Posts da Categoria ’Política’
segunda-feira, 16-08-2010 |
Autoelogios, ataques e promessas. Essa é a tríade que sintetiza o conteúdo das campanhas majoritárias. Nesta campanha presidencial os eleitores já vêm recebendo seu quinhão dessas mensagens desde que a pré-campanha começou, mas daqui a pouco, quando começar a propaganda na TV e no rádio, isso vai ser intensificado um grande volume de comunicação, com propagandas e comerciais, concentrado em curto espaço de 45 dias.
Nesse período, o eixo cognitivo das campanhas a sua face mais objetiva e racional não escapará ao planejamento habitual: caráter, biografia, realizações, temas, apoios, questões e propostas. Tudo isso abordado nas vertentes positiva, negativa ou comparativa.
Mas, em torno disso, ou no cerne mesmo, um xadrez emocional estará sendo jogado, no qual o objetivo é despertar reações de entusiasmo, orgulho, esperança, compaixão, medo, raiva, tristeza, entre outras. Um arsenal que combina emoções primárias, emoções sociais, e emoções de fundo. Usadas com maior ou menor consciência pelos marqueteiros, e com diferentes graus de eficácia.
Entre as mais recorrentes estão as que concernem à amígdala cerebral: medo e raiva. Que, aliás, já andam sendo mobilizadas. Petistas procuram despertar raiva e medo da suposta descontinuidade dos programas sociais na hipótese de vitória do candidato da oposição. E os tucanos tentam flanquear o entusiasmo gerado por Lula e despertar ansiedade quanto à candidata oficial, acusada de ligações com as Farc e o MST.
O jogo emocional não pode ser subestimado.
Como analisei no livro “Emoções ocultas e estratégias eleitorais”, ele teve destaque nas três últimas campanhas presidenciais. Em 1998, em plena crise financeira internacional, o medo suscitado em relação a Lula foi importante para assegurar a vitória tucana no primeiro turno, vencendo com facilidade a raiva que os petistas tentaram despertar em relação ao governo que buscava a reeleição.
Em 2002, foi a revanche da raiva, embora maquiada pelo Lulinha Paz e Amor. A desaprovação elevada de FHC, desde o primeiro mês do segundo governo, consolidou um sentimento de aversão que por pouco não tirou seu candidato do segundo turno.
Em 2006, a fórmula emocional vitoriosa combinaria o resgate da raiva antiga em relação ao governo FHC, com o medo face a Alckmin, um candidato então desconhecido do eleitorado, sobre o qual se pregou a pecha da privatização. Do lado tucano, a indignação moralizante seria esmagada no segundo turno.Em 2010, as cordas das emoções estão apenas começando a ser tocadas. Vamos ver qual melodia ganhará mais conexão com os sentimentos dos eleitores.
Antonio Lavareda é cientista político e sociólogo.
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sábado, 31-07-2010 |
Rio Grande do Sul - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva irritou os nordestinos ontem (30), ao dizer que beleza é exceção na região. O comentário foi feito durante a cerimônia de abertura de uma feira de venda de tratores em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. Para Lula, o problema está na miséria que assola milhares de pessoas no Nordeste.
“Qualquer nordestino que vem para cá vê uma diferença enorme, mesmo se tratando de pessoas pobres, entre as pessoas do Sul e do Sudeste, e uma pessoa do Norte e do Nordeste. Porque tem uma máxima: comeu, ficou bonito; não comeu, não fica tão bonito”, disse Lula, numa referência à pobreza naquelas regiões do País.
Numa comparação com o povo gaúcho, o presidente disse ainda que os nordestinos tiveram menos oportunidades. “Se você andar pela região mais pobre do Sul do País, vai perceber que as pessoas tiveram, na década de 50, um tratamento que nós, do Nordeste, não tivemos. Nordestinos bonitos são exceção. Eu e o meu colega baiano ali somos duas exceções”, brincou Lula.
LUIZA THOMÉ, atriz (de Amontoada, Ceará)
“Se o presidente acha isso mesmo, então por que não distribuiu comida para os nordestinos quando assumiu a presidência? Se tivesse feito isso durante os oito anos que governou, já teríamos uma geração de gente mais bonita crescendo. Esta é uma afirmação muito louca! Lula deveria saber que a beleza das pessoas vem de dentro. E que no Sul, também tem muita gente feia”.
