preferiam que eu me candidatasse a prefeito de lá e não a deputado. Aquilo ficou no ar. A enquete também apontava que a população de Jaboatão não acreditava mais em seus políticos, não viam neles uma perspectiva de mudança para o município. Ao lado disso, a população queria um bom gestor, perfil que se encaixava em mim. Depois de perder a eleição para deputado federal, comecei a achar viável disputar a prefeitura de Jaboatão. Um ano e meio antes da eleição intensifiquei minha presença no município. Dizia que não tinha projeto pessoal e que a candidatura teria que ser construída por quem me apoiava. Em agosto de 2007 recebi o convite para disputar a prefeitura de lideranças políticas de Jaboatão, numa reunião com 500 pessoas. Recebi um manifesto da população. Disse que já tinha sido prefeito do Cabo por três vezes, mas aceitava o desafio se o projeto eleitoral fosse de todos. E deu certo: foram formadas comissões que se multiplicaram, tomando conta da cidade. Isso surpreendeu as forças tradicionais da política de Jaboatão.
Am | O prefeito Newton Carneiro não percebeu sua movimentação?
EG | Na verdade, os adversários, tanto o prefeito como André Campos, do PT, subestimaram a minha candidatura. Discutia-se qual o candidato iria para o segundo turno com André ou apostava-se que o petista ganharia a eleição no primeiro turno. Isso mostrou o quanto os políticos de Jaboatão estiveram distantes da base, sendo surpreendidos pela minha vitória. Além do mais, nosso grupo tinha análises e o sentimento das ruas. Fiz política com ciência. A 10 dias da eleição percebi que poderia ganhar a eleição no primeiro turno. O que era pouco provável para os adversários, que alegavam que minha candidatura não tinha dinheiro ou estrutura, enquanto eu afirmava que tinha o capital da experiência, o reconhecimento como gestor e credibilidade.
Am | Como o senhor vê o novo mapa político das prefeituras em relação a eleição de 2010?
EG | Sempre disse que a disputa era municipal. Não fui candidato contra ou favor do governador ou do presidente da República. Coloquei sempre a eleição no plano local. Mostrei nos debates que entre os candidatos eu era o mais preparado, mais experiente e que tinha vivência administrativa. Na hora que assumisse a prefeitura, faria o dever de casa e organizaria a prefeitura. E também procuraria o governador e o presidente da República com a certeza de que eles não iriam negar o apoio a Jaboatão. E isso se confirma: estou iniciando parcerias interessantes com Eduardo Campos em várias áreas. Não acho que o governador tenha sido derrotado ou vitorioso em Jaboatão. Em São Paulo, o presidente Lula, muito bem avaliado, não elegeu sua candidata a prefeita.
Am | Mas Jaboatão está fora do PAC?
EG | A prefeitura não cuidou de resolver suas pendências na área de prestação de contas. E não elaborou projetos. Se a gente quiser fazer o saneamento do município não há como captar recursos porque não existem projetos. É inconcebível que com um sistema viário saturado, a prefeitura não tenha feito sequer um planejamento de circulação. Tudo tem que ser feito. Por isso vamos ter que despender muita energia e gastar dinheiro na elaboração e contratação desses projetos. Dei um prazo de 45 dias para a equipe de técnicos elaborar um projeto de macro e micro drenagem da cidade. Com isso em mãos, a prefeitura vai atrás dos recursos do PAC.
Am | Jaboatão dos Guararapes tem muitas diferenças geográficas, demográficas e econômicas. Como o senhor vai lidar com elas?
EG | Percebi ao longo dos anos que os administradores tratavam Jaboatão como se fosse algo homogêneo. Jaboatão é uma Belíndia. Por suas contradições sociais e econômicas serviu como centro de treinamento da tropa brasileira que foi para o Haiti pela similaridade com a pobreza haitiana. Por isso dividi Jaboatão em seis regiões, cada uma delas com um administrador e uma política específica. A ação vai ser regionalizada. As políticas de desenvolvimento levarão em conta essa diversidade para os próximos 20 anos.
Am | Essa regionalização foi pensada na campanha?
EG | Durante a campanha foram feitas consultas à população e organizadas plenárias onde eram encaminhados questionários, depois debatidos e tirado o consenso sobre como o problema seria resolvido. Os moradores diziam que nada funcionava na prefeitura de Jaboatão. Havia inapetência do prefeito para governar um município tão complexo. E tomei a decisão de profissionalizar a gestão, usando planejamento e tecnologia. Dando um verdadeiro choque de gestão. Não se pode esperar muito desse primeiro ano, período de arrumação da casa. E muito menos a construção de obras físicas. Mas nos primeiros dias, a população já percebe a mudança. Há o sentimento de que Jaboatão tem governo, ordem e lei.
