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Decreto de Lula passa por cima da Constituição

8 de janeiro de 2010 – 1:57

Vocês pensam que já expus aqui todo o show de horrores do tal decreto que supostamente trata do Programa Nacional de Direitos Humanos? Pois falta ainda explicitar muita coisa. O texto também avança sobre os meios de comunicação. O PT abre, assim, mais uma frente de perseguição à imprensa. Todas aquelas propostas da tal Confecom (Conferência de Comunicação), que resultariam em censura se fossem aplicadas, estão consolidadas também no tal decreto.

Sob a desculpa de defender os direitos humanos — e o totalitarismo sempre tem justificativas humanitárias para se exercer —, institui-se uma verdadeira polícia política para vigiar e punir a “mídia”.  (…)

É o PT se revelando. A partir de agora, ninguém mais poderá alegar inocência. As ditaduras jamais se instauram alegando maus propósitos, é evidente. Até as mais odientas, que servem de modelo de horror, como o nazismo e o stalinismo, vislumbravam um homem ideal, livre. Todas elas sempre falam em nome da PRESERVAÇÃO DE UM BEM e da RESTAURAÇÃO DA VERDADE. E, por óbvio, elegem seus inimigos.

Ora, a quem caberá definir o que e quem “viola” ou não os direitos humanos? Está claro no decreto: são as ditas entidades da sociedade civil, que estão, como todos sabemos, a serviço dos petistas. Como o partido acredita que não se distingue do estado e da sociedade, ele se oferece para ocupar as funções que cabem a ambos. Se a tese prosperasse, viveríamos sob uma censura partidária disfarçada de senso comum e de bom senso.

Eis por que costumo dizer que os nossos “bolivarianos” são bem mais espertos do que os bolivarianos dos outros. Enquanto Hugo Chávez, o delinqüente de Caracas, atua em nome pessoal, chamando para si a responsabilidade dos atos discricionários que ele pretende revolucionários, os petistas preferem apelar ao chamam a “sociedade organizada”, de modo que a vontade do partido se confundam com a vontade coletiva.

Alguns bobinhos poderiam perguntar: “Mas que mal há em punir emissoras de TV, por exemplo, que não respeitem os direitos humanos”? A questão rigorosamente não é esta. O Brasil tem uma Constituição com os princípios gerais que regem o respeito ao “outro” e às diferenças. O que precisa ficar claro é que estão tentando criar uma legislação paralela, pautada pela militância partidária, para monitorar, censurar e punir aqueles atores que essa militância acusa de agredir os direitos humanos. (…)

O governo Lula e o PT explicitaram o jogo. Juste-se o decreto às propostas da tal Confecom, e não há dúvida sobre as pretensões dessa gente: ditadura do partido único, ainda que obedecendo às chamadas “regras de mercado” — eles podem ser autoritários, muitos são totalitários, mas ninguém ali é burro.

O caminho para a realização de seus propósitos pode ser, por que não?, o Congresso Nacional. Caso Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil (pasta que responde pela forma final dos decretos) e candidata do PT à Presidência, vença a disputa, terá início a fase de implantação da “ditadura mitigada”. Seria a chamada “Ditadura Sem-Vergonha”.

(Blog Reinaldo Azevedo/Trechos do post)

A última na Algomais: entrevista com Enilto do Egito

15 de dezembro de 2009 – 23:30

Na minha última participação na equipe da revista Algomais, que ajudei a criar e a dar os primeiros passos, apresento nesta edição de dezembro de 2009, nº45, a entrevista com o médico pernambucano Enilto do Egito. Ele levanta uma questão importantíssima: a contrapartida que o médico formado em universidade pública tem a dar à sociedade. A Faculdade de Medicina de Pernambuco é gratuita e agora a Ciências Médicas, da UPE, também. É um bom momento para discutir essa contrapartida do formando. 

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O bom trato do coração pernambucano

Compensação | Os médicos formados em universidades públicas deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior

Antonio Magalhães

O cardiologista Enilto Sérgio Tabosa do Egito, 59 anos, casado, cinco filhos, pode tanto ser encontrado num consultório do mais importante hospital especializado de São Paulo como na mais desbragada festa de Carnaval do Recife envergando uma fantasia, possivelmente a de Maurício de Nassau, o guru da confraria dos pernambucanos na capital paulista.

O Dr. Enilto do Egito fez a travessia bem sucedida de Timbaúba, na Mata Norte de Pernambuco, onde foi criado, embora nascido na Fazenda Balanço em Macaparana, para o maior centro médico do País, São Paulo. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas, da UPE, em 1974, ele foi naquele mesmo ano para Residência no Hospital da Beneficência Portuguesa com Dr. Adib Jatene e de lá, com o mesmo Jatene, para a chefia da emergência do Hospital do Coração. Lá, construiu uma carreira vitoriosa.