TUCA ANDRADA. ator, do Recife, Pernambuco
“Isso é um exagero do presidente Lula! No Nordeste, existem muitas pessoas lindas. É claro que a pobreza e a falta de comida que existem lá deixam as pessoas abatidas. Creio que a beleza tem mais a ver com a origem dos povos do que com a miséria em si. Mas este foi um comentário muito infeliz”.
(O Dia Online - Rio)
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quarta-feira, 14-07-2010 |
Dilma falou, conforme se lê no post abaixo, o que lhe deu na telha sobre a reforma agrária. Não é a primeira vez que ela produz números do nada. Já fez isso com as chamadas “operações especiais” da Polícia Federal. Você quer um quadro realista sobre o assunto. Então leia o que segue.
FHC prometeu e assentou 600 mil famílias e distribuiu 22 milhões de hectares de terra; criou o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Banco da Terra e o Programa Nacional de Fortalecimento de Agricultura Familiar (Pronaf), o maior programa de alívio da pobreza rural; realizou a mais extensa mudança na legislação fundiária desde o Estatuto da Terra, de 1964. Além disso, instituiu o rito sumário nas desapropriações, reformou o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e editou uma Lei de Terras, ferindo de morte o latifúndio, e cassou o registro administrativo de todos os grandes latifúndios do País (cerca de 93 milhões de hectares).
(…) os superintendentes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nos Estados eram nomeados apenas por mérito. E todos na estrutura tinham de abrir mão de seu sigilo fiscal e bancário ao assumirem cargos de chefia. Era proibida a nomeação de parentes.
Nenhum massacre de sem-terra tornou a ocorrer após Eldorado dos Carajás, de tristíssima memória. Nenhum escândalo de desapropriação fraudulenta de terras ou corrupção pipocou. As invasões de propriedades foram caindo até alcançarem o seu mais baixo nível em décadas — resultado, em parte, da edição da medida provisória (MP) das invasões de terra, que determinava a retirada do Programa de Reforma Agrária, por dois anos, de qualquer área invadida.
E o governo Lula, o que fez e faz?
Antes de Lula chegar ao poder, li uma entrevista em que ele garantia que, se eleito, “faria a reforma agrária de uma canetada só”. Sorri e tive raiva, ao mesmo tempo, por causa da evidente demagogia. Até hoje a reforma agrária do sr. Lula tem seguido, em linhas gerais, a do governo FHC — embora menor, menos criativa e menos republicana. Não se mudou uma vírgula na legislação agrária herdada, acidamente criticada pelo PT e por seu braço no Movimento dos Sem-Terra durante anos a fio. Tampouco houve alteração no MDA e no Incra. Onde se deu alguma mudança foi para pior. Todos os cargos comissionados do Ministério e do Incra, sem exceção, voltaram a ser preenchidos por indicação política dos movimentos sociais ou partidos da base do governo. Acabou a exigência de se abrir mão do sigilo bancário e fiscal para ocupar chefias.
Os números de assentamentos e de hectares de terra distribuídos são claramente inferiores, ainda que o volume permaneça razoável. Já os conflitos e assassinatos por causa da terra explodiram no início do atual governo, fruto da expectativa (frustrada) da reforma de uma canetada só. Em seguida, estabilizaram-se em patamares mais baixos, sem chegar, entretanto, ao nível dos anos finais do governo FHC. O Banco da Terra, que motivara uma enorme campanha de desqualificação por parte do MST, foi rebatizado de “Crédito Fundiário”. No Nordeste, berço das Ligas Camponesas e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), programa de assentamentos resultante da transposição do Rio São Francisco não será implantado — ao menos no atual governo.
A MP das invasões não foi revogada, mas também não é cumprida. Sempre haverá algum governista a bradar que os recursos destinados à reforma agrária são maiores no governo Lula. Claro. O País cresceu, a arrecadação de impostos e o orçamento global, idem. E há ainda a questão da produtividade da terra. O governo Lula assumiu compromisso com o MST de rever os índices que medem a produtividade agrária, de modo a ampliar o estoque de áreas improdutivas. É risível! Sabíamos, por experiência própria, que o empresariado rural vai à guerra antes de admitir tal mudança, a qual incendiaria, de verdade, o país. Resultado: mais uma promessa que não deu em nada.
