Alex: de olho na sociedade pernambucana
4 de janeiro de 2013 – 11:29Em setembro de 2006, a revista Algomais publicou esta entrevista que fiz com Alex, José de Souza Alencar, cronista, membro da Academia Pernambucana de Letras e o mais conhecido colunista social de Pernambuco. É uma homenagem a quem acompanhou por muitos anos as transformações do jornalismo e da nossa sociedade festeira no Jornal do Commercio e nos anos recentes na Folha de Pernambuco. Hoje ele está bem doente.
Antonio Magalhães
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“O pior da velhice é que queremos fazer coisas pensando que somos jovens”. A frase do escritor francês Jean Cocteau serve ao mais conhecido colunista e cronista social de Pernambuco, José de Souza Alencar, Alex, como um lema de vida na altura dos seus 80 anos, completado no dia 5 de agosto passado, a ponto de trazê-la manuscrita para evitar que fosse esquecida durante a entrevista. Há 52 anos publicando na imprensa pernambucana – primeiro no Diário de Pernambuco e depois no Jornal do Commercio – comentários sobre cinema, literatura e acontecimentos sociais, desde festas, batizados, casamentos e até grandes eventos, Alex se sente com energia para continuar a fazer uma coluna diária no Jornal do Commercio, em um quarto de página no Caderno C, sobre a movimentação da sociedade pernambucana. Não fala em parar. Mesmo porque como “imortal” da Academia Pernambucana de Letras (três livros publicados) vislumbra uma eternidade pela frente.
Indiretamente e diretamente sempre esteve ligado a fatos da chamada alta sociedade, a high society. Na pequena Água Branca, em Alagoas, onde nasceu, o imperador Pedro II pernoitou no casarão da família Torres, residência do Barão de Água Branca, a caminho da cachoeira de Paulo Afonso. Antes de chegar com a mãe ao Recife, o então Zito (apelido de José) passou por Maceió até abrigar-se no sobrado da Rua Dom Bosco, no bairro da Boa Vista, aos 16 anos de idade. Começou a estudar Direito, conseguiu com Miguel Arraes, então secretário da Fazenda de Barbosa Lima Sobrinho, um emprego na Prefeitura do Recife para garantir o sustento da família e mergulhou no mundo da mídia: começou fazendo comentários sobre cinema no Diário de Pernambuco como José de Souza Alencar, passou para o JC para escrever diariamente sobre o mesmo tema como Ralf e terminou produzindo uma coluna social, inspirada na modernidade de Ibrahim Sued, no mesmo JC, como Alex.
O sobrado da Rua Dom Bosco ou a “Casa de Sinhá”, como informa uma placa de cerâmica na entrada, é onde vive e trabalha Alex. As paredes internas não cabem mais quadros de pintores conhecidos e desconhecidos nem obras de arte e antiguidades herdadas e compradas. No seu escritório, uma papelada sem fim, típica de quem escreve, e na mesa uma velha máquina Olivetti, que substitui o computador pessoal ao qual Alex jamais se adaptou. Diariamente um motoqueiro passa, recolhe a coluna e ela é digitada na redação do JC. Cabe-lhe apenas a revisão na tela.
Nesta entrevista a Algomais, Alex conta a sua trajetória pessoal e profissional nesse mais de meio século acompanhando os fatos de parte da sociedade pernambucana.
Algomais | Como foi sua vida em Alagoas?
Alex | Nasci em Água Branca, cidade próxima a Mata Grande e a Iapi, terra de Rosane ex-Collor, feudo dos Maltas. Minha mãe, Filomena ou Sinhá casou com Joaquim Alencar, próspero comerciante de Mata Grande. Por conta da doença da minha avó, mamãe voltou para Água Branca. Meu pai se sentiu abandonado e disse que não daria qualquer ajuda financeira a ela, que passou a depender do meu avô, homem de cultura que me ensinou história, português e passou para mim o gosto pela música e pelas artes. Não tive, por isso nenhuma convivência com meu pai. Só vim a conhecê-lo depois de grande, num encontro muito rápido. Quando minha avó morreu, fomos para Maceió em busca de melhores condições de vida. Um primo que tinha vindo para o Recife conseguiu um bom emprego e chamou nossa família para vir a esta cidade.