Hoje, Enilto do Egito é referência médica nacional e, principalmente, entre os pernambucanos que vão procurá-lo em São Paulo para tratar dos males do coração. A metafórica coronária saudosa de outros pernambucanos que vivem em São Paulo, como ele, trata com doses exageradas de cultura pernambucana na Confraria Maurício de Nassau, onde é presidente. Um bom remédio para o coração, costuma dizer, é o bom relacionamento com as pessoas.

E ele pratica. Enilto do Egito veio comemorar os 35 anos de formatura com os colegas num resort de Pernambuco. Os velhos amigos. Lá, concedeu esta entrevista a Algomais. Durante a conversa, o médico emocionou-se profundamente duas vezes, travou a fala quando se referiu ao reencontro dos companheiros da primeira viagem a São Paulo e quando enfatizou o orgulho de exercer a profissão. Enfim, um homem ajustado e de bem com a vida.
 
Algomais | Como foi sua trajetória de Timbaúba para São Paulo?

Enilto do Egito | Aos 22 anos candidatei-me a vice-prefeito na chapa de oposição aos Ferreira Lima, uma oligarquia que dominava a cidade há 50 anos. Perdemos por 300 votos, quando na maioria das eleições eles ganhavam com uma diferença de até 10 mil votos. Depois da derrota fui fazer a residência médica em São Paulo e, como o mais velho, proibi meus irmãos de se meterem em política. No mesmo ano de formado, 1974, fui trabalhar com Dr. Adib Jatene, que já fazia pontes de safena. São Paulo só tinha dois centros de cirurgia cardíaca, o do Dr. Adib e o do Dr. Zerbini, o maior especialista da época em transplantes de coração. Fiz um grande relacionamento com Dr. Adib, o que me permitiu fazer uma ponte com os colegas cardiologistas do Recife, tirando dúvidas e resolvendo as broncas que aconteciam por aqui. O que não aconteceria hoje: o Recife é o segundo centro médico do País e um importante centro da América Latina.

AM | Como foi sua adaptação em São Paulo?

EE | Foi um choque ver uma cidade tão grande. Mas morava na residência médica e quase não saia de lá. Era solteiro e não tinha tempo de passear. Só um ano depois, quando fui a show de Luiz Gonzaga, reencontrei velhos companheiros de viagem num velho fusca do Recife a São Paulo. Estavam lá Luciano Siqueira e Wilson Pimentel que não os via desde a chegada. Fiquei emocionado.

AM | A adaptação foi lenta?

EE | A minha atividade me absorvia muito. Não tinha lazer. Quando estava terminando a residência médica foi inaugurado o Hospital do Coração, o HCOR, e fui chamado por Dr. Adib para chefiar a emergência desse hospital. A partir daí, em 1976, fomos subindo juntos. Como o nordestino leva sua cidade dentro dele dentro, continuei ligado a minha terra, participando quando podia de atividades em Timbaúba e mantendo contato com colegas médicos daqui. O Hospital do Coração foi o começo de tudo.

AM | São Paulo concentra 60% de todos os residentes médicos do Brasil. Não é uma grande concentração?

EE | Esse é o grande problema da área médica no Brasil. Nosso país tem hoje 300 mil médicos. Só São Paulo deve abrigar pelo menos 150 mil, a metade deles. É um problema que as autoridades estão se voltando. Para fixar o médico fora dos grandes centros não é só dar um bom salário. Tem que oferecer também condições de trabalho. Ninguém quer ser médico em Altamira, no Pará, onde não há equipamentos fundamentais para um diagnóstico. As autoridades pensam em criar residências médicas no Norte e no Nordeste para fixar os profissionais. Se eles vão para São Paulo, se dão bem, são grandes as chances deles não voltarem aos seus estados. No Recife se sente menos isso, por conta do Polo Médico, mas no Interior há muita carência de médico especialista porque não se cria uma boa estrutura para o ato médico. Muita gente sai para trabalhar por lá e volta para a capital.

AM | Quer dizer então que a Medicina está cada vez mais dependente dos equipamentos de alta tecnologia?

EE | Não tenha dúvida. A figura do médico com um estetoscópio é cada vez mais antiquada. Claro que a clinica médica continua soberana. O contato pessoal do médico com o paciente é muito importante. Mas ele tem que ficar atento, pois precisa de um diagnóstico. Hoje se cobra muito dos médicos o apoio tecnológico. E a tecnologia é cara: um aparelho de ressonância magnética, por exemplo, custa dois, três milhões de Reais que têm que se pagar. Há aí o problema crônico das cidades periféricas: sem a tecnologia não há possibilidade de fixar o médico no Interior.

AM | A saúde pública então fica jogada às traças por falta de verbas para equipamentos de alta tecnologia?

EE | Vou frequentemente a Macaparana, a São Vicente Ferrer, a Timbaúba, e vejo as dificuldades da área de saúde. Normalmente para se fixar no Interior, o médico vai se transformar em político, fazendeiro, ou marido da filha do líder político local. Essa é maneira mais fácil que os colegas encontram para viver fora dos grandes centros. Vale mais o amor à camisa, a sua relação com a cidade, para um profissional trabalhar, por exemplo, em São Vicente Ferrer com poucas condições de infraestrutura na área.