E o que faz o MST diante desse quadro?
Perdeu o rumo, o prumo e a razão de ser: derrotar e, se possível, derrubar o governo Fernando Henrique. Isso é cristalino quando se comparam os dois governos e a atuação do movimento. Fosse a reforma agrária razão de ser real do MST, seu desempenho no governo Lula seria mais agressivo que no de FHC. Haveria mais pressões. Mas ocorre justamente o contrário. Por quê?
Este governo é do MST, que o ajudou a “chegar lá”. Ainda que verbalize, aqui e acolá, contrariedades e críticas periódicas ao Programa de Reforma Agrária, tudo é muito bem comportado e dentro de limites traçados no Planalto pelo ministro Luiz Dulci. Sabem os sem-terra que a alternativa real a Lula é o PSDB, pois eles não têm alternativa política ao que “está aí”.
Em segundo lugar, o governo fez do MST um movimento governista por meio de ampla cooptação, via aparelhamento do Incra e suas superintendências e do MDA. De quebra, abriu como nunca as burras do Tesouro ao movimento, por intermédio de praticamente todos os seus Ministérios, autarquias e estatais. Resultado: grande parte das lideranças intermediárias e superiores do MST foi cooptada. Tem cargo comissionado, virou chapa-branca, aburguesou-se…
Por fim, os programas sociais de transferência de renda, do tipo Bolsa-Família, criados no governo anterior e ampliados no atual, têm o condão de secar as fontes de recrutamento do MST. Moral da história e ironia do destino: o presidente que ia fazer a reforma agrária de uma canetada só não a fez, nem com todo o estoque de tinta do Palácio do Planalto. Tem tudo para passar à história como o verdugo, ainda que não intencional, do MST.
Já João Pedro Stédile, quem diria, de incendiário e revolucionário no governo FHC virou barnabé no governo do camarada Lula.
Encerro
O artigo acima, infelizmente, não é meu. É de autoria do deputado Raúl Jungmann (PPS-PE), candidato ao Senado nestas eleições. Foi ministro do Desenvolvimento Agrário por seis anos. Aí estão os fatos. O resto é fantasia da candidata petista.
O tucano José Serra jamais anunciou, enunciou ou sugeriu a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Ao contrário: a pasta foi criada na gestão FHC. Só que há uma diferença entre os dois governos: o tucano assentou mais com menos invasões e menos conflitos; o petista assentou menos com mais invasões e mais conflitos. Entenderam a lógica?
PS: Lamento não votar em Pernambuco; Jungmann seria o meu candidato ao Senado. Torço para que boa parte dos pernambucanos percebam que isso seria bom para seu estado. O texto acima foi publicado no Estadão em janeiro do ano passado. Por alguma razão, desapareceu dos arquivos. Mas eu o tinha guardado no meu arquivo.
(Blog Reinaldo Azevedo)
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domingo, 27-06-2010 |
Um internauta me desafia a comentar a nova lei dos fichas limpas - que proíbe a candidatura a cargo político de quem já foi condenado por um colegiado de juízes. Ele acha que, por eu ter ligação profissional com o departamento de TV da Assembléia Legislativa, iria me omitir na questão.
Em primeiro lugar, a lei, proposta pela sociedade brasileira, foi aprovada pela maioria do Congresso e sancionada pelo presidente da República. Sendo assim não me cabe cobrar a aplicação da lei e muito menos apontar quem pode ou não ser candidato. Para isso tem o Ministério Público Eleitoral e a própria Justiça Eleitoral.
O internauta quis, na verdade, me colocar mal diante dos deputados ou apontar a minha falta de coragem para falar de ficha limpa junto aos parlamentares. Falo sim desse e de outros temas em entrevistas na Assembléia na TV Debate porque faz parte do meu trabalho. Mas cada um deve cuidar da sua biografia. Tanto o internauta, como parlamentares, juízes e governantes.
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domingo, 27-06-2010 |
“Por que a chuva não gosta dos pobres?”, perguntou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao comentar, na sexta-feira, 25, a destruição causada pelas enchentes em Alagoas e Pernambuco. A resposta, conforme disse em discurso, está na postura dos políticos: não agem corretamente para proteger a população que sofre com as cheias ou com a falta de chuva.
