14 de novembro de 2009 – 23:26
Artes plásticas: antes e depois de Abelardo - Revista Algomais nº44
Cuidado | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas.
Antonio Magalhães
As casas da Rua do Sossego se parecem. Mas ao entrar na de número 307, o que se vê é uma decoração completamente inusitada. São esculturas em cimento, em bronze, grandes e pequenas, quadros, gravuras, tapetes. É nessa casa que vive desde 1954 o escultor, desenhista, gravador e ceramista Abelardo da Hora, de 85 anos.
Sua obra é extensa e pode ser vista nas ruas do Recife, galerias, residências, museus do país e do Exterior. Recentemente um neto encontrou pela Internet uma peça sua no museu de Praga. Para o pintor José Cláudio, as artes plásticas pernambucanas estão marcadas em dois períodos: antes e depois de Abelardo da Hora. Não é exagero do amigo e ex-pupilo, Abelardo formou gerações e ícones, como Francisco Brennand.
No fim dos anos 40, Abelardo entrou para o Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, chegando a ser, nas proximidades do golpe militar de 1964, Secretário de Agitação e Propaganda. Ele mesmo: um bem humorado artista, baixo e magrinho, tomou conta da mente das comunistas
Casado há 61 anos com Margarida, irmã do ex-prefeito Augusto Lucena, Abelardo é um homem de família. Cultua os filhos e netos. E está interessado em preservar seu trabalho. Criou o Instituto Abelardo da Hora para estimular novos artistas e manter suas obras.
Abelardo conversou com Algomais na casa-galeria.
Algomais| Como foi sua formação artística?
Abelardo da Hora| Foi uma coisa puramente acidental. Pensava em estudar Mecânica. A passagem do Zepellin pelo Recife me fez desejar construir máquinas. Para tanto, optei pelo curso de mecânica do Colégio Industrial (hoje Etepam). O meu irmão Luciano é queria ser escultor. Na hora da matrícula, não tinha mais vagas para Mecânica e terminei inscrito, com meu irmão, em Artes Decorativas. No primeiro ano já me destaquei dos colegas, inclusive do meu irmão. Depois de fazer a escultura de uns violeiros, o professor Álvaro Amorim conseguiu para mim uma bolsa na Escola de Belas Artes do Recife.
AM | E como foi na Escola de Belas Artes?
AH | Fiz o curso de escultura com o professor Cassimiro Correia que também tinha uma empresa construtora de estuques. Paralelo à escola trabalhava como estucador. Tenho trabalhos na maioria dos prédios da Avenida Guararapes e até no Bar Savoy. Umas mãos no teto foram feitas por mim. Mas quando estava no último ano fui eleito para o diretório da escola e decidi levar os colegas para pintar a natureza fora das salas de aula. Numa dessas andanças, fomos ao Engenho São João da Várzea do coronel Ricardo Brennand, pai de Francisco. O coronel chegou no seu Buick para falar com aqueles jovens à beira do açude da sua propriedade. Conversei com ele sobre meu pai que tinha trabalhado no engenho e ele viu meus desenhos, um deles de uma morena bonita, Cremilda, lhe interessou. Na hora, dei de presente. Foi o começo da amizade.
AM | Mas você foi trabalhar com Ricardo Brennand?
AH | No açude mesmo ele me fez o convite para montar uma oficina de cerâmica artística na sua fábrica. Isso foi em outubro. Em janeiro de 1943 ele me chamou para dentro da sua cerâmica. Comecei fazendo jarros com motivos florais e grandes pratos decorativos chamados Salvas. A amizade corria solta. Tinha confiança do coronel a ponto dele pedir para orientar Francisco Brennand que começou a se interessar por cerâmica artística.
AM | Você foi o professor de artes de Francisco Brennand?