AM | A formação dos médicos é deficiente?

EE | Veja bem, a Faculdade de Medicina ensina o indivíduo a aprender. Hoje para completar a formação são necessários 11 anos de estudo e prática – seis na faculdade, dois na residência médica e três anos de especialização. É uma formação complexa. O funil hoje não o vestibular de Medicina, mas a Residência: são quatro mil vagas para 10 mil médicos que se formam por ano no Brasil.

AM | O Brasil tem suficientes Faculdades de Medicina?

EE | Demais até. São Paulo tem um médico para 500 habitantes, quando o ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, é em torno de um médico para mil habitantes. Pernambuco é um dos estados que mais segurou a criação de novos cursos. Teve durante muito tempo duas faculdades de Medicina e agora chegou uma terceira. Já o Amapá tem quatro faculdades, vai ver que duas são do (senador) Sarney. São faculdades sem condições de formar médicos e que não contam sequer com um hospital. Uma faculdade de Medicina não é uma Escola Superior de Direito, onde o cara estuda no livro. Ela tem que ter a prática e para isso precisa de um hospital. Dr. Adib Jatene que comanda hoje o Conselho Nacional de Residência Médica tem brigado muito contra isso e vai fechar muita faculdade por aí.
AM | Então a maior queixa não é pela falta de médicos, mas pela centralização deles em determinada região?

EE | Certamente. Há uma revoada para os grandes centros. Em São Paulo não cabe mais. Todo ano vão centenas de médicos nordestinos e nortistas fazerem a Residência em São Paulo. O estado que gastou na formação dos profissionais vai vê-los trabalhando para outro estado.

AM | Os formandos das faculdades públicas não deviam ter compromisso com o estado que possibilitou sua formação?

EE | É o caminho certo. Não há outra saída. Deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior. E essa opção está se definindo.

AM | Recife é o hoje um centro médico de excelência. E como era antes?

EE | Quando saí do Recife existiam duas faculdades – a Ciências Médica e a Federal. Mas tinham grande médicos, como Luís Tavares. que trouxe muita tecnologia para cá. Mas não tinham pessoas, por exemplo, formadas para cirurgias cardíacas. Era uma coisa muito nova. As cirurgias de ponte de safena completaram 50 anos agora. Eu estou em São Paulo há 35 anos. Embora hoje o Recife tenha uma estrutura muito boa, não dá mais para voltar. Tenho outras atividades extracurriculares. Sou diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e muita coisa me prende em São Paulo.

AM | Para o jovem médico o Recife é bom centro formador?

EE | Sem dúvida. Ele pode tranquilamente escolher o Recife para praticar sua atividade. Ir para São Paulo só para estágios específicos, assim como se vai para Inglaterra ou Estados Unidos. E não, como já foi no passado, o único centro avançado para exercer a profissão.

AM | Mas sua experiência paulista foi bem positiva?

EE | De fato. Conheci no Hospital do Coração minha mulher, que é pernambucana e médica. Foi uma adaptação bem mais fácil porque tive logo o reconhecimento profissional e a sobrevivência garantida pelo emprego no hospital. O médico que tem que lutar pela sobrevivência tem mais dificuldades que podem prejudicar seu desempenho. Por outro lado, para suprir a carência afetiva ou saudade da nossa terra criamos há mais de 20 anos a Confraria Maurício de Nassau, que congrega pernambucanos.
 
AM | Têm muitos pernambucanos como você na Confraria Maurício de Nassau de São Paulo?

EE | Têm muitos médicos. E já houve mais. Alguns estão voltando. Quando o Banorte existia tinha mais gente de vários setores profissionais que participava da confraria. Depois que foi vendido ficou um grupo grande de médicos. Aí demos uma diminuída porque tinha virado um congresso. Não era mais uma confraria.

AM | O que é a confraria?

EE | É um ponto de encontro para conversas, discussões sobre a cultura pernambucana, apresentações de artistas, com jantares mensais, onde se é possível saber o que a nossa gente está fazendo em São Paulo. Fazemos festa de Carnaval, São João, mantemos nossas tradições e hábitos. Temos até um boneco de Maurício de Nassau feito pelo bonequeiro de Olinda Sílvio Botelho. Nas comemorações dos 350 anos da vinda de Nassau ao Recife quiseram trazê-lo, mas ninguém queria se responsabilizar por ele. Não deixei.

AM | Quer dizer que o pernambucano se mantém igual fora de casa?

EE | Não perde nem o sotaque. Eu cheguei em 74 e aonde chego o cabra sabe de onde sou pelo sotaque. Ser de Pernambuco sempre foi um estimulo para nós. Cobram de você uma posição mais ética. E assim deve ser: você traz o Estado, tem uma obrigação. É uma coisa muito interessante.

AM | Os pernambucanos lhe procuram muito em São Paulo?