Am |E em relação as dívidas de milhões do governo anterior?
EG | Nos primeiros dias fiz um levantamento da situação, chegou-se a uma dívida efetiva e real de Jaboatão de R$ 352 milhões. Com base nisso foi definida uma estratégia de enfrentamento deste passivo e do contencioso. Maior do que a dívida financeira, há a dívida com a cidadania. As medidas administrativas necessárias serão tomadas e ao mesmo tempo encaminharei as conclusões aos órgãos de controle externo, Tribunal de Contas e Ministério Público. Não repetirei os erros do passado.
Am | O que diferencia a sua administração da gestão do PT no Recife?
EG | Algumas coisas são convergentes. Mas o PT defende a participação da sociedade através do Orçamento Participativo. Enquanto eu vou implantar o Planejamento Participativo, que considero mais avançado. Na proposta petista a discussão é sobre o que resta do orçamento para a infraestrutura, enquanto o meu Planejamento Participativo discute o conjunto das obras, as ações, os rumos da cidade. A minha gestão será plural, eu não vou governar para partido, não vou governar para poucos. Vou fazer um grande pacto com a sociedade, envolvendo todas as forças sociais, vou procurar interlocução sem preconceito com o PT, com o PC do B e com o PSB, porque reconstruir Jaboatão é uma tarefa tão grandiosa que não pode prescindir da participação de quem quer que seja. A característica do PT é ser muito o PT. Quero ser representante da pluralidade da sociedade de Jaboatão, do ponto de vista ideológico, cultural, político.
Am | Saindo bem sucedido de Jaboatão pensa no governo de PE?
EG | Sinceramente nunca pensei nisso, nem tive tempo para pensar. Eu sou um homem de poucas ambições. Meu projeto de vida é entrar para a história de Jaboatão como alguém que deu uma contribuição para mudar o rumo da cidade. É a melhor gratificação para mim. Como político, vou continuar um militante. Vou tentar dar minha contribuição ao debate político da Região Metropolitana do Recife. Mas não tenho pretensões maiores. Jaboatão tem que ser o foco da minha atenção.
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quinta-feira, 12-02-2009 |
Podem chamar o Frevo de Maestro Duda
Jovialidade | Introduzi algumas coisas no ritmo, temperei o frevo Voltei Recife de Luiz Bandeira. De lá pra cá o frevo modernizou-se. Ficou mais alegre. Mais jovem.
Antonio Magalhães
O Frevo tem muitos sinônimos: Felinto, Pedro Salgado, Guilherme Fenelon e seus blocos famosos. Ainda Capiba, Nélson Ferreira, Luiz Bandeira e o Maestro Duda.
José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, hoje aos 72 anos, é um grande exemplo de dedicação ao Frevo, ritmo que completa neste carnaval os primeiros 101 anos de primeiro registro oficial. Nascido em Goiana, Mata Norte de Pernambuco, desde os oito anos começou a estudar música influenciado pelo pai. Aos dez anos já fazia parte da banda marcial Saboeira e aos 12 já compunha o primeiro frevo, o Furacão. Anos de dedicação à música o levaram a se tornar um dos maiores regentes, compositores, arranjadores e instrumentistas do Estado com foco no Frevo, sua sina e seu deleite.
Por conta do Frevo, Duda formou várias orquestras. A primeira foi em 1958. A formação mais recente do seu grupo, responsável pela animação do reveillon de 2008 em Boa Viagem, é integrada na maior parte por familiares. É o nepotismo mais alegre e competente que se tem notícia: tocam na orquestra de Duda filhos, filhas, netos, sobrinhos e sua mulher e filhas fazem o vocal. Pelo rigor na escolha do repertório e dos músicos, a orquestra de Duda vem sendo reconhecida em vários carnavais como uma das melhores.
O site oficial do Frevo registra a carreira, também brilhante, de Duda fora dos carnavais: para o teatro musicou “Um Americano no Recife”, com direção de Graça Melo, e outras peças dirigidas por Lúcio Mauro e Wilson Valença. Foi chefe do departamento de música da TV Jornal do Commercio e depois contratado da TV Bandeirantes em São Paulo. Foi também compositor de choros gravados por Severino Araújo e Oscar Miliani, de sambas gravados por Jamelão, de músicas para Quinteto de Sopros e Quinteto de Metais, banda e orquestra, e recebeu o prêmio de melhor arranjo de música popular brasileira em 1980, em concurso promovido pela TV Globo, Shell e Associação Brasileira de Produtores de Discos.