AH | Francisco estava se preparando para fazer o curso de Direito e eu transformei sua vida. Toda manhã ele ia para oficina para aprender a manipular o barro. Ricardo me disse que tirei o advogado da família. Mas Francisco sempre levou muito jeito fazendo arte. Sempre foi um grande amigo, além de talentoso. Até hoje ele não nega a minha influência na decisão dele.
AM | Como foi sua convivência com os Brennand?
AH | Muita boa. Ela durou três anos. Dormia num dos quartos da casa com Francisco, Cornélio e Jorge. E as irmãs deles num quarto próximo. Todo dia acordava e via aquela carinha de anjo de uma delas. Não aguentei. Fiz uma escultura - a Torre dos meus Sonhos - com a carinha de anjo da moça Brennand e o homem abraçado nas suas pernas com a minha cara.
AM | Deu problema a escultura?
AH | Ricardo Brennand me chamou. Disse que eu tinha um tratamento especial na família e que me queria como um filho e suas filhas eram como se fossem minhas irmãs. E por isso mesmo eu não era certo botar o olho numa irmã. Entendi o recado. Resolvi deixar a casa no dia seguinte. Brennand ainda me perguntou se eu queria alguma coisa. Respondi que só a amizade da família. E parti.
AM | Foi para onde?
AH | Fui para o Rio de Janeiro. Lá, trabalhei numa fábrica de manequins de lojas. Ao mesmo tempo me encontrava com artistas no bar Vermelhinho, no centro do Rio, quando essa cidade ainda era Capital Federal. Esperava participar do salão anual do Museu Nacional de Artes que dava de prêmio dois anos de estudos artísticos na Europa. Nas conversas com artistas e jornalistas fui me politizando. Eles encheram minha cabeça de política com as críticas ao presidente Dutra. Quando ficou definido que não haveria o salão de artes decidi voltar ao Recife. O Jornal do Brasil registrou a minha decepção em 1946: “Escultor de Pernambuco volta decepcionado com a não realização do Salão do Museu Nacional de Artes”.
AM | De novo no Recife.
AH | Preparei-me para uma grande exposição de esculturas, a primeira do Recife. Enquanto isso me decidia a fundar uma entidade de artistas. Criamos em 1948 a Sociedade de Arte Moderna, uma espécie de atelier coletivo, onde os artistas se preocupavam também com a questão política, denunciando por meio de seus trabalhos as injustiças sociais e a safadeza dos políticos. Nessa época já estava filiado ao Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.
AM | Você não via contradição em ser comunista, num período stalinista da União Soviética, quando os artistas livres eram perseguidos, e estar à frente de um grupo de artistas locais que se propunham a denunciar injustiças e desafiar a autoridade?
AH | Não via contradição. O artista tem que ser sensível às misérias do povo e não viver apenas enfeitando a vida de coisas passageiras. Tem obrigação de denunciar os problemas, como Portinari, Delacroix, artistas que fizeram história. Não é só uma paisagem bonita que emociona ou uma mulher linda. Quando você registra uma verdade nua e crua isso tem uma força muito grande e repercussão dentro de você e na sociedade.
AM | Nessa mesma época Stálin manipulava os artistas.
AH | Sim. Aqui e acolá surgem dirigentes que são realmente prepotentes. Que se acham donos do mundo e sabedores de tudo. Na verdade, todo dirigente tem um pouco disso. Não tenha dúvida que essa é a coisa mais comum no dia-a-dia. O dono da casa é o dono da verdade. O professor, às vezes mesmo errado, se acha dono da verdade. Ao lado disso existem coisas maravilhosas e inesperadas que superam essa questão.
AM | A militância política trouxe dissabores para você?
AH | Como filiado ao Partidão participei de campanhas célebres, como o Petróleo é Nosso, que me levou 30 vezes à cadeia, e outra, contrária a bomba atômica, em defesa da Paz Mundial, arrisquei muito. Escrevi a palavra PAZ na balaustrada da ponte Duarte Coelho, próximo ao prédio da então Secretaria de Segurança Pública. Um amigo me segurava numa corda enquanto pintava. Disse para ele me soltar se viesse a polícia porque sabia nadar. Esse amigo negou-se a pensar nisso: se me soltasse a polícia iria atirar. Dessa aventura escapei livre.