EE | Tenho grandes amigos. Cada paciente termina um amigo. Tem dias que atendo até seis, sete pernambucanos. Cuido do coração e dou referências de outras especialidades. Inclusive para parte social do Hospital do Coração que atende os carentes de qualquer parte do País.

AM | Como está o coração do brasileiro?

EE | O coração do brasileiro se compara aos corações do Primeiro Mundo ocidental. A quantidade de mortes aqui é igual a dos Estados Unidos. Perdemos 350 mil, 400 mil pacientes por ano por doenças cardíacas. Na fase mais produtiva e na meia idade. Por isso que se gasta tanto em Cardiologia porque pega o indivíduo na fase ascendente. Uma das causas que mais contribuem é o estresse. O que reduz o estresse é o que estou fazendo em Pernambuco, recarregando as baterias, revendo os amigos, como a confraria faz.

AM | O fim do sedentarismo e mais exercícios ajudam também?

EE | Do ponto de vista médico são corretos. Em Timbaúba a gente comia fígado, sarapatel, mas andava muito. Meu avô andava seis quilômetros para fazer qualquer coisa. As pessoas se exercitavam muito. Hoje não se mexe nem na alavanca para baixar o vidro do carro. É tudo botão, controle remoto. As pessoas estão cada vez mais sedentárias. A comida é fast food, pizza, hábitos alimentares errados.

AM | Hoje as cirurgias cardíacas não preocupam?

EE | Atualmente a mortalidade em cirurgia cardíaca é menos de um por cento. É uma rotina com poucos acidentes porque temos um check list. O cirurgião já sabe o que vai fazer com toda segurança. O stent, uma molinha que é colocada por um cateter dentro da coronária esmaga a placa de gordura como se fosse um minúsculo bob de cabelo. A grande noticia é que o hoje o stent é usado em 70% dos pacientes que eu abriria seu peito há 20 anos. Além do mais, a parte clinica melhorou muito. Quatro remédios que salvam vidas hoje: a Estatina contra o colesterol, a Aspirina, que afina o sangue, os inibidores de enzimas que protegem as artérias, e o beta bloqueador. Eles mudaram a história da mortalidade nessa área. Hoje, com remédio, o fim do cigarro, exercícios regulares, boa comida e bons relacionamentos, a história de um possível futuro enfartado é outra.

AM | Mas você tem maltratado seu coração torcendo pelo Santa Cruz? Inclusive por ser conselheiro do time?

EE | Time de futebol você não escolhe. É escolhido por ele. Você troca de mulher, mas não de time. Parece masoquismo. Mas sou tricolor desde criança e vejo com muita tristeza esse momento do Santa. É um time fora de série, não tem mais série para ele jogar, diz a piada. Mas isso passa isso e ele vai se erguer novamente para nos dar muito orgulho. Mesmo do jeito que está o Santa não me faz mal. Pelo contrário, só me dá alegria.

AM | Qual o conselho você daria para um jovem estudante de Medicina?

EE | Essa é uma profissão de sacrifício. É uma maneira de ajudar o próximo. Caso não pense assim, está na profissão errada. Vá ser comerciante, qualquer coisa. Por aí se diz que não tem médico pobre. É uma verdade desde que não seja preguiçoso. Porque, embora existam 300 mil médicos, há um mercado que necessita de profissionais. Alguns hoje cumprem uma tripla jornada de trabalho. Há espaço para os novos. Sinto muito orgulho de ser médico. Vivo o sonho que sonhei, ajudando as pessoas. Ser médico é ter que trabalhar e estudar muito. E também se inteirar com o que existe em volta, melhorar como ser humano para ser mais útil a si próprio e aos pacientes. Aconselho sempre que se mirem nos seus professores.

Sudene lembrada na Assembléia Legislativa

15 de dezembro de 2009 – 23:18

Os benefícios para o Nordeste ao longo de 50 anos de fundação da Sudene, registrados nesta terça,15, foram analisados pelos deputados José Alves, do PRP, Izaías Régis, do PTB, e Elina Carneiro, do PSB.

Alves classificou como falhas pontuais os motivos responsáveis pela extinção da autarquia, em 2001, e afirmou que não houve envolvimento de servidores no caso. O deputado ainda defendeu uma mobilização no Nordeste para oferecer melhores condições de funcionamento ao órgão, recriado em 2007.

Já na avaliação de Izaías Régis, a Sudene foi fundamental para a modernização da região nordestina. O parlamentar também lembrou a história do município de Garanhuns com o órgão, por meio da realização, em 1959, do Seminário para o Desenvolvimento do Nordeste. O deputado também informou que a autarquia foi recriada pelo presidente Lula.

De acordo com Elina Carneiro, a Sudene promoveu melhorias no Nordeste nas áreas industrial, de infraestrutura turística, entre outros setores. A deputada criticou a desvinculação do órgão da Presidência da República, e também defendeu uma mobilização envolvendo o superintendente da autarquia, Paulo Fontana, e o Governo Federal, para encontrar uma solução à questão dos vetos e dos recursos a serem aplicados. 
 
