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Posts da Categoria ’Memória’

Primeiro de Abril verdadeiro

terça-feira, 31-03-2009 |

Primeiro de Abril de 1964.

Na minha lembrança estão os soldados do Exército cercando o Parque 13 de Maio, perto do prédio onde vivia com meus pais, e o fato de não ter havido aula no Colégio Marista, onde estudava. Aos 11 anos de idade percebi, naquele dia, o corre-corre do meu pai em busca de abastecer a casa com comida, uma boataria danada de um tiroteio na Avenida Dantas Barreto, e a preocupação dos empregados do prédio que falavam das maravilhas do governo Arraes.

O silêncio sobre temas políticos foi recomendado em casa. Nada de falar com estranhos sobre militares e congêneres. Os pais protegem os filhos. Mas a propaganda anticomunista era intensa, desproporcional ao que os esquerdistas representavam na ocasião, como mais tarde ficou demonstrado.

Dias depois do golpe militar ou da revolução, como os milicos gostavam de dizer, começaram as prisões. Do meu prédio foi preso o advogado Gibraldo de Moura Coelho, que atuava nos sindicatos dos trabalhadores. Amigo dos filhos dele, sabia da angústia que passavam, embora não houve ainda a tortura disseminada.

Essas foram minhas primeiras impressões de um golpe militar. Mal sabia que a ditadura duraria 21 anos e tolheria minha juventude e início da vida profissional. Foi um tempo de desconfiança - até, às vezes, com o colega de classe, com o vizinho - e do medo de falar o que deveria ser dito.

Ditadura nunca mais. Seja ela de qualquer lado.

O passageiro desaparecido no acidente de Uruguaiana

segunda-feira, 23-02-2009 |

Consultando o Google Analytics para ver a frequencia do meu blog, vi que entrou na página um internauta de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Lembrei-me da minha passagem pelo município gaúcho nos anos 70. Mochileiro, voltava de uma viagem de dois meses pela América Latina a caminho de Porto Alegre, onde tomaria outro ônibus para São Paulo a caminho de casa, no Recife.

Depois de passar pela cidade, numa tarde quente e chata, não aguentava mais ficar sentado na poltrana do ônibus tomado em Buenos Aires. Levantei-me para ir ao banheiro, entrei, fechei a porta, comecei os procedimentos, então ouvi um barulho estranho e ônibus começou a se desequilibrar. Tombou em seguida de lado numa ribanceira rasa, felizmente.

Depois do susto, vi que estava inteiro, fechei a braguilha e sai pela porta que ficou para cima. Entre os passageiros, choro. Alguns doloridos sem gravidade, mas todos assustados. As bagagens espalhadas pela cabine. Meu pacote de cigarros distribuídos entre os bancos. Não me dei ao trabalho de recolhê-los. Deixei prá lá.

Do lado de fora, enquanto esperávamos ajuda, algumas bagagens puderam ser retiradas, inclusive minha mochila, porque tinha ficada no lado liberado do ônibus. Depois de algum tempo passou uma carreta em direção a Porto Alegre. Peguei uma carona e fui embora. Não tinha ninguém conhecido para avisar a minha ida.

Até hoje estão à procura do passageiro desaparecido no acidente de Uruguaiana.

Resultado: traumatizei. Cada vez que vou ao banheiro em ônibus ou avião penso que pode acontecer um acidente. Procuro não frequentar mais toaletes em viagens. 

Nabuco foi contra a vinda de chineses para o Brasil

terça-feira, 14-10-2008 |

A superpopulação chinesa não é só um problema deles. Por muito tempo o mundo esteve preocupado com a expansão da mão-de-obra asiática pelo mundo. A possibilidade de importar chineses para ocupar os espaços que seriam deixados pelos negros cativos depois da abolição em 1888 motivou um debate na Câmara Federal em 1879, nove anos antes do decreto da Princesa Isabel, revelando que o fim da escravatura já vinha sendo discutido em fóruns decisórios há muito tempo. Desse debate participou com veemencia o então deputado Joaquim Nabuco.

 

Esta mátéria saiu no número zero da revista Algomais (dezembro 2006), produzida por mim, a partir dos discursos de Joaquim Nabuco na Câmara Federal.