Um currículo musical invejável. Quinhentos discos gravados. Mas isso não lhe garante mais convites de trabalho ou remuneração compatível com sua competência. O Maestro Duda vive simplesmente com a família num prédio antigo no bairro da Boa Vista, com uma aposentadoria de músico e depende financeiramente de apresentações da orquestra em eventos oficiais. Os direitos autorais lhe rendem uma ninharia. Recentemente foi convocado pela entidade para receber os direitos de músicas executadas na África do Sul: estavam disponíveis R$ 2,30, o equivalente a pouco mais de uma passagem de ônibus no Recife.
A sua fama já ultrapassou o meio musical. Hoje ele é objeto de estudo acadêmico. Três teses universitárias já foram realizadas sobre sua carreira. A última delas resgatou algo que Duda considerava perdido: a partitura do seu primeiro frevo, o Furacão. “Sequer me lembrava da música. Agora farei um novo arranjo, 60 anos depois da composição”, entusiasma-se o maestro.
“Acocha, Maestro Duda”, como exclama Alceu Valença no frevo Voltei Recife, de Luiz Bandeira, com arranjo musical de Duda. Um grito de carnaval e uma homenagem a quem fez muito pela música que se tornou um dos símbolos do Estado.
Na entrevista a Algomais, publicada na edição de janeiro de 2007, o Maestro Duda conta a sua história e fala do Frevo.
Algomais | Como foi sua formação musical?
Maestro Duda | Inicialmente foi com meu pai na banda marcial Saboeira, de Goiana. Depois aprendi sozinho saxofone. Vim para o Recife em 1951 e entrei no mercado. A princípio na Jazz Banda Acadêmica. Depois tive que ter um professor de Oboé (instrumento de sopro) para entrar na orquestra sinfônica do Recife, regida por Vicente Fittipaldi. E o padre Jaime Diniz me ensinou regência e composição. Em seguida virei um autodidata. Cheguei a ensinar arranjo e formação de orquestras no Conservatório Pernambucano de Música.
Am | Você fez parte de uma geração de grandes maestros e músicos que brilharam nos anos 50 e 60.
MD | A movimentação das grandes orquestras era grande. As emissoras de rádio do Recife tinham música ao vivo e de grande qualidade. Vinham grupos internacionais para tocar aqui, como as orquestras de Tommy Dorsey, Xavier Cugat. Os cantores não usavam o play back (melodia gravada em disco). Eles eram acompanhados por músicos locais que tomavam conhecimento de novos arranjos. Foi o meu aprendizado. Quando achava um arranjo musical bonito ficava esperando o intervalo para dar uma olhada na partitura do maestro. Queria aprender aquela beleza. Os maestros eram espetaculares: Guerra Peixe, Genro de Moraes, Guedes Peixoto, Clóvis Pereira, Benny Wolkoff, violinista e arranjador, Luis Caetano, apelidado de Timoschenko, que ainda é vivo e mora em João Pessoa.
Am | Como foi aquela época?
MD | A Radio Jornal do Commercio mandou buscar no Rio e no Exterior um bocado de músicos para compor a orquestra principal. Era uma verdadeira sinfônica da emissora. Os músicos tocavam na estação e também da Orquestra Sinfônica do Recife. Havia um acordo para que a sinfônica não ensaiasse no mesmo horário da programação da rádio. Assim, o músico ganhava um pouquinho mais juntando os dois empregos. Nesse tempo eu fazia parte da orquestra responsável pela programação diurna. No horário nobre, à noite, tocava a Orquestra Paraguari.
AM | Das músicas românticas do tempo da Rádio Jornal ao Frevo. Como se deu a transição?
MD | As orquestras que toquei também faziam bailes e o frevo estava no repertório, inclusive no da Jazz Banda Acadêmica.
Am | O Frevo é tido como um ritmo limitado, com compassos repetidos. É mesmo considerada pobre melodicamente? O que é que você acha?
MD | Todas as músicas têm suas limitações. O Frevo, por exemplo, tem dezesseis compassos na sua primeira parte e outros dezesseis na segunda. Acontecendo uma preparação para entrar na segunda. Esse ritmo é como percorrer uma casa abrindo portas para entrar nos cômodos. O Frevo é uma música de dois vãos. Ele precisa ser sincopado, com muita semicolcheia. E bem trabalhado dá excelentes resultados. Até o carrilhão do Diário de Pernambuco serviu de inspiração para o compositor Lívio Macacão que não sabia escrever música e que tocava frevo no serrote. Um dos frevos mais tradicionais de Pernambuco é o Três da Tarde, que introduz musicalmente as três badaladas do carrilhão. Se o maestro José Menezes não o tivesse escrito na partitura ninguém conheceria a beleza desse frevo.