 (Do site da Assembléia Legislativa de Pernambuco)

Nem choro, nem vela nos 50 anos da Sudene

15 de dezembro de 2009 – 23:12

Neste 15 de dezembro, a SUDENE, Superintendência do Nordeste, completou 50 anos. Foi feita, por JK; desfeita, por FHC; e mal refeita, por Lula. E agora é um fantasma nordestino que se arrasta sem verbas, projetos e influência. Muito a lamentar.

A sua criação em 1959 foi um momento histórico para o Nordeste, quando o presidente Juscelino Kubitstchek fez exortações pelo desenvolvimento harmônico do País. Foi um período de mobilização regional que transformou a autarquia, ligada diretamente à Presidência da República, numa verdadeira alavanca do crescimento do Nordeste.

Esvaziada no regime militar, extinta por FHC por conta de denúncias de corrupção e recriada no segundo mandato de Lula - depois de prometer recriá-la no primeiro -, a SUDENE tem agora pouca serventia para o momento econômico da região.

Aos 50 anos, a autarquia está na UTI com poucos sinais vitais. Jamais voltará a ser o que era.

Aquecimento global é manipulação de dados

14 de dezembro de 2009 – 0:37

Com 40 anos de experiência em estudos do clima no planeta, o meteorologista da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion apresenta ao mundo o discurso inverso ao apresentado pela maioria dos climatologistas. Representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global. Ele também diz que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante: a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos

Em entrevista ao UOL, Molion foi irônico ao ser questionado sobre uma possível ida a Copenhague: “perder meu tempo?” Segundo ele, somente o Brasil, dentre os países emergentes, dá importância à conferência da ONU. O metereologista defende que a discussão deixou de ser científica para se tornar política e econômica, e que as potências mundiais estariam preocupadas em frear a evolução dos países em desenvolvimento.

Molion também falou neste domingo, 13, para o Canal Livre da TV Bandeirantes, TV Clube no Recife. O trecho da entrevista à UOL sintetiza bem o que ele falou na TV. E colabora para por fim a esta histeria do aquecimento global.

UOL: Se há tantos dados técnicos, por que essa discussão de aquecimento global? Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados?

Molion: Essa é a grande dúvida. Na verdade, o aquecimento não é mais um assunto científico, embora alguns cientistas se engajem nisso. Ele passou a ser uma plataforma política e econômica. Da maneira como vejo, reduzir as emissões é reduzir a geração da energia elétrica, que é a base do desenvolvimento em qualquer lugar do mundo. Como existem países que têm a sua matriz calcada nos combustíveis fósseis, não há como diminuir a geração de energia elétrica sem reduzir a produção.

UOL: Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?

Molion: O efeito maior seria aos países em desenvolvimento, certamente. Os desenvolvidos já têm uma estabilidade e podem reduzir marginalmente, por exemplo, melhorando o consumo dos aparelhos elétricos. Mas o aumento populacional vai exigir maior consumo. Se minha visão estiver correta, os paises fora dos trópicos vão sofrer um resfriamento global. E vão ter que consumir mais energia para não morrer de frio. E isso atinge todos os países desenvolvidos.

UOL: O senhor, então, contesta qualquer influência do homem na mudança de temperatura da Terra?

Molion: Os fluxos naturais dos oceanos, polos, vulcões e vegetação somam 200 bilhões de emissões por ano. A incerteza que temos desse número é de 40 bilhões para cima ou para baixo. O homem coloca apenas 6 bilhões, portanto a emissões humanas representam 3%. Se nessa conferência conseguirem reduzir a emissão pela metade, o que são 3 bilhões de toneladas em meio a 200 bilhões?Não vai mudar absolutamente nada no clima.

UOL: O senhor defende, então, que o Brasil não deveria assinar esse novo protocolo?

Molion: Dos quatro do bloco do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é o único que aceita as coisas, que “abana o rabo” para essas questões. A Rússia não está nem aí, a China vai assinar por aparência. No Brasil, a maior parte das nossas emissões vem da queimadas, que significa a destruição das florestas. Tomara que nessa conferência saia alguma coisa boa para reduzir a destruição das florestas.

UOL: Mas a redução de emissões não traria nenhum benefício à humanidade?

Molion: A mídia coloca o CO2 como vilão, como um poluente, e não é. Ele é o gás da vida. Está provado que quando você dobra o CO2, a produção das plantas aumenta. Eu concordo que combustíveis fósseis sejam poluentes. Mas não por conta do CO2, e sim por causa dos outros constituintes, como o enxofre, por exemplo. Quando liberado, ele se combina com a umidade do ar e se transforma em gotícula de ácido sulfúrico e as pessoas inalam isso. Aí vêm os problemas pulmonares.

UOL: Se não há mecanismos capazes de medir a temperatura média da Terra, como o senhor prova que a temperatura está baixando?