 

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A proximidade da abolição da escravatura no Brasil, só acontecida finalmente em 13 de maio de 1888, vinha preocupando tanto as forças políticas como econômicas. Como seria feita a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre? Falava-se mais no estímulo à imigração européia do que mesmo na capacitação dos futuros negros libertos.

 

O ministro de Estrangeiros do Império, Moreira de Barros, foi mais além. Sugeriu, em 1879, que o Brasil favorecesse a imigração de 100 mil a 200 mil chineses para ocupar as lavouras do Sul e do Norte. O deputado pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910) capitaneou a reação, na Câmara Federal, ao propósito ministerial. Nabuco argumentou que os chineses, chamados por ele de Chins, não teriam vocação para os trabalhos do campo. Ficariam nas cidades, formando aglomerados comerciais e até mesmo povoações mongólicas. Isso, no entender de Nabuco, seria um risco ao brasileiro ocidental.

 

A revista Algomais selecionou trechos dos pronunciamentos de Joaquim Nabuco na Câmara Federal, no Rio de Janeiro, em setembro de 1879, nos quais ele expõe seus temores com a possível imigração chinesa. Veja o resumo:

 

Joaquim Nabuco (deputado) - Vou expor à Câmara, ainda que com mais ordem, porém  muito rapidamente, quais foram os pontos de vista em que me coloquei para combater a imigração chinesa .

 

Perguntei em primeiro lugar se os chins eram reclamados pela lavoura, e provei que não; a lavoura do Norte não os quer, a lavoura do Sul não os pediu. Mas, sendo os chins reclamados pela lavoura, serão eles convenientes? Não, por muitos motivos; etnologicamente, porque não resolvem o problema da falta de braços; moralmente, porque vêm introduzir na nossa sociedade essa lepra de vícios que infesta todas as cidades onde a imigração chinesa se estabelece; politicamente, afinal, porque em vez de ser a libertação do trabalho, não é senão o prolongamento, como até disse o nobre Ministro, do triste nível moral que a caracteriza e a comunicação ao mesmo tempo da escravidão.

 

Coloquei a questão nestes termos: é o chim pedido? Não. É reclamado? Não. É Conveniente? Não. E, depois de tudo isso, pode o nobre Ministro obter o chin? Não.

 

Não pode obter o chim para a lavoura. Pode ele vir seguramente, mas desde 1809, quando as portas do Império foram abertas ao estrangeiro, nada impede a livre emigração de nenhuma raça para o nosso país. Mas esse chins que emigrarem livremente, que forem movidos por esse instinto de emigração, por esse desejo de procurarem, em um continente tão remoto, uma pátria onde tenham mais bem-estar, esses chins não irão para os trabalhos agrícolas, para os quais não são feitos; não irão viver ao sol, sob o látego do feitor, nas senzalas das fazendas; ficarão nas cidades, que são campos onde podem facilmente disputar as indústrias estrangeiras.

 

Moreira de Barros (Ministro de Estrangeiros) – Vejam a justiça com que o nobre deputado trata a lavoura.

 

Galdino das Neves (deputado) – Pois V. Ex.ª quer negar que lá há látego? Eu não quero levar as lambadas que lá levam. (Risos.)

 

Joaquim Nabuco (deputado) -  Quando se fala na China e quando se fazem paralelos entre o que têm sido os trabalhadores chineses em todos os lugares e o que serão no Brasil, há uma grande confusão. O exemplo da Califórnia não serve, porque o trabalho é livre; na Califórnia não há o contato da escravidão.

 

Quando se traz o exemplo de Cuba e do Peru, não serve, porque Cuba e o Peru importaram chins pelo sistema do tráfico, sistema que está condenado, e no qual o Governo imperial não quererá ser cúmplice.

 

Mas que exemplos trouxe eu para mostra que os países novos como o nosso se desenvolvem, apelando para a colonização; os países que têm a sua única esperança no aumento da população pela imigração; que esses países como a Austrália, abertos a qualquer corrente estrangeira, que não estabelecem condições de naturalização, nem limitação de direitos políticos para nenhuma raça humana como os Estados Unidos, declaram-se incompatíveis, ou julgam-se incompatíveis com a imigração chinesa?