Depois de lembrar que o presidente Lula sobrevoou na quinta-feira áreas alagadas dos dois estados, Cristovam previu que, daqui a duas semanas, com o fim das chuvas, o drama da população será esquecido. No próximo ano, como disse, com um novo presidente da República, as cenas se repetirão, “como se a chuva não gostasse dos pobres, quando, na verdade, somos nós que não gostamos deles”.
O senador sugeriu tirar um mínimo de proveito da tragédia e despertar o país para a necessidade de mobilizar recursos técnicos e financeiros para fazer obras de drenagem, de proteção de ladeiras, de contenção de encostas e de construções sólidas, que protejam a população pobre.
Cristovam afirmou que “os pobres também não cuidam de si quando não votam certo”.
(Agência Senado)
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terça-feira, 22-06-2010 |
(…) Jarbas é um político competente e deve saber muito bem que, em última análise, eleição é uma aposta no futuro. O passado de um candidato para o eleitor é apenas uma referência, de nada vale se vier acompanhado de um discurso que aponte para um futuro melhor.
O que a chapa de oposição precisa é de um nome que a rejuvenesça. E não falo aqui da dimensão temporal. A oposição precisa olhar para frente, pavimentar o futuro. E, para isso, nada melhor que lançar um nome que pode até não ganhar mas que se projetará como uma nova liderança no estado.
André Régis daria uma face mais jovial à chapa de oposição e teria algo novo a dizer ao eleitorado
Um nome que estaria prontinho para assumir essa segunda vaga ao Senado é o do professor da UFPE André Régis (PSDB). Teve cerca de 5 mil votos a vereador no Recife sem comprar um único eleitor e sem grandes esquemões de campanha. O cara tem “apenas” dois mestrados e dois doutorados (um em Direito e outro em Ciência Política). Possui inserção real na sociedade e teria algo de novo a dizer à sociedade. Pode se transformar num nome de peso para as oposições no futuro. (…)
(Trecho do post de Marco Bahé - no blog Acerto de Contas)
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domingo, 06-06-2010 |
Modelo predatório: termoelétricas, usinas nucleares e desmatamento
Heitor Scalambrini Costa*
Nas últimas semanas foram veiculadas pela mídia notícias que deixaram, no mínimo, preocupadas todas as pessoas que querem, esperam e desejam que Pernambuco se desenvolva de forma sustentável e assim, melhore a condição de vida da população pernambucana. O crescimento econômico do Estado tão propalado e propagandeado não é um fim em si mesmo. Ele é uma ferramenta, um instrumento para o desenvolvimento. E o desenvolvimento que nós defendemos é aquele que seja sustentável em todos os aspectos: econômico, ambiental, social e cultural.
Inicialmente, deixou-nos perplexos, o anúncio do secretario estadual de Recursos Hídricos, na 9ª Reunião do Conselho deliberativo da SUDENE, ocorrida em 29 de abril, de que o Estado vai entrar na disputa para receber uma central nuclear que o governo federal planeja instalar no Nordeste. É sabido que no seu artigo 216, a Constituição Estadual proíbe a instalação de usinas nucleares em Pernambuco enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia elétrica de outras fontes. Logo, o governador vai ter que mudar a Constituição Estadual.
Outra ação do executivo, na mesma linha da perplexidade, foi o envio à Assembléia Legislativa (AL) do Projeto de Lei (PL) 1496/2010, autorizando o desmatamento de 1.076,49 hectares de vegetação nativa, para a ampliação do Complexo Industrial e Portuário de Suape, no Grande Recife. Com a pressão das organizações da sociedade civil pelo absurdo proposto, um substitutivo foi enviado e aprovado, para o desmatamento de 691 hectares (tamanho aproximado de 700 campos de futebol), de mata nativa, sendo 508 de mangue, 166 de restinga e 17 de mata atlântica. Ação idêntica de desmatamento de vegetação nativa está também em tramitação na AL, o PL 1591, que autoriza o desmatamento de 7,4 hectares, distribuídos em 44 fragmentos, visando o alagamento de uma área para a formação do reservatório de uma PCH (pequena central hidrelétrica) chamada Pedra Furada, no município de Ribeirão, na Mata Sul.