Am | As limitações do Frevo impedem mudanças na sua estrutura?
MD | Não sou tradicionalista, mas o Frevo não pode ficar diferente do que é. Senão deixa de ser frevo. Dizem que agora estão improvisando em cima desse ritmo. Mas não é novidade. Felinho, em 1930, já improvisava. Nélson Ferreira, também. Sivuca, em 1946, gravou frevos com todas as variações de Felinho na sanfona. E o próprio Felinho só veio a registrar isso em 1957. Pode improvisar, mas sem tirar sua essência. Podem-se mudar os arranjos, como fiz com o frevo Voltei Recife, cantado por Alceu Valença. Foi uma novidade. Introduzi algumas coisas, temperei o frevo de Luiz Bandeira. De lá pra cá o frevo modernizou-se. Ficou mais alegre. Mais jovem.
Am | Prevê modificações futuras no Frevo?
MD | Só quando a gente ouvir. Aí poderei dizer se presta ou não.
Am | Quantos carnavais você participou?
MD | Estou com 72 anos. Desde os 10 anos já era músico e participava dos carnavais. Só me lembro de ter passado um carnaval fora do Nordeste. Foi em São Paulo, em 1968, quando atuava na orquestra da Rádio e TV Bandeirantes e morava por lá. Aproveitei aquele ano para ver o carnaval do Rio. Mas aquilo não é carnaval. O folião não participa, é só espectador. E no carnaval de 2007 a nossa orquestra foi convidada para tocar em Salvador. Mas no repertório, só frevo.
Am | O frevo pernambucano ou baiano?
MD | Essa rivalidade não existe. É coisa da imprensa. Em 1982, uma verdadeira seleção de músicos pernambucanos participou de uma turnê pelo Rio, São Paulo e Salvador. Ficamos frente a frente com o trio elétrico de Armando e Dodô, o que havia de mais famoso na época. Foram dados 30 minutos para cada um dos grupos se apresentarem. Estávamos com espírito de final de campeonato de futebol, de jogo da morte. Tirado o centro, fizemos nossa apresentação. No final, Armando, da Bahia, pegou o microfone e disse que o Frevo era, sem dúvida, nosso. E que eles tocavam por achavam bonito. E deu os parabéns. Em 2007 fui convidado por Carlinhos Brown para tocar em Salvador. Ele fez uma homenagem a mim e ao Frevo, enquanto isso os trios elétricos passavam com faixas comemorando os 100 anos do Frevo. Posso dizer que sou mais famoso em Salvador do que no Recife.
Am | Pernambuco é um estado com bons músicos?
MD | Pernambuco e Paraíba têm grandes valores. A melhor escola oficial é da Universidade da Paraíba, principalmente em instrumentos de corda e sopro. Muitos estudantes de música começam aqui e terminam em João Pessoa. Esse Nordeste de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte é um celeiro musical do Brasil. Atualmente aqui está empestado de músico bom que a gente nem conhece. A meninada tocando espetacularmente porque agora têm bons professores. Na minha época ficávamos sem orientação. Às vezes o mestre da banda não sabia sequer tocar os instrumentos. Não sabia nem a escala dos instrumentos. Hoje o professor ensina tudo. O negócio é estudar.
Am | Aos 101 anos de Frevo os músicos têm condições de ganhar bem se não tiver outro emprego?
MD | Ninguém aqui pode viver só de tocar o Frevo. Existe uma boa safra de músicos, mas faltam orquestras. A Orquestra Sinfônica só pode empregar 70 músicos. A Banda Municipal mais 50 e poucos. E o restante vai viver de quê? Tocar onde? Televisão não tem orquestra, é tudo passa-disco. Para conseguir uma apresentação numa TV você tem que estar em evidência ou pagar para se apresentar. Músico é pobre. Não tem músico rico.
Am | Então a maioria tem que depender do apoio público?