 

Pergunto: por que é que a Austrália, que nos mares longínquos do Oriente é, por assim dizer, a pátria de uma nova civilização; por que é que a Austrália, na posição em que se acha, pela sua proximidade da Ásia, há de disputar, no pensamento de  Prévost-Paradol, aos Estados Unidos e à Inglaterra o comércio do Oriente e do domínio do Pacífico; por que é que a Austrália, cujo futuro está garantido pelo modo como foi colonizada, e onde de transmissão de propriedade territorial é um monumento, que faz a inveja de todos os outros países, não quer o chin? Por que é que levanta contra a raça amarela o direito protecionista, que lhe torna impossível a entrada no país?

 

Martim Francisco (deputado) – A Austrália tem imigração européia e nós não temos.

 

Joaquim Nabuco (deputado) -  Por que é que a Califórnia, cujo bem-estar, cuja grandeza, cujos progressos, todos os dias, são decantados nesta casa; por que é que a Califórnia, povoada por uma raça audaz, que foi buscar no extremo Oeste a riqueza, e que fundou um Estado livre, aventureiro e progressivo, depois de ter ensaiado a imigração chinesa, levanta-se toda, pedindo ao Congresso americano uma lei, para repeli-la, levanta-se contra os tratados feitos com a China, que proíbe a entrada de imigrantes chineses?

 

Moreira de Barros ( Ministro de Estrangeiros) – A razão é conhecida: 55% dos eleitores são concorrentes do trabalho chinês.

 

Joaquim Nabuco (deputado) -  Por que é que estes países, de origem saxônia, que não temem a competência de raça alguma, qualquer que ela seja, quaisquer que sejam seus hábitos e costumes, por que é que a Austrália e os Estados Unidos  põem um obstáculo tão enérgico à onda invasora do mongolismo?

 

Iremos buscar exemplos em Cuba, onde, segundo as palavras do Marechal Serrano, o comércio dos chins tornou-se um verdadeiro tráfico de escravos, onde a locação de serviços do chim tornou-se uma  escravidão asiática enxertada na escravidão africana?

 

Iremos buscar exemplos no Peru?

 

Mas o Peru importava coolies, é exato, 80.000, sob o sistema do tráfico que o S. Ex.ª condena, sob o sistema do tráfico contra o qual se levantaria o país todo, como se levantou contra o tráfico de negros.

 

O Peru importou coolies, operários contratados; mas quando deixou de fazer esses contratos que davam lugar a fraudes escandalosas, depois de ter renovado, todavia, com a China o seu tratado em 1874, como o nobre Ministro quer fazer, por que é que a imigração espontânea não deu resultado algum? Por que é que o Peru, quando fez com uma casa importante de Hong Kong, Olyphant & Comp., uma contrato para a imigração chinesa, os vapores chegaram ao porto de Calhau, carregados, é verdade, de mercadorias chinesas, mas sem ter a bordo um só imigrante?

 

É que a Inglaterra, Portugal, o mundo inteiro, a China, sobretudo, viram que os súditos chineses tinham ido ao Peru sujeitar-se a uma nova forma de escravidão.

 

S. Ex.ª, porém, citou as palavras do Conde d’Ursel. Mas o que tem sido o chim no Peru?

 

É exato que o chim até agora viveu  em uma estado muito vizinho à escravidão, fazendo os trabalhos das plantações de cana; mas eles estão hoje habitando as cidades, enchendo as ruas de Lima. S. Ex.ª deve saber que a nova emigração chinesa no Peru não é composta somente de coolies, mas também de banqueiros, de industriais e comerciantes. Seria impossível supor que, vindo para o Rio de Janeiro 100.000 ou 200.000 chins, não se estabelecessem logo casas de comércio chinesas, relações entre a China e o Brasil, entra Xangai e o Rio de Janeiro, por exemplo, correspondentes às necessidades dessa imensa população. (…)

 

Noutro trecho do debate parlamentar, Joaquim Nabuco é mais enfático nos seus pontos de vista:

 

Joaquim Nabuco (deputado) - A China tem durado séculos, sobrevivido às civilizações antigas.

Pode-se chamar os chins, raça inferior, mas onde eles se estabelecerem hão de multiplicar-se, crescer, espalhar-se por toda a parte, e ainda que a raça superior os domine, os escravize, os governe, qualquer que seja o futuro da raça branca no mundo,onde eles obtiverem uma pátria, hão de fatalmente ocupar o país. Para isso, basta-lhes viver, o que eles conseguem nas piores condições.

 

Senhores, espero voltar a esta questão.