Mais recentemente, o comunicado divulgado pelo grupo finlandês Wärtsilä, que irá assumir a construção da usina termelétrica Suape II, no Complexo Industrial e Portuário de Suape, com uma potência instalada de 380 MW, funcionando com óleo combustível: uma sujeira só para o meio ambiente. O projeto do tipo “chave na mão” (turnkey) pertence a um grupo formado pela Petrobrás e a Nova Cibe Energia (Grupo Bertin), cujo início de operação comercial está prevista para 1º de janeiro de 2012.
Em nome de alavancar o desenvolvimento do Estado, com novos investimentos para a região e a criação de novos postos de trabalho e geração de renda, se perpetua um modelo predatório, cujas conseqüências podem ser traduzidas na aceleração da degradação ambiental e no aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsável pelas mudanças climáticas; além de pressionar os problemas econômicos e sociais com mais concentração da riqueza gerada.
A questão das opções e das escolhas das fontes de energia é assunto em pauta, no contexto mundial, pois são as fontes energéticas atuais (petróleo/derivados, gás natural, carvão mineral e minérios radioativos) responsáveis por mais de 2/3 das emissões de gases de efeito estufa no mundo. Com relação à instalação de termoelétricas no Estado, recordemos da TermoPernambuco (TermoPe), movida a gás natural, que até recentemente, por falta deste insumo, nunca havia atingido sua capacidade instalada plena de 520 MW, além de ter contribuído e contribuir significativamente para a majoração extraordinária das tarifas de energia elétrica no Estado. Trata-se de um exemplo que não podemos esquecer.
O que deixa atônito a todos é este anúncio, completamente inexplicável do ponto de vista ambiental e da oferta de energia elétrica, da Energética Suape II. O combustível a ser empregado é o óleo combustível, que dentre os combustíveis fósseis é o mais “sujo”, pois para cada 0,96 m3 de óleo combustível consumido na usina serão emitidas 3,34 toneladas de CO2 (segundo a Agência Internacional de Energia).
O interesse pelas usinas nucleares é outra decisão absurda do governo estadual, completamente descabida, fora de propósito e equivocada. Os argumentos utilizados como o da diversificação da matriz energética, atendendo o crescimento da demanda de energia da região, de que é uma tecnologia segura, não emissora de CO2 e barata para a produção de energia elétrica, são argumentos falaciosos e não representam a verdade dos fatos.
Com relação aos custos da eletricidade nuclear eles são caros e irão impactar ainda mais as tarifas de energia elétrica, uma das mais caras do mundo. De que é uma tecnologia segura? Como se fosse possível, alguns de seus defensores chegam a afirmar que os riscos de ocorrer um acidente inexistem. Obviamente, não podemos negar os renovados esforços da indústria nuclear em apresentar-se como segura, todavia, acidentes em instalações nucleares em diversos países continuam a demonstrar que esta tecnologia é perigosa, oferecendo constantes riscos que podem trazer conseqüências catastróficas ao meio ambiente e à humanidade, por centenas de milhares de anos. Sem falar em outro problema que continua sem solução no Brasil e no mundo, que é o armazenamento do lixo radioativo gerado pelas usinas. Estima-se que estes rejeitos tenham que ficar isolados durante até 10 mil anos. Aí se evidencia um problema de ordem ética, pois usamos a eletricidade agora e deixaremos para as gerações futuras resolver o que fazer com este lixo.
Afirmar que as centrais nucleares não contribuem para os gases de efeito estufa, que são “limpas”, é uma meia verdade. No conjunto de etapas do processo industrial que transforma o mineral urânio, desde quando ele é encontrado nas minas em estado natural até sua utilização como combustível dentro de uma usina nuclear, chamado ciclo do combustível nuclear, são produzidas quantidades consideráveis de gases de efeito estufa. Segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica se consideramos a mineração do urânio, o transporte, o enriquecimento, a posterior desmontagem da central (descomissionamento) e o processamento e confinamento dos rejeitos radioativos, esta opção produz entre 30 e 60 gramas de CO2 por kWh gerado. Já de acordo com a metodologia de Storm e Smith para o cálculo de emissões, o ciclo de geração por fontes nucleares emite de 150 a 400 g CO2/kWh, enquanto o ciclo para geradores eólicos emite de 10 a 50 gCO2/kWh. O cálculo que faz a Oxford Research Group chega a 113 gramas de CO2 por kWh. Isso é aproximadamente o que produz uma central a gás. Portanto, aqui também tem um mito, um afã de descartar, cortar e mostrar uma parcialidade sobre a realidade desta fonte de energia.