MD | Mas o patrocínio só não resolve nada. Digo a você que a gente era feliz e não sabia. Na época do carnaval nos clubes sociais a quantidade de músicos do Recife não era suficiente. Meu último carnaval no Clube Internacional foi em 1989. Entre os anos 70 a 80, o carnaval de rua era só para os clubes de desfiles e troças. O grande carnaval era nos clubes sociais, no Internacional, Português, Náutico, Sport, Cabanga, Caxangá, Country. Vinham orquestras do Sul porque os músicos daqui não davam conta. Os contratos eram fechados em setembro. Vinha a Orquestra Tabajara, a do Maestro Cipó, Herlon Chaves, Ed Maciel, além dos cantores que traziam seus músicos, como Jair Rodrigues e os Originais do Samba, para trabalhar nos clubes.
Am | Por que esse carnaval acabou?
MD | Acho que a culpa foi do poder público que inventou o carnaval de rua na forma como conhecemos hoje. Os clubes tinham lucro. Hoje estão à zero. Bota uma orquestra no meio da rua e traz Alceu Valença, Elba Ramalho, Gal Costa e outros cantores em evidência. Na minha época, os que estavam em evidência iam para os clubes. Depois que os governos botaram artistas de graça nas ruas ninguém quis mais ir para os clubes.
Am | Mas isso não abriu mais espaço para os músicos?
MD | Não. Quem passou a tocar na rua foram os mesmos músicos que tocavam nos clubes. As grandes orquestras de frevo faziam em média sete festas. Reveillon, Bal Masquê ou Municipal, os quatro dias de baile mais a matinê. Agora, no máximo, cada uma consegue três festas no carnaval. Fazer uma festa só quebra qualquer orquestra. É prejuízo para o dono da orquestra. Para se ter uma orquestra, você tem que dar um salário bom aos músicos, gastar dinheiro com a roupa deles, pagar a Ordem dos Músicos e sindicato, alugar um espaço para ensaiar, transportar o pessoal. Então não vale a pena organizar um grupo para tocar em poucas festas.
Am | Maestro Duda, você é uma grande personalidade do nosso carnaval. Como Pernambuco e o Recife lhe tratam
MD | Não acho bom o tratamento que recebo. Sinto falta de mais espaço, ando muito desgostoso a esse respeito. Mas o que há que se fazer. A gente vai ficando velho e descartável.
Am | Qual foi a administração governamental que lhe deu mais apoio?
MD | Se eu disser vão falar que sou do contra e me cortarão de vez. Dão-me três festas agora, mas se eu disser que outra administração me dava cinco, os contratos vão diminuir ainda mais.
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quarta-feira, 04-02-2009 |
Crise | O governante deve ter um ponto de equilíbrio entre o otimismo e o realismo.
Antonio Magalhães
A crise financeira internacional atropelou um bom momento econômico de Pernambuco, o melhor dos últimos 50 anos. De repente, se viu ameaçada a estabilidade dos investimentos que sustentam esse boom pernambucano. Com o olhar especializado de ex-ministro da Fazenda e de Meio Ambiente, ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado e ex-prefeito, Gustavo Krause, avalia os efeitos nacionais e locais dessa onda avassaladora – ora vista como uma marola, ora vista como um tsunami – que atingiu o mundo.
Krause espera que a reação brasileira à crise seja adequada ao problema e as bases que foram consolidadas na economia brasileira nos últimos 20 anos sejam suficientes para agüentar o tranco e deixar o país fora da recessão.
Atuando entre oposicionistas, como conselheiro e estrategista, Gustavo Krause também delineia na entrevista à Algomais o caminho da Oposição para chegar ao Poder. E ele não pode ser percorrido só a seis meses da eleição, frisa o ex-governador. Abaixo a entrevista:
Algomais | É possível ter uma visão realista da economia pernambucana?
Gustavo Krause | Pelo paradigma da industrialização, Pernambuco seria de uma irrelevância econômica total. Com o novo paradigma do século 21, de uma economia global, no qual prevalecem o conhecimento, a infra-economia, a economia imaterial, a logística e o comércio, o Estado passou a ter vantagens competitivas, transformou-se num Estado viável. Ficou moderno por causa da sua posição estratégica, por causa da sua estrutura logística, por sua economia terciária especializada, por seus centros de excelência de mão-de-obra, por causa da informática, da fruticultura irrigada, pela estrutura de entretenimento, lazer e cultura.
Am | Mas isso tudo não vai proteger o Estado dos efeitos dessa crise?
GK | Claro que não. Pernambuco, como o Brasil, está sujeito a crises econômicas cíclicas. Mas essa não o atingirá de forma estrutural, que inviabilize seu futuro. Essa crise internacional afetará conjunturalmente o Estado. O grau de sofrimento veremos mais adiante até o fim do primeiro trimestre de 2009, quando houver passado a ressaca do final do ano e esgotado o estoque de crescimento da economia. No caso de Suape, onde existem concentrações de investimentos, não devem ocorrer maiores abalos no que diz respeito à construção e implantação de grandes projetos, a não ser que os mercados definhem a tal ponto que inviabilize o negócio.