Molion: A gente vê o resfriamento com invernos mais frios, geadas mais fortes, tardias e antecipadas. Veja o que aconteceu este ano no Canadá. Eles plantaram em abril, como sempre, e em 10 de junho houve uma geada severa que matou tudo e eles tiveram que replantar. Mas era fim da primavera, inicio de verão, e deveria ser quente. O Brasil sofre a mesma coisa. Em 1947, última vez que passamos por uma situação dessas, a frequência de geadas foi tão grande que acabou com a plantação de café no Paraná.

UOL: E quanto ao derretimento das geleiras?

Molion: Essa afirmação é fantasiosa. Na realidade, o que derrete é o gelo flutuante. E ele não aumenta o nível do mar.

UOL: Mas o mar não está avançando?

Molion: Não está. Há uma foto feita por desbravadores da Austrália em 1841 de uma marca onde estava o nível do mar, e hoje ela está no mesmo nível. Existem os lugares onde o mar avança e outros onde ele retrocede, mas não tem relação com a temperatura global.

UOL: O senhor viu algum avanço com o Protocolo de  Kyoto?

Molion: Nenhum. Entre 2002 e 2008, se propunham a reduzir em 5,2% as emissões e até agora as emissões continuam aumentando. Na Europa não houve redução nenhuma. Virou discursos de políticos que querem ser amigos do ambiente e ao mesmo tempo fazer crer que países subdesenvolvidos ou emergentes vão contribuir com um aquecimento. Considero como uma atitude neocolonialista.

UOL: O que a convenção de Copenhague poderia discutir de útil para o meio ambiente?

Molion: Certamente não seriam as emissões. Carbono não controla o clima. O que poderia ser discutido seria: melhorar as condições de prever os eventos, como grandes tempestades, furacões, secas; e buscar produzir adaptações do ser humano a isso, como produções de plantas que se adaptassem ao sertão nordestino, como menor necessidade de água. E com isso, reduzir as desigualdades sociais do mundo.

UOL: O senhor se sente uma voz solitária nesse discurso contra o aquecimento global?

Molion: Aqui no Brasil há algumas, e é crescente o número de pessoas contra o aquecimento global. O que posso dizer é que sou pioneiro. Um problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceitos para publicação. E eles [governos] estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa.

PDVSA está lisa. Refinaria vai ser da Petrobrás

5 de dezembro de 2009 – 1:38

Saiu de forma tão discreta na imprensa local que vale destacar: a Petroleo de Venezuela SA (PDVSA) está lisa. Pediu para ser incluída no contrato de financiamento da Petrobrás junto ao BNDES, no valor R$ 9,8 bilhões, para a refinaria Abreu e Lima, em Suape. A PDVSA terá que apresentar garantias de 40% do valor, a sua parte no negócio.

Com o liseu venezuelano e a fama de mau pagador de Hugo Chávez, logo os cobradores do BNDES - se Lula não perdoar a dívida - estarão à porta do Palácio Miraflores, em Caracas. A Petrobrás vai terminar assumindo tudo, pelo menos é o que pensa o diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa: ” desde o início já havíamos dito que a refinaria é prioridade e que iríamos fazer os investimentos mesmo sem a PDVSA”.

Diga não à usina nuclear em Pernambuco

5 de dezembro de 2009 – 1:25

A possibilidade de instalação de usina nuclear em Pernambuco, vetada pela Constituição Estadual (art.216), voltou a debate no blog de Jamildo. O executivo da estatal nuclear encontrou ilegalidade no artigo constitucional, talvez por sua sabedoria jurídica, e disse que esse instrumento legal não seria problema para construir a usina no Estado. Ele não perguntou nem a sociedade e nem consultou o Legislativo Estadual. Diz que quer fazer e vai fazer.

O executivo da estatal banaliza também a questão do lixo nuclear e as possibilidades de acidentes, vide Chernobyl, na Rússia, e Three Miles Island, nos Estados Unidos, vítimas de acidentes nucleares de grande monta.

Os pernambucanos querem discutir em audiências públicas o risco de uma usinas nuclear no nosso território. A Constituição pernambucana foi aprovada há 20 anos. O governador da época era Miguel Arraes, avô Eduardo Campos. O atual governador não pode trair o desejo do avô e líder político.

CPI revela favorecimento da Aneel a Neoenergia, dona da Celpe

5 de dezembro de 2009 – 1:12

O relatório final da CPI da Tarifa de Energia Elétrica da Câmara Federal, que teve umas das audiências públicas no Recife, traz coisas impressionantes sobre a relação incestuosa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) com as distribuidoras de energia. Sob o comando do deputado pernambucano Eduardo da Fonte (PP), a CPI trouxe acusações pesadas, com fortes indícios de que diretores e outros funcionários do comando da agência usavam os cargos para favorecer empresas que deveriam fiscalizar, de acordo com o jornal O Estado de S.Paulo (30/11/09).

A imprensa local omitiu tais acusações. E não há muito interesse que o tema prospere. Além de boa anunciante, a Celpe (Companhia Energética de Pernambuco), é uma das grandes contribuintes do ICMS do Estado.