Quanto os desmatamentos previstos na área de Suape, também há um engano que comprometerá as futuras gerações, em afirmar que o “novo ciclo de desenvolvimento (?)”, e que a “redenção econômica do Estado (?)” exigirá “o sacrifício ambiental” daquela área, segundo o diretor de Engenharia e Meio Ambiente de Suape (JC de 25/04/2010 “Os desafios do Desenvolvimento”). É preciso que se façam os investimentos corretos a fim de compatibilizar o desenvolvimento que leva em conta a saúde, a educação, a cultura, com a diversidade e com a proteção dos recursos naturais. Temos sim, que avançar no sentido de uma mudança de paradigma da relação das indústrias com os recursos naturais, com o uso de novas tecnologias, que possam ser menos poluentes, que possam contaminar menos, que assumam esse papel da responsabilidade social e ambiental. É preciso cada vez mais dizer alto e em bom tom que o meio ambiente não atrapalha o desenvolvimento.
Empreendimentos da magnitude que estão ocorrendo não podem acontecer sem uma forte participação da sociedade, pois os impactos ambientais, entendidos como as conseqüências das ações previstas e em andamento, acabarão influindo na qualidade de vida, não somente dos moradores daquela região, mas de todo o Estado. Partindo do conceito de desenvolvimento sustentável podemos afirmar que é um absurdo e um equívoco que o governo estadual opte pela energia nuclear e pela termoelétrica a óleo combustível para geração de energia elétrica, considerando que o Estado conta com outras opções de produção a partir de energias renováveis e limpas (solar, eólica, bioeletricidade/bagaço da cana de açúcar). Para um desenvolvimento sustentável, voltado para o bem de todos, da pessoa humana e da natureza, não se deve optar pelo desmatamento e sim pela preservação ambiental.
O mais importante a destacar é que o crescimento que estamos vivenciando em Pernambuco está subordinado a um modelo de desenvolvimento econômico que considera que crescer desmatando e utilizando fontes energéticas “sujas” é o único caminho. Uma visão do século passado que ainda domina as mentes dos gestores.
* Heitor Scalambrini Costa é Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco
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domingo, 23-05-2010 |
O Brasil está pronto para dominar o ciclo nuclear completo em escala industrial. A inauguração da primeira fase da Usina de Hexafluoreto de Urânio (Usexa), prevista para este ano, permitirá que o país atue em todas as etapas do beneficiamento do mineral radioativo, desde a extração até a fabricação do combustível nuclear em grande proporção.
Com isso, o Brasil fica independente de outros países no processo de enriquecimento, garantindo suprimento para as usinas nucleares e também para o futuro submarino nuclear. A informação foi divulgada pelo coordenador do Programa de Propulsão Nuclear da Marinha, capitão de mar e guerra André Luis Ferreira Marques.
A Agência Brasil teve acesso exclusivo ao Centro Tecnológico da Marinha, no complexo militar de Aramar, em Iperó (SP), onde fica a Usexa, e constatou o ritmo acelerado das obras. Na mesma área estão sendo construídos os prédios do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Labgen), responsável pela fabricação do reator do futuro submarino nuclear.
“A Usexa começará a funcionar nos próximos meses em fase de comissionamento, quando se testam o sistema e os equipamentos para demonstrar que eles operam corretamente. As temperaturas, as pressões, as vazões, se as válvulas estão funcionando e se a instrumentação está dando informação confiável. Mas não vamos botar o urânio, ainda.”
Segundo o militar, o yellow cake – urânio em forma de um pó amarelo - só deve começar a ser processado em 2011. A Usexa é formada por 40 quilômetros de tubos, tanques, fornos e milhares de válvulas, onde o mineral é misturado com outros produtos químicos para sair em estado gasoso, o hexafluoreto de urânio, ou UF6. Esse gás passa por ultracentrífugas para ser enriquecido, separando o urânio 238 - mais abundante, mas que não interessa ao processo - do urânio 235, mais instável e que produz energia mais facilmente.