Am | E sua chegada ao Recife?
Alex | Cheguei aos 16 anos, pronto para entrar na faculdade. Pensei primeiro em fazer Medicina, mas quando vi os cadáveres no laboratório de Anatomia passei mal e desisti. O curso de Direito veio com a melhor opção de chegar ao jornalismo que já me encantava na época. Com uma carta da família Palmeira, de Alagoas, fui até ao diretor de redação do Diário de Pernambuco, Mauro Mota. Ele perguntou o que eu queria fazer. Disse que poderia escrever sobre cinema, mas o Diário já tinha o crítico Luiz Ayala, então foi me dado um espaço aos domingos. Para escrever gratuitamente em troca de um passe permanente para os cinemas da cidade. Assistia a todos os filmes. O cinema foi uma paixão iniciada ainda na infância, na cabine de um operador de cinema em Maceió. O filme Cinema Paradiso me fez rever o passado.
Am | E como foi para o Jornal do Commercio?
Alex | Falei com Esmaragdo Marroquim, diretor do JC, também a partir de contatos de Alagoas, para escrever uma coluna diária sobre cinema, o grande foco de entretenimento da época. Ele topou. Mas não podia escrever como José de Souza Alencar, que continuava a colaboração no Diário. Então escolhi o pseudônimo Ralf, em homenagem ao ator americano Ralf Belamy. No JC, tive contato com a coluna social de Ibrahim Sued, do jornal O Globo, do Rio. Ele trazia aspectos inovadores no colunismo social, além de festas falava de assuntos gerais, política, economia, esportes, e soltava gracinhas, como sobre a misteriosa Dama de Negro, ou anunciava que cavalo não desce escadas, para alertar inconvenientes, e a caravana passa e os cães ladram, para assegurar sua força no jornal.
Am | Ibrahim Sued então foi o seu modelo?
Alex | Exato. Mas o dono do Jornal do Commercio, doutor F. Pessoa de Queiroz, não era simpático a colunas sociais e não quis fazer de imediato. Para seguir o modelo, criei, com o então radialista Luiz Geraldo, hoje publicitário, um programa de rádio no qual um garçom comentava com o freguês assuntos da sociedade. Depois do sucesso do programa Night Club, doutor Pessoa me deixou fazer a coluna social. Mas recomendou que ela fosse séria e sóbria e que tivesse também notas sobre artes. A coluna começou a circular em 1954. Como já tinha escrito como José de Souza Alencar e Ralf, pensei num novo pseudônimo. A partir do Alencar usei as três primeiras letras e acrescentei um “x”. Surgiu o Alex.
Am | Mais de 50 anos fazendo esse trabalho lhe dá condições de analisar as transformações da chamada alta sociedade?
Alex | Os colunáveis eram em menor número. E as festas se concentravam nos palacetes desses ricos tradicionais. A vida social nos clubes era bem intensa. As mudanças econômicas trouxeram muito mais gente para as colunas. Por obrigação leio as colunas sociais dos três jornais do Recife. E posso dizer que 70% das pessoas citadas são desconhecidas para mim. As grandes festas agora são em bufês, que padronizaram a decoração e a comida, insuportável para paladares refinados. Dos bairros nobres do centro, os ricos foram para Boa Viagem, viram que hoje não é esse paraíso e começaram a veranear em Porto de Galinhas e passar o inverno em Gravatá. Até os cinemas perderam seu glamour. Estão hoje nos shoppings, com salas apertadas e insalubres.
Am | Você inovou, na década de 60, fazendo o hoje chamado colunismo social eletrônico? Muito tempo antes de Amaury Júnior na TV.
Alex | A coluna no JC me abriu portas para ir para a televisão Jornal do Commercio fazer o programa Hora do Coquetel, comentando fatos da cidade e entrevistando celebridades locais e nacionais. Foi onde ganhei um dinheirinho como jornalista, conseguindo anunciantes de peso para o programa. Passava aos domingos, de 17 às 18 horas, ao vivo.
Am | Então você tornou-se uma celebridade local?