Segundo o Estadão, na parte referente a Pernambuco, o ex-diretor-geral da Aneel, José Maria Abdo, e outros dois colegas são citados como suspeitos do suposto favorecimento a empresa da Neoenergia. Eles autorizaram a empresa repassar quase R$ 300 milhões à tarifa cobrada dos consumidores em Pernambuco. Pouco depois, quando Abdo e os colegas deixaram a Aneel, montaram uma consultoria e foram trabalhar para a Neoenergia.

O Partido dos Trabalhadores (PT) também não fala grosso com a Neoenergia. O Fundo de Pensão do Banco do Brasil, Previ, controlado por petistas, é um grande acionista da Neoenergia.

Abelardo da Hora só conheceu o filho de Dona Lindu quando inaugurou a escultura da família Lula da Silva

14 de novembro de 2009 – 23:26

Artes plásticas: antes e depois de Abelardo - Revista Algomais nº44

Cuidado | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas.

Antonio Magalhães

As casas da Rua do Sossego se parecem. Mas ao entrar na de número 307, o que se vê é uma decoração completamente inusitada. São esculturas em cimento, em bronze, grandes e pequenas, quadros, gravuras, tapetes. É nessa casa que vive desde 1954 o escultor, desenhista, gravador e ceramista Abelardo da Hora, de 85 anos.

Sua obra é extensa e pode ser vista nas ruas do Recife, galerias, residências, museus do país e do Exterior. Recentemente um neto encontrou pela Internet uma peça sua no museu de Praga. Para o pintor José Cláudio, as artes plásticas pernambucanas estão marcadas em dois períodos: antes e depois de Abelardo da Hora. Não é exagero do amigo e ex-pupilo, Abelardo formou gerações e ícones, como Francisco Brennand.

No fim dos anos 40, Abelardo entrou para o Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, chegando a ser, nas proximidades do golpe militar de 1964, Secretário de Agitação e Propaganda. Ele mesmo: um bem humorado artista, baixo e magrinho, tomou conta da mente das comunistas

Casado há 61 anos com Margarida, irmã do ex-prefeito Augusto Lucena, Abelardo é um homem de família. Cultua os filhos e netos. E está interessado em preservar seu trabalho. Criou o Instituto Abelardo da Hora para estimular novos artistas e manter suas obras.

Abelardo conversou com Algomais na casa-galeria.

Algomais| Como foi sua formação artística?

Abelardo da Hora| Foi uma coisa puramente acidental. Pensava em estudar Mecânica. A passagem do Zepellin pelo Recife me fez desejar construir máquinas. Para tanto, optei pelo curso de mecânica do Colégio Industrial (hoje Etepam). O meu irmão Luciano é queria ser escultor. Na hora da matrícula, não tinha mais vagas para Mecânica e terminei inscrito, com meu irmão, em Artes Decorativas. No primeiro ano já me destaquei dos colegas, inclusive do meu irmão. Depois de fazer a escultura de uns violeiros, o professor Álvaro Amorim conseguiu para mim uma bolsa na Escola de Belas Artes do Recife.

AM | E como foi na Escola de Belas Artes?

AH | Fiz o curso de escultura com o professor Cassimiro Correia que também tinha uma empresa construtora de estuques. Paralelo à escola trabalhava como estucador. Tenho trabalhos na maioria dos prédios da Avenida Guararapes e até no Bar Savoy. Umas mãos no teto foram feitas por mim. Mas quando estava no último ano fui eleito para o diretório da escola e decidi levar os colegas para pintar a natureza fora das salas de aula. Numa dessas andanças, fomos ao Engenho São João da Várzea do coronel Ricardo Brennand, pai de Francisco. O coronel chegou no seu Buick para falar com aqueles jovens à beira do açude da sua propriedade. Conversei com ele sobre meu pai que tinha trabalhado no engenho e ele viu meus desenhos, um deles de uma morena bonita, Cremilda, lhe interessou. Na hora, dei de presente. Foi o começo da amizade.

AM | Mas você foi trabalhar com Ricardo Brennand?

AH | No açude mesmo ele me fez o convite para montar uma oficina de cerâmica artística na sua fábrica. Isso foi em outubro. Em janeiro de 1943 ele me chamou para dentro da sua cerâmica. Comecei fazendo jarros com motivos florais e grandes pratos decorativos chamados Salvas. A amizade corria solta. Tinha confiança do coronel a ponto dele pedir para orientar Francisco Brennand que começou a se interessar por cerâmica artística.

AM | Você foi o professor de artes de Francisco Brennand?

AH | Francisco estava se preparando para fazer o curso de Direito e eu transformei sua vida. Toda manhã ele ia para oficina para aprender a manipular o barro. Ricardo me disse que tirei o advogado da família. Mas Francisco sempre levou muito jeito fazendo arte. Sempre foi um grande amigo, além de talentoso. Até hoje ele não nega a minha influência na decisão dele. 