O objetivo da Usexa é produzir combustível para o submarino nuclear brasileiro, que deve entrar em operação por volta de 2020. No complexo de Aramar serão produzidas 40 toneladas de UF6 por ano. Atualmente só seis países têm condições de fazer a conversão do yellow cake em gás: França, Rússia, Canadá, Estados Unidos, Brasil e Irã. O UF6 que o Brasil usa ainda é processado no Canadá.
O trabalho é complexo e a quantidade de urânio usada é muito grande. De acordo com Ferreira Marques, mil quilos de yellow cake geram apenas um quilo de gás UF6. Isso produz uma quantidade de efluente muito grande, gerando um passivo ambiental (lixo) que tem de ser administrado.
“O grande problema hoje nessas unidades de conversão de urânio é fazê-las passar pelo licenciamento ambiental. Nós estamos seguindo essas leis direitinho”, garantiu o capitão. Ele ressaltou que, em Aramar, o material que sobrar será reprocessado várias vezes para minimizar o impacto ambiental.
O gás é convertido novamente em pó e segue para o último estágio, que é a fabricação das pastilhas que alimentarão os reatores nucleares. A montagem das varetas do reator - onde ficam as pastilhas - é feita em uma unidade na Universidade de São Paulo (USP).
Para alimentar as usinas Angra 1 e 2 e a terceira unidade, que está sendo construída, os volumes de urânio necessários chegam a 400 toneladas de UF6 por ano para cada uma. Esse combustível será produzido na unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), no município fluminense de Resende, onde funciona um complexo de ultracentrífugas operando em cascata.
“Cada usina de Angra pede de 400 a 500 toneladas por ano. A produção em Aramar é dirigida para as necessidades do Ministério da Defesa. Existem conversações para nós sermos consultores técnicos da INB para eles fazerem lá em Resende uma unidade de 1.200 toneladas de UF6 por ano”, informou Ferreira Marques.
(Agência Brasil - Governo Federal)
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domingo, 23-05-2010 |
O domínio do ciclo completo do urânio em escala industrial, que, segundo a Marinha, deve ser atingido ainda neste ano, eleva o patamar geopolítico do Brasil, com reflexos inclusive na pretensão do país a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A avaliação é do professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Alberto Montoya.
“Para isso [conseguir uma vaga permanente no conselho], é preciso que o país tenha capacidade militar para projetar o seu poder em escala internacional. De nada adianta você dizer que quer um assento permanente e não ter a capacidade de atuar no caso de uma responsabilidade internacional.”
De acordo com Montoya, o domínio do ciclo completo do urânio em escala industrial impõe ao país não apenas maior poder, mas também novas responsabilidades.
“Se um país de terceiro mundo diz que domina esse ciclo, isso acaba sendo percebido com desconfiança, porque é um fator geoestratégico para diminuir a dependência das grandes potências. Antes de impor respeito, impõe responsabilidade de que será para fins pacíficos e de que o seu uso será acompanhado de um programa muito específico de controle”.
Para o professor, a construção de um submarino nuclear, que deverá estar pronto por volta de 2020, é fator fundamental para garantir a soberania nos recursos marítimos. O submarino está relacionado à questão da Amazônia Azul, conceito que abrange a extensão territorial marítima do país, incluindo os campos petrolíferos do pré-sal.
“O Brasil tem defendido que tenhamos direito de reconhecimento de uma área de 900 mil quilômetros quadrados, equivalente às áreas somadas dos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo. Para fazer o monitoramento dessa área, um submarino de propulsão nuclear será realmente importante, mas é preciso lembrar que apenas um submarino não vai dar conta de cobrir toda essa extensão.”
Montoya alertou, porém, que não pode haver descontinuidade no projeto, que começou nos anos 70 do século passado. Para ele, o desafio é que o programa nuclear seja visto como uma política de Estado, que pense a médio e longo prazos o papel que o Brasil vai exercer nas relações internacionais.
“É importante que, independentemente de quem seja o próximo presidente da República, exista a sensibilidade de que, engavetar esse projeto vai acarretar um custo maior para o Brasil, não apenas em termos econômicos, mas também políticos e militares. É necessário ter maturidade para que esses projetos sejam levados até o fim”.