 

Apesar do modo por que o Governo nos recebeu, nós não estamos dispostos a abandonar desde já o campo e deixar transitar tão facilmente o projeto de colonização chinesa.

 

O Governo acha-se colocado diante desta dificuldade. A lavoura do Sul precisa de braços; esses milhares de escravos que são constantemente transportados do Norte, separados da família, da casa, da Província, do meio onde obtiveram uma certa educação ao qual estão tão profundamente presos pelo coração, não bastam para alimentar as necessidades constantes e sempre multiplicadas, felizmente, da lavoura do Sul.

 

Não é a lavoura do Norte que pede os chins; é a lavoura do Sul, diz-se. Mas por que pede ela os chins?

 

É porque o Governo, depois de ter gasto somas fabulosas de dinheiro com a colonização oficial, não quer tentar nenhum meio mais de colonização e prefere esperar pela imigração espontânea.

 

Mas, pergunto: o que são os vossos chins? Não é essa uma nova tentativa de colonização que ides fazer? Em vez de recorrerdes à Alemanha, à Rússia, à Inglaterra, como outrora, ides simplesmente recorrer à China. (…)

Pelópidas, um político elegante e respeitador

sábado, 06-09-2008 |

Sábado (06), final da manhã, encontro num supermercado o historiador Leonardo Dantas Silva. Não me deu bom dia. Apenas disse: perdi um amigo. Pelópidas Silveira, claro. Leonardo contou que frequentava aos sábados a casa do ex-prefeito e oráculo da Esquerda para conversar sobre a história de Pernambuco. Leonardo disse que jamais as diferenças políticas dos dois foram postas à mesa. Elegância e respeito na prática.

Leonardo lembrou uma passagem de Pelópidas pela prefeitura do Recife, que comandou em três mandatos. O engenheiro Oscar Amorim, secretário municipal, queria ampliar a avenida Dantas Barreto destruindo uma parte do bairro de São José, passando por cima do Pátio de São Pedro e do Terço. Pelópidas resolvia tudo sem contrariar diretamente o interessado. Apenas disse a Amorim que aquela reforma era impossível porque não havia dinheiro nos cofres municipais. E ponto final. O Pátio de São Pedro e do Terço foram salvos.

Já Augusto Lucena, como prefeito do Recife, sucessor de Pelópidas depois do golpe de 64, cumpriu o roteiro parcial de Oscar Amorim. Ampliou a avenida Dantas Barreto, destruindo a Igreja dos Martírios e ligando o nada a coisa alguma.

Entregaram a faixa de Prefeito a Pelópidas José dos Anjos, Djair Brindeiro e Miguel Arraes.

Pelópidas: a entrevista sem respostas

sábado, 06-09-2008 |

Na edição de maio de 2006, a revista Algomais, quis prestar uma homenagem ao ex-prefeito do Recife Pelópidas Silveira, falecido neste sábado (06), entrevistando-o sobre a administração pública do Recife e a política pernambucana. Durante dias, o diretor da revista Sérgio Moury e eu, que faria a entrevista, estivemos cercando a família de Pelópidas. Conversamos com Hebe Silveira, filha do ex-prefeito. Mas Pelópidas relutava em conceder a entrevista.

Disse-nos Hebe que ele não tinha disposição de falar mais para a imprensa. Já tinha dito tudo o que tinha a dizer. De todo modo, preparei as perguntas e encaminhei a Hebe. Argumentando até que ela própria poderia ler as perguntas e ele responderia a um gravador, sem a presença do jornalista. Foi em vão. A Algomais, que já fez em dois anos de vida editorial entrevistas com pernambucanos proeminentes, ficou sem Pelópidas. Uma pena para nós e para os leitores.

Transcrevo abaixo as perguntas enviadas a Pelópidas por meio da sua filha Hebe. Um entrevista só de perguntas:

1) Por formação profissional, engenheiro, a atuação do senhor no Poder Executivo, municipal e estadual, esteve sempre ligada ao setor de obras, infra-estrutura e urbanismo. Esse é um setor estratégico para o desenvolvimento. Ele precisa de mais atenção do que é dada atualmente pelos governantes? Por quê?

2) A sua militância política na Esquerda lhe dá a verdadeira dimensão da questão social da Capital, do Estado, do País. O agravamento dessa área foi por descaso das autoridades, por falta de planejamento ou por incompetência?