Alex | Isso tem um preço. Vi nas ruas do Recife, durante o trote de estudantes calouros da Universidade Federal cartazes me degradando. Diziam que Alex era como uma borboleta dos ônibus da CTU: passava todo mundo. Ou que eu iria visitar a terra de Garrincha: Pau Grande. E ainda que Alex levou uma queda e quebrou a titela. Isso me chocou. Corri ao JC e disse a Esmaragdo Marroquim que não ira mais fazer a coluna social. Ele respondeu que doutor Pessoa também era satirizado pelos estudantes e continuava a trabalhar. Passe à máquina, enfatizou.
Am | Isso foi bem menos do que ser preso durante a ditadura militar?
Alex | De fato. Conhecia o general Castelo Branco (primeiro presidente do período militar de 64 a 84) e sua esposa Argentina do Recife. Sempre tive uma boa relação com a família. Quando ela morreu fiz uma crônica que emocionou o general. Quando ele assumiu a Presidência da República disse que visitaria o Recife em primeiro lugar. Noticiei que depois de anos de viuvez Castelo Branco estava se interessando por uma professora da Universidade Federal. Nota pequena e natural que não ofendia a dignidade do general. Mas o coronel Ibiapina entendeu de averiguar a fonte da notícia e me prendeu. Passei uma noite no quartel e fui liberado com o compromisso de prestar outro depoimento.
Am | E como foi esse segundo depoimento?
Alex | Constrangedor. Ibiapina preparou um documento que me envolvia com soldados das Forças Armadas. Saí do quartel de Casa Forte pensando em morrer. Iria acabar com minha imagem pública. Mas vi minha mãe sofrendo com o caso e amigos meus advogados aconselharam a não se preocupar. Afirmaram que a divulgação de tal documento seria prejudicial aos militares. E fiquei mais calmo.
Am | Chegou a haver algum pedido de desculpas?
Alex | Não diretamente. Mas o general Castelo Branco ligou para minha casa – minha mãe pensou até em outra prisão – se dizendo muito honrado com a minha amizade. E que qualquer coisa que precisasse fosse até Brasília que seria atendido imediatamente. No almoço que homenageava Castelo Branco no Recife encontrei o coronel Ibiapina e disse para ele: fui acordado por um telefonema muito gentil do presidente que se pôs à minha disposição. O coronel ficou sério e eu dei o caso por encerrado.
Am | Riscos do colunismo social?
Alex | Há muito preconceito contra os colunistas sociais. Dizem que somos capachos de ricos, que recebemos dinheiro para colocar notas nos jornais, que todos são gays. Nunca pedi dinheiro a ninguém. Moro na mesma casa há mais de 50 anos, tenho um carro com 9 anos de uso. Tudo que ganhei foi na TV, em Hora do Coquetel, fazendo algumas corretagens de anúncios que me deram uns imóveis para ajudar na minha velhice. Ao contrário, cheguei mesmo a emprestar dinheiro ao Jornal do Commercio, no período de pré-falência com Paulo Pessoa de Queiroz, para pagar o salário semanal da gráfica.
Am | Como foi esse episódio?
Alex | Alguém soube no jornal que eu tinha uma poupança que hoje equivaleria a uns R$ 10 mil. Paulo Pessoa de Queiroz me chamou e propôs trocar o dinheiro da minha poupança pela captação de anúncios para a coluna até que cobrisse com juros o valor emprestado. Isso era para pagar o pessoal de oficina em greve. Topei. Mas foi difícil vender esses anúncios. O jornal quase falido, com circulação baixa, mesmo assim um ano depois a quantia foi reposta.
Am | Na nova fase do Jornal do Commercio, conduzida por João Carlos Paes Mendonça, você pediu para deixar a coluna social de uma página diária?
Alex | Pedi porque não tinha condições físicas de produzir o noticiário. Estava doente, com um câncer na próstata. João Carlos entendeu meu motivo e me propôs um quarto de página.
Am | Oitenta anos ainda no batente do jornalismo. O que é isso?
Alex | É uma graça de Deus chegar a essa idade e continuar escrevendo em jornal. Enquanto tiver forças vou continuar. Hoje não quero muita coisa. Até sexo para mim há muito virou uma coisa virtual. Só olho para as pessoas que interessam e admiro, depois digo comigo mesmo “sai para trás, Satanás. Leva seu veneno”. Estou confiante que nada vai me faltar daqui para frente. Vivo com pessoas de confiança aqui em casa e muito bem.