Am | A queda vertiginosa do preço do barril de petróleo no mercado mundial pode afetar o investimento na refinaria Abreu e Lima em Suape?
GK | Ainda não vi ninguém da Petrobrás tocar nesse assunto. Mas a empresa é pouco transparente em muitos aspectos. De repente, a petroleira, que é a maior da América do Sul e a vigésima sexta do mundo busca socorro de caixa num banco estatal sem maiores explicações, pode estar passando por alguma dificuldade. Não se ouviu nada até agora sobre a refinaria de Suape, mas as outras que estavam programadas para o Maranhão e Ceará seguramente não andarão. A nossa possivelmente sofrerá algum atraso, mas não tenho informações suficientes sobre essa questão.
Am | O senhor acha que houve descaso das autoridades no tratamento inicial da crise financeira internacional?
GK | Para mim, a certeza é uma incerteza. Não é uma frase feita, mas um sentimento de quem tem um mínimo de responsabilidade. A postura do presidente Lula deixou a desejar. Ele não poderia ser o porta-voz da catástrofe, porque um chefe de Estado não pode se mostrar fraco diante de qualquer crise, mas também não poderia brincar com os fatos. E Lula brincou: o que era bom era com ele e o ruim com os outros. Até que a ficha caiu e o Governo Federal começou a tomar medidas para atenuar a crise. Mas não há dúvida de que haverá uma desaceleração econômica. Os ciclos têm picos e vales. Só que o último pico, antes da crise, demorou demais e irrigou o mundo todo. Agora estamos na planície sem saber ao certo a duração desse período.
Am | E a reação do Brasil é suficiente para superar esse período?
GK | Perdemos uma grande oportunidade de aprofundar as reformas tributária e política que dariam solidez institucional ao País. Vamos agora apenas reagir à crise. Espero que a reação seja adequada ao problema e as bases que foram consolidadas na economia brasileira nos últimos 20 anos sejam suficientes para agüentar o tranco e deixar o país fora da recessão.
Am | É justificável, diante desse quadro, o otimismo do governador Eduardo Campos e do secretário Fernando Bezerra Coelho a respeito do crescimento econômico de Pernambuco?
GK | O governante deve ter um ponto de equilíbrio entre o otimismo e o realismo. Mas eu entendo o papel deles. Têm como missão manter o entusiasmo, a mobilização, em torno dos grandes objetivos. O velho Churchill, fumando seu charuto em meio ao bombardeio alemão da Inglaterra, contrariando os que pensavam numa derrota iminente, afirmava que iria ganhar a guerra. O líder pode esmorecer dentro de quatro paredes, mas não pode contaminar o corpo social com as crises. Também não se justifica o otimismo exagerado.
Am | Problemas em qualquer Governo favorecem a Oposição. Qual seria o papel dos oposicionistas neste momento?
GK | Exatamente o contrário do que fez a oposição liderada pelo Partido dos Trabalhadores. O PT fez uma oposição destrutiva de fatos e reputações, corrosiva e mentirosa. O partido, hoje no Governo, não assinou a Constituição de 1988, se opôs ao Plano Real e rechaçou até programas educacionais. O primeiro mandamento de uma oposição decente é não agir igual ao PT. O segundo, é ser desprovida de superstições econômicas, como tinha o PT, o que não leva a canto algum. Os petistas sempre imaginaram a economia como um ogro filantrópico, eles gostavam de inflação e gasto público. Agora estão aprendendo com os neoliberais, como Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), uma coisa bem antiga, a necessidade de ter o equilíbrio orçamentário. A postura da Oposição é de não querer fazer uma administração eleitoral da economia. E isso a sociedade está percebendo. O terceiro mandamento da boa oposição é demonstrar para a sociedade que existe uma alternativa bem articulada para enfrentar a crise e para seguir na construção de um país sólido.
Am | Pelos resultados, podem-se comparar os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva?
GK | O presidente Fernando Henrique tinha a visão estratégica da necessidade da estabilidade política institucional e de estabilidade econômica. Mas não teve tempo suficiente para conseguir isso, diante de crises intermitentes. Não conseguiu o desenvolvimento sustentado de Lula. Mas se tirar uma média dos dois governos vai dar tudo igual. Se Fernando Henrique não tivesse os problemas que teve, o crescimento do PIB brasileiro ficaria em torno de 6,5 a 7%. Então, nós sempre tivemos a visão de uma economia de mercado, da democracia política, da estabilidade institucional e da estabilidade da moeda, elementos basilares de uma civilização. Nós sempre pensamos assim. Quem mudou o pensamento foram os petistas no poder. O nosso projeto de Nação continua sendo esse.