3) A ditadura militar, implantada em março de 64, cortou a carreira de políticos de esquerda, como a do senhor, a do então governador Miguel Arraes e de outros. Muitos foram obrigados a deixar o País, mas o senhor ficou aqui. A resistência à ditadura foi penosa do ponto de vista pessoal e político?

4) Mesmo como político cassado, o senhor continuou sendo uma espécie de oráculo e reserva moral da oposição aos militares. Os políticos pernambucanos o procuravam para se aconselhar e nas grandes disputas invocavam seu nome como o candidato da conciliação. Esse período o senhor lembra como uma ação possível na ditadura ou a Oposição poderia ter feito muito mais? No fim do período de cassação o senhor pensou em voltar a candidatar-se?

5) Com o fim da ditadura houve uma rearrumação política no País. Sarney uniu-se a Tancredo e anos depois o PMDB local juntou-se ao PFL. Esse reagrupamento surpreendeu o senhor? Ou as forças políticas pernambucanas uniram-se apenas por uma questão eleitoral?

6) Cabem hoje, em Pernambuco, disputas eleitorais entre a Esquerda e a Direita nos moldes do tempo da guerra fria? Ou a competência de cada candidato está acima dessas designações ideológicas?

7) Passados 22 anos da redemocratização do País, a política passa por um momento difícil, de falta de credibilidade, de denúncias de corrupção etc O mau comportamento de políticos é um mal insanável nos governos?

8) Fiel discípulo do senhor, o ex-governador Jarbas Vasconcelos, ex-prefeito do Recife duas vezes e governador de Pernambuco em dois mandatos, é o político que mais acumulou tempo de serviço em cargos executivos. Qual sua avaliação de Jarbas como governante?

9) Tradicionalmente, Pernambuco sempre teve políticos de excelente nível e de expressão nacional, em diversas correntes políticas. Existe, então, uma escola política pernambucana?

 

 

 

 

 

Dom Hélder espera TV Globo para entrar no céu

quarta-feira, 27-08-2008 |

Por falar em Dom Hélder, ainda vivo ele tinha acessos de bom humor com jornalistas. Na cobertura da visita do papa João Paulo II ao Recife (1982), tínhamos, eu e os colegas repórteres, de arrancar comentários diários do arcebispo sobre os preparativos, tipo o que vai comer o pontífice, onde vai dormir, qual o lençol que vai forrar a cama, quem vai serví-lo no café da manhã etc. Num desses acessos, diante da tensão da chegada do papa, Dom Hélder contou uma piada sobre ele mesmo num roda de jornalistas.

Disse que quando morreu (hipoteticamente) chegou ao Céu e encontrou São Pedro na porta. O santo porteiro do jardim celestial mandou entrar. O arcebispo ponderou a Pedro: não podemos esperar a chegada da TV Globo?

Dom Hélder ironizava assim sua admiração pelo vídeo depois de uma abstinência forçada pela ditadura militar.

(Este post foi publicado pela primeira vez aqui no blog em 04 de julho passado)

A minha NÃO entrevista com Michel Foucault

terça-feira, 01-07-2008 |

Vale comentar a entrevista que NÃO FIZ com o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). De passagem pelo Recife, em 1978, Foucault foi convidado pela professora Silke Weber, da UFPE, para falar aos intelectuais do Estado. Em plena vigência da ditadura militar. Fui encarregado por Ricardo Noblat, meu chefe na sucursal da Revista Manchete, para uma conversa com o filósofo visando uma matéria que mostrasse Foucault no Recife, bem no estilo da revista, mas que dava chance ao entrevistado de expor algumas de suas idéias, bem subversivas para os militares.

A princípio Silke Weber intermediou o encontro. Disse que poderia traduzir a conversa. Informou onde estava hospedado Foucault e depois sumiu. Ficou misteriosa. Com um gravador e roupa de trabalho fui à procura do filosófo no Hotel do Sol, em Boa Viagem. O chefe já me cobrava a matéria. Na recepção me informaram que ele estava na praia, defronte do hotel. Fui à praia e avistei, longe, um homem de camiseta de manga cumprida preta, calção preto, óculos de aros finos e uma careca lustrosa no sol das 11 horas. Me aproximei, me identifiquei num francês capenga e disse que deveríamos procurar Silke Weber para a entrevista. Saímos, Foucault e eu, andando pela praia, uma cena bizarra com dois personagens completamente deslocados do cenário natural.