AM | Conviveram bem a Arte e a Política?
AH | Ao lado dos trabalhos com denúncias das injustiças sociais pude perceber uma coisa espetacular: a força da criatividade popular. A percepção do valor da nossa arte popular.
AM | Como foi que você chegou à administração pública?
AH | Na Sociedade de Arte Moderna fizemos um belo trabalho sem qualquer ajuda. O jornalista Otávio Moraes, meu padrinho de casamento, se interessou e levou a questão ao governador Barbosa Lima Sobrinho. Por meio de Barbosa fizemos uma grande exposição na Escola de Engenharia. Miguel Arraes era o secretário da Fazenda e o candidato que seria apoiado pelo Partidão (PCB) ao cargo de prefeito do Recife. Quando foi eleito, me pediu para levar o trabalho da Sociedade à prefeitura para uma ação que planejava de Educação e Cultura. Depois da explanação de Germano Coelho, Arraes disse que esta ação iria se chamar Movimento de Cultura Popular, o MCP, e bateu com a mãozona na mesa.
AM | E aí?
AH | Arraes me nomeou chefe da Divisão de Parques e Jardins. Cuidava das praças, dos cemitérios e era o comandante em chefe da Guarda Municipal. Como chefe da guarda negociei com ambulantes e pacifiquei a cidade. Por conta disso os ambulantes queriam me dar presentes. Recusava tudo. Traziam peixes e outras coisas, fato que levou Arraes a dar grandes risadas.
AM | E como foi a gestão artística na Prefeitura?
AH | Participei das mobilizações do MCP e a pedido da prefeitura produzi esculturas de tipos populares que estão até hoje em praças do Recife. Construí a Galeria de Arte, às margens do rio Capibaribe, centros de artes plásticas e artesanato e cinco praças de Cultura.
AM | Teve também a lei que obrigou as novas edificações terem obras de arte?
AH | A iniciativa foi minha. Com aprovação de Arraes, pedi ao presidente da Câmara Municipal do Recife, Carlos Duarte, para aprovar uma lei que obrigasse os prédios novos a terem obras de arte, uma escultura ou mural. Isso aconteceu no final dos anos 60. No ano seguinte já estava incluída no Código de Obras da cidade.
AM | A política fervilhava?
AH | Claro. No fim do mandato de Arraes na Prefeitura Recife o Partido Comunista articulou o apoio a Pelópidas Silveira, candidato do PSB. O meu cunhado, Augusto Lucena, ia ser nosso candidato a vice na chapa de Pelópidas. Procuramos Lucena e ele disse que tinha passado a semana pensando nessa possibilidade, mas recebeu a visita de João Cleofas, Cid Sampaio e seu irmão, Lael Sampaio, também candidato a prefeito, e foi convidado para ser vice-prefeito nessa chapa. Lucena só pôde mandar um abraço para Arraes e agradecer ao Partido Comunista. Disse na hora: perdemos o vice-prefeito. Naquela época ninguém tomava uma eleição de Lucena, Arraes e Pelópidas. Foram eleitos Pelópidas e o vice Augusto Lucena, da outra chapa.
AM | E Arraes no Governo do Estado dava para você a impressão de um período tranqüilo para o artista Abelardo e para o militante comunista, secretário de Agitação e Propaganda do PCB?
AH | Mas não foi. Quando houve o golpe, a minha proposta como dirigente do PCB foi de pegar o governador do Estado, o prefeito do Recife, o presidente da Assembleia e o da Câmara, juntamente com desembargador presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, ir em comissão ao comandante do 4º Exército para ele dar apoio à legalidade contra o golpe. Pensava numa reação de Pernambuco semelhante a de movimentos do passado. Essa idéia não prosperou E deu no deu.