Am | E como deve agir a Oposição?
GK | É muito difícil fazer oposição dentro de uma democracia representativa. A oposição parlamentar é trucidada nos grandes embates por conta do adesismo incontrolável a todos os governos. Tivemos isso no governo de FHC e acontece o mesmo com Lula. Hoje, se fosse político militante na Oposição, agiria como o Greenpeace, com imagens e gestos públicos. A palavra perdeu sua força por várias razões. Não que tenha perdido o sentido, só que o mundo de hoje é imagético. A palavra só não basta. Não adianta fazer oposição da mesma forma como era feita no século 18. Tem que ser a palavra e a imagem. Não adianta ser contra o Parque Dona Lindu. Tem que apontar com imagens os dois monstros de concreto e fazer um contraponto com o verde que foi destruído. É preciso que estas imagens cheguem às pessoas. Nisso as ONGs mundiais ambientalistas são brilhantes.
Am | Então a oposição parlamentar não faz mais sentido?
GK | Não. A oposição parlamentar tem que continuar, mesmo sabendo que o rolo compressor do governo vai passar por cima. Mas temos que criar imagens e elas têm que bater forte. Aí a Oposição leva desvantagem, pois quem cria os fatos é o governo. Lula escapou do mensalão, dos aloprados e do sifú usando imagens fortes. As mãos dele sujas do petróleo pré-sal, que já foi para o brejo, é uma imagem forte. As pessoas pensam que as coisas estão acontecendo. É a linguagem simbólica do mundo imagético.
Am | A Oposição deve ser só palavras e imagens?
GK | Não. A Oposição tem também que tribunalizar suas ações. Isto é, usar os tribunais em defesa do cidadão. O número de ilegalidades cometidas pelos Executivos é grande e elas devem ser cobradas na Justiça. Um exemplo disso é o que acontece no Recife: o Plano Diretor da Capital, que passou 10 anos para ser votado, tem um vício legal absolutamente inquestionável. Não inclui um plano de transporte para a cidade, que define sua expansão, como determina o Estatuto das Cidades. Essa coisa tem que ser cobrada pela Oposição nos tribunais. Outro caso são 1.900 dispensas de licitações na Prefeitura do Recife. Um parlamentar oposicionista tem que provocar o Ministério Público para entrar com uma ação de improbidade administrativa.
Am | Esse deve ser o padrão de comportamento oposicionista?
GK | Sim. Quem for da Oposição tem que agir dessa forma para atuar democraticamente e colaborar com a boa governança. Eu sou um liberal radical. Não confio no Poder e nos poderosos. Temos que organizar a desconfiança com o Poder. Criar contra poderes dentro da democracia representativa. Ela não pode ser o povo e o voto. Mas o povo, o voto, o veto, a justiça, a exigência. Vivemos a era da desconfiança com a política. Por isso temos que organizar os contra poderes da sociedade.
Am | As Organizações Não Governamentais (ONGs) seriam contra poderes?
GK | Sim. Mas vejo hoje com tristeza que muitas ONGs, algumas organizações sindicais e movimentos sociais foram cooptados pelo PT, como a União Nacional dos Estudantes (Une) e a Força Sindical de Paulinho, transformando-se em meros apêndices do Poder. Para ser um contra poder qualquer organização tem que ter solidez nas convicções, o que não é o caso de muitas delas.
Am | Como deve se organizar a Oposição em Pernambuco?
GK | Deve estabelecer uma programação para estruturar esse objetivo. E isso se faz até com meia dúzia de militantes. É preciso que a sociedade perceba que seu papel não é apenas ser do contra mas sim atuar um elemento democrático para o bom governo. O que não se pode fazer é enfrentar o Governo só a seis meses da eleição.
Am | Qual é a fórmula para se ganhar uma eleição?
GK | O que faz um governante ganhar uma eleição no Brasil: 50% da probabilidade de vitória dependem dos efeitos da economia. Se tudo estiver bem, ele já sai com metade da chance. Outros 30 a 40% envolvem a comunicação política, o marketing. Divulgar na TV obras, criar fatos e sair nas primeiras páginas dos jornais ajudam muito. Com 10 a 20% de realizações concretas ampliadas pela comunicação e mais 50% do bom momento econômico é possível eleger até mesmo um poste.