Em momento algum Foucault mostrou-se reticente com o jornalista ou com a Revista Manchete. Voltamos ao hotel, ele foi trocar de roupa, enquanto eu aguardava Weber na recepção. A professora chegou mais séria do que nunca. Quando o filósofo desceu para recepção, preparei o gravador e tirei do bolso o roteiro da entrevista. Nesse momento, Weber me surpreendeu: disse que Foucault não daria a entrevista à Manchete por ser ela uma publicação reacionária, de direita. Isso mesmo. Mal sabia ela que a Manchete abrigava na época grandes jornalistas de esquerda perseguidos pela ditadura, usufruindo do espaço político concedido pela publicação de Adolpho Bloch.

O filósofo não entendeu nada. Weber comentou alguma coisa no idioma galês com Foucault que o meu francês do Colégio Marista não permitiu decifrar. Fiquei irado, tentei argumentar com Weber o valor do espaço jornalístico da Manchete, a revista mais lida pela classe média na época. “Não, não, o monsieur Foucault não vai falar para esta revista reacionária”, asseverou. E se mandou de carro com Foucault para um destino ignorado.

A ditadura militar mexeu com o corpo e a alma dos brasileiros. Até os supostamente libertários, como se enquadrava a professora Weber, assumiram o autoritarismo latente, o stalinismo militante, que não permitem espaço para discussão de idéias. Pois bem, a minha NÃO ENTREVISTA  com Michel Foucalt deveu-se a intervenção da professora Silke Weber.

Caso a Manchete fosse uma publicação mais aberta a NÃO ENTREVISTA valeria uma matéria. Fiquei sem a entrevista e tive que topar com a cara desconfiada de Noblat. Meu emprego, de repórter iniciante, ficou ameaçado por conta desse mico. Felizmente não precisei contar a história de como fui demitido por causa de Foucault.

Excessos na arte de fazer política

segunda-feira, 30-06-2008 |

Convenções, eleições e muita movimentação política me lembram pequenos fatos de antigas coberturas jornalísticas. Numa dessas pude ouvir do então deputado federal Nilson Gibson, governista militante em qualquer governo, uma curiosa saudação ao presidente general João Baptista Figueiredo (79-85). No salão das Bandeiras do Campo das Princesas, Gibson, na presença do presidente, disse que estava saudando um governante de fibra: um João Baptista com “ph” de farmácia. Gibson quis usar um trocadilho infame para dizer que o batista de Figueiredo tinha um “p” antes do “t”. Até o presidente esboçou um sorriso pela bajulação excessiva.

Nilson Gibson também é autor de uma curiosa frase: “Ninguém pode jamais me acusar de ter abandonado um amigo no poder”. Já os que estavam fora do poder não ouviram falar dele.   

O homem do dedão na eleição de Nilo

sábado, 28-06-2008 |

Vida repórter é dura. Na eleição para senador de Pernambuco de 1978 concorriam Nilo Coelho pela Arena 1, Cid Sampaio pela Arena 2, o mesmo partido dividido em sublegendas que somavam os votos, contra Jarbas Vasconcelos pelo MDB, oposição à ditadura militar. Nilo e Cid terminaram vencendo o pleito. Mas na contagem dos votos, na época em cédulas de papel, um correligionário de Nilo foi acusado de fraudar algumas cédulas usando o polegar marcado com um “x”, como se fosse um carimbo.

Eu, repórter da sucursal de O Globo no Recife fui encarregado pelo chefe Ronildo Maia Leite de ouvir o senador eleito sobre esse fato. Procurei Nilo Coelho na sua casa na Av Beira Rio, na Ilha do Retiro. Fui bem recebido por ele, comecei a falar da eleição registrando a euforia da vitória de Nilo. Depois da tradicional conversa mole do jornalista para chegar ao que importa na matéria toquei na questão do seu correligionário que usou o dedão para marcar as cédulas. O homem transformou-se, de risonho e cortês passou a irado e vermelho. Disse que aquilo era uma afronta contra ele que não iria admitir na sua casa. “Ponha-se para fora”, gritou comigo, assustando seus familiares que não sabiam da pergunta. Sai sem olhar para trás. A matéria já tinha o lide ou abertura.

A acusação contra o homem do dedão não prosperou no Tribunal Regional Eleitoral e terminou arquivada por falta de provas.