(Agência Brasil - Governo Federal)
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domingo, 23-05-2010 |
Heitor Scalambrini Costa, físico, professor associado da Universidade Federal de Pernambuco, enfrentou as feras em Brasília para defender seu ponto de visto contra a instalação de usinas nucleares no Nordeste, como quer o Governo Lula. A previsão da Eletroculear é instalar quatro usinas nucleares na Região. Os estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco disputam o “privilégio” de abrigar uma delas, embora as constituições estaduais dos quatro proibam usinas nos seus territórios.
Depois de participar de uma entrevista no programa Assembléia na TV Debate (TV Universitária, canal 11, em UHF canal 22 e 46), comandado por mim, Scalambrini enviou por email essas pertinentes observações sobre o tema. Pelo tamanho do texto, ele foi dividido em três partes. Vale a pena lê-lo e divulgá-lo.
Antonio Magalhães
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Para responder a questão se “a energia nuclear é uma boa solução para o Brasil (Nordeste)?”, caberia discutir se essa alternativa de geração de energia elétrica é econômica, segura e ambientalmente limpa. Esse debate é que temos que fazer com a sociedade.
Minha resposta é fácil: NÃO, pelas seguintes razões:
Sobre a economicidade dessas usinas núcleo-elétricas, segundo os estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o custo da eletricidade nuclear de Angra 3 ficará em torno de R$ 138/MWh, abaixo dos custos de termoelétricas a gás e carvão importado, e abaixo dos custos da eletricidade eólica (R$ 240) e solar (R$ 1.798). Ainda sobre Angra 3, a Eletronuclear informa que o empreendimento custará R$ 7,2 bilhões, sendo que 70% do financiamento virão de recursos do BNDES e fontes estatais, e os outros 30% de investidores internacionais.
As condições de financiamento são controversas, já que a Eletronuclear assumiu uma taxa de retorno para o investimento entre 8% e 10% - muito abaixo das praticadas pelo mercado, que variam de 12% a 18%. Somente uma taxa de retorno tão baixa pode viabilizar a tarifa de R$ 138 MW/h anunciada pelo governo federal para essa usina. A operação a baixas taxas de juros revela o subsídio estatal à construção de Angra 3.
Estudos têm mostrado que somados juros e financiamento, Angra 3 não sairá por menos de R$ 9,5 bilhões, sem contar R$ 1,5 bilhão gastos até agora.Os subsídios governamentais ocultos no projeto dessa usina nuclear são perversos, porque serão disfarçados nas contas de luz. Se isso se verificar quem vai pagar a conta seremos nós os usuários, que já pagamos uma das mais altas tarifas de energia elétrica do mundo. Também é contestado o prazo de 66 meses estipulado pelo Ministério das Minas e Energia (MME) para a entrada em operação da usina. O governo fez uma estimativa de 30% de progresso já existente em sua construção. Ainda assim, os 70% restantes consumiriam em média pelo menos mais 96 meses, segundo estimativas.
A título de comparação de custos, a energia da hidrelétrica de Santo Antônio, foi negociada a uma tarifa de R$ 79/MWh, a hidrelétrica de Jirau, o preço foi de R$ 91/MWh (ambas no Rio Madeira), e o resultado do primeiro leilão de energia eólica no Brasil deixaram o MWh em torno de R$ 148. Bem mais reduzido que o apontado pela EPE para justificar a suposta viabilidade econômica da opção nuclear. Utilizando os R$ 7,2 bilhões alocados para Angra 3, seria possível construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear (1.350 MW) em apenas dois anos sem lixo radioativo ou risco de acidentes. E também, em termos prioritários de como utilizar esse “dinheirão”, dados do Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica), mostram que cada R$ 1 bilhão empregado em programas de eficiência energética resulta em uma economia na potência instalada de 7.400 MW, o equivalente a 5,5 vezes a potência de Angra 3 ou a metade de Itaipu.
Logo, se uma usina nuclear custa mais de R$ 7 bilhões, pode-se concluir que cada R$ 1 bilhão investido em eficiência pode evitar investimentos de até R$ 40 bilhões para gerar a mesma quantidade de eletricidade nuclear. Portanto construir usinas nucleares no Brasil só será possível por meio de um verdadeiro saque aos cofres públicos. E, podemos considerar que a médio e longo prazo, o desvio de recursos públicos para a opção nuclear será um verdadeiro obstáculo ao estabelecimento de políticas de incentivo e promoção de energias renováveis no país.
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