AM | Pouco antes do golpe militar, os comunistas se sentiram abandonados?
AH | De fato, no 5º congresso nacional do PCB, antes do golpe, foi constatado que tínhamos condições de tomar o poder por meio das eleições. Os militares souberam disso e ficaram revoltados com essa perspectiva. Mas com a proximidade do movimento militar a conversa foi outra. Estávamos eu, Hugo Martins e Gregório Bezerra quando fomos informados pela direção nacional que não havia mais nada a fazer. A ordem foi “salve-se quem puder”. Gregório acusou de ser uma direção partidária de comadres e ameaçou sair do partido. Não houve tempo para isso, nem resistência ao golpe.
AM | Você foi preso?
AH | Logo depois do golpe. Estava na mesma cela com Gregório Bezerra, em Casa Forte. De onde ele foi levado para ser arrastado pelos militares nas ruas do bairro a mando do coronel Viloq. O próximo seria eu. Mas por ser cunhado de Augusto Lucena, já substituindo Pelópidas na Prefeitura do Recife, nada demais aconteceu comigo.
AM | E você foi embora para São Paulo.
AH | Ficando aqui iria magoar meu cunhado responsável pela minha saída prisão. Fui para São Paulo, trabalhei como cenógrafo da TV Tupi e conheci Pietro e Lina Bardi, diretores do Museu de Arte de São Paulo. Os dois se encantaram com meu trabalho e queriam que ficasse por lá. Como iria viver numa cidade onde ninguém tem interesse em ver a lua. O ar de São Paulo era pesado, o frio me incomodava. Passei três anos e na hora de voltar, Bardi fez uma exposição de meus desenhos que vendeu tudo numa noite. Bardi perguntou se isso aconteceria no Recife. Disse ainda que eu não era do Recife, mas sim do mundo. Não houve jeito. Voltei
AM | Voltou direto para o mundo artístico?
AH | Não. Fui trabalhar na empresa de pesca do meu irmão Luciano, o que não deu certo como escultor. Comprava lagosta em Itamaracá para vender no Recife. Cheguei a ter três barcos de pesca. O maior deles era usado na procissão da Buscada de São Gonçalo.
AM | A partir dos anos 70, com os direitos políticos cassados, como trabalhava com arte?
AH | Vivia isolado na Rua do Sossego, onde moro desde 1954. Muitas pessoas deixaram de falar comigo. Trabalhava em casa e vendia muito pouco. De vez em quando me prendiam. A polícia política dizia que algumas manifestações era coisa de Abelardo e lá eu ia preso. Em toda a minha vida já fui preso umas 70 vezes.
AM | As coisas são outras agora. Você é autor da escultura que representa a família do presidente da República no Parque Dona Lindu.
AH | Só conheci o presidente Lula na inauguração do monumento a Dona Lindu, o que chamei de Memorial do Retirante. Disse a Lula que ele era o menor dos filhos na escultura. Ele ficou satisfeito com a obra. Depois João Paulo (ex-prefeito do Recife) contou a minha trajetória artística e política a Lula.
AM | Os governos podem fazer o quê pelas artes?
AH | Acho que poderiam proteger as obras de bom nível. Cadastrariam as obras e as poriam sob sua guarda para evitar o que aconteceu recentemente com as obras de Hélio Oiticica, perdidas num incêndio na casa do irmão.
AM | Francisco Brennand não dá muita atenção ao destino das suas obras depois de prontas. E você?
AH | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas. É lamentável que uma pessoa deixe de comprar um pão para adquirir um spray para pichar uma obra. Deveria ter realmente uma educação nesse sentido.
AM | Qual seu conselho ao jovem artista?
AH | Que faça da sua arte um meio de vida fundamental. Como a alimentação. Ele tem que fazer arte constantemente. Não pode parar, é feito bicicleta, se parar, cai.