Am | E para a Oposição?
GK | Fica mais difícil, principalmente quando a economia vai bem. Mas há muito que fazer. Por exemplo, o que foi que mudou na segurança pública de Pernambuco nesses dois anos? A organização PE Body Counter, essa sim um contra poder legítimo, aponta uma série de problemas. Se a segurança era frágil no governo anterior, por que não foi corrigida agora? E os compromissos assumidos em campanha? Esse é o papel da Oposição: ela tem que ser democrática e responsável em busca da boa governança. Isso traz votos.
Am | Em 2010, Lula estará terminando seu mandato. Enquanto o possível candidato presidencial da Oposição, José Serra, estará forte na disputa, pelo menos é que apontam as pesquisas hoje. Isso facilitará a disputa eleitoral para os oposicionistas em Pernambuco?
GK | É evidente que a Oposição tem hoje um candidato presidencial forte e que será mais forte se as forças oposicionistas tiverem uma definição estratégica do que querem. Se querem ocupar o Poder para proporcionar um salto qualitativo no Brasil tudo fica mais fácil. Mas há ainda muita coisa a ser discutida: as alianças internas, o apoio do PMDB. Nós, do Democratas, temos a consciência que nesse processo somos coadjuvantes. Se for melhor abrir mão da vice-presidência na chapa, abriremos. Qual é o problema em dar uma contribuição no Parlamento ou no Ministério. Essa é a conversa com os políticos, depois o povo decidirá. Depois de viabilizado um candidato presidencial, vamos montar uma chapa forte de oposição em Pernambuco.
Am | É precoce falar em Jarbas Vasconcelos para o lugar de vice-presidente na chapa da Oposição?
GK | É. Mas há uma lógica política nesse fato. Pode não ter mais adiante viabilidade jurídica por conta do posicionamento na campanha presidencial do PMDB. Ou mesmo se o PSDB quiser disputar com uma chapa puro-sangue com Serra e Aécio. Mas se o PMDB for escolhido para compor a chapa de Serra, o vice será do Nordeste e de Pernambuco, onde o partido fez oposição a Lula desde o início. E sendo assim o homem é Jarbas.
Am | Os cargos públicos não lhe fascinam mais?
GK | Fujo do Executivo. Fico com brotoeja ao lidar com a burocracia, embora eu tenha sido um burocrata fazendário. Já a atividade parlamentar me atrai, apesar de ter sido formado pelo Executivo. Só não sei se tenho viabilidade eleitoral. Mas mesmo fora do Parlamento não me sinto frustrado. Procuro ajudar o meu partido e políticos nos quais acredito.
(Edição nº 34 de dezembro de 2008 da Algomais, a Revista de Pernambuco)
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quinta-feira, 18-12-2008 |
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou, nesta quarta-feira (17/12), o arquivamento do procedimento disciplinar instaurado pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco contra o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, juiz Airton Mozart Valadares.
Em setembro, devido a entrevistas publicadas na Folha de São Paulo e na revista Algomais de Pernambuco, o TJPE abriu procedimento disciplinar contra o juiz Valadares, para investigar um possível excesso de linguagem do presidente da AMB em suas declarações.
O plenário decidiu, por unanimidade, desconstituir a portaria 23/2008 da Corregedoria Geral do TJ Pernambucano e o conseqüente arquivamento do Procedimento de Controle Administrativo (PCA 200810000023273).
Para o relator do processo, conselheiro Rui Stoco, "dar entrevistas e emitir opiniões faz parte das atribuições do presidente de uma associação nacional", ao se referir ao caso.
Liberdade de expressão
Em seu voto, Stoco defendeu a liberdade de expressão do magistrado e a liberdade de imprensa. Posição compartilhada pelo plenário, e reforçada pela declaração da conselheira Andréa Pachá: "Isso foi uma violência contra a liberdade de expressão".
(Do Blog de Jamildo/CNJ)
A entrevista completa de Mozart Valadares à revista Algomais está postada na categoria Algomais Entrevistas . A entrevista foi feita por mim e só depois de seis meses da sua publicação, em dezembro de 2007, o Tribunal de Justiça de Pernambuco resolveu interpelar o presidente da Associação dos magistrados do Brasil (AMB), Mozart Valadares, pelos termos da conversa com o repórter. Vale a pena lê-la. Depois tire suas conclusões. Valadares é juiz da Vara da Fazenda em Pernambuco e no momento está licenciado para exercer a presidência da AMB.
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