AM | Como foi sua convivência com os Brennand?

AH | Muita boa. Ela durou três anos. Dormia num dos quartos da casa com Francisco, Cornélio e Jorge. E as irmãs deles num quarto próximo. Todo dia acordava e via aquela carinha de anjo de uma delas. Não aguentei. Fiz uma escultura - a Torre dos meus Sonhos - com a carinha de anjo da moça Brennand e o homem abraçado nas suas pernas com a minha cara.

AM | Deu problema a escultura?

AH | Ricardo Brennand me chamou. Disse que eu tinha um tratamento especial na família e que me queria como um filho e suas filhas eram como se fossem minhas irmãs. E por isso mesmo eu não era certo botar o olho numa irmã. Entendi o recado. Resolvi deixar a casa no dia seguinte. Brennand ainda me perguntou se eu queria alguma coisa. Respondi que só a amizade da família. E parti.

AM | Foi para onde?

AH | Fui para o Rio de Janeiro. Lá, trabalhei numa fábrica de manequins de lojas. Ao mesmo tempo me encontrava com artistas no bar Vermelhinho, no centro do Rio, quando essa cidade ainda era Capital Federal. Esperava participar do salão anual do Museu Nacional de Artes que dava de prêmio dois anos de estudos artísticos na Europa. Nas conversas com artistas e jornalistas fui me politizando. Eles encheram minha cabeça de política com as críticas ao presidente Dutra. Quando ficou definido que não haveria o salão de artes decidi voltar ao Recife. O Jornal do Brasil registrou a minha decepção em 1946: “Escultor de Pernambuco volta decepcionado com a não realização do Salão do Museu Nacional de Artes”.

AM | De novo no Recife.

AH | Preparei-me para uma grande exposição de esculturas, a primeira do Recife. Enquanto isso me decidia a fundar uma entidade de artistas. Criamos em 1948 a Sociedade de Arte Moderna, uma espécie de atelier coletivo, onde os artistas se preocupavam também com a questão política, denunciando por meio de seus trabalhos as injustiças sociais e a safadeza dos políticos. Nessa época já estava filiado ao Partido Comunista Brasileiro, o Partidão.

AM | Você não via contradição em ser comunista, num período stalinista da União Soviética, quando os artistas livres eram perseguidos, e estar à frente de um grupo de artistas locais que se propunham a denunciar injustiças e desafiar a autoridade?

AH | Não via contradição. O artista tem que ser sensível às misérias do povo e não viver apenas enfeitando a vida de coisas passageiras. Tem obrigação de denunciar os problemas, como Portinari, Delacroix, artistas que fizeram história. Não é só uma paisagem bonita que emociona ou uma mulher linda. Quando você registra uma verdade nua e crua isso tem uma força muito grande e repercussão dentro de você e na sociedade.

AM | Nessa mesma época Stálin manipulava os artistas.

AH | Sim. Aqui e acolá surgem dirigentes que são realmente prepotentes. Que se acham donos do mundo e sabedores de tudo. Na verdade, todo dirigente tem um pouco disso. Não tenha dúvida que essa é a coisa mais comum no dia-a-dia. O dono da casa é o dono da verdade. O professor, às vezes mesmo errado, se acha dono da verdade. Ao lado disso existem coisas maravilhosas e inesperadas que superam essa questão.

AM | A militância política trouxe dissabores para você?

AH | Como filiado ao Partidão participei de campanhas célebres, como o Petróleo é Nosso, que me levou 30 vezes à cadeia, e outra, contrária a bomba atômica, em defesa da Paz Mundial, arrisquei muito. Escrevi a palavra PAZ na balaustrada da ponte Duarte Coelho, próximo ao prédio da então Secretaria de Segurança Pública. Um amigo me segurava numa corda enquanto pintava. Disse para ele me soltar se viesse a polícia porque sabia nadar. Esse amigo negou-se a pensar nisso: se me soltasse a polícia iria atirar. Dessa aventura escapei livre.

AM | Conviveram bem a Arte e a Política?

AH | Ao lado dos trabalhos com denúncias das injustiças sociais pude perceber uma coisa espetacular: a força da criatividade popular. A percepção do valor da nossa arte popular.

AM | Como foi que você chegou à administração pública?

AH | Na Sociedade de Arte Moderna fizemos um belo trabalho sem qualquer ajuda. O jornalista Otávio Moraes, meu padrinho de casamento, se interessou e levou a questão ao governador Barbosa Lima Sobrinho. Por meio de Barbosa fizemos uma grande exposição na Escola de Engenharia. Miguel Arraes era o secretário da Fazenda e o candidato que seria apoiado pelo Partidão (PCB) ao cargo de prefeito do Recife. Quando foi eleito, me pediu para levar o trabalho da Sociedade à prefeitura para uma ação que planejava de Educação e Cultura. Depois da explanação de Germano Coelho, Arraes disse que esta ação iria se chamar Movimento de Cultura Popular, o MCP, e bateu com a mãozona na mesa.

AM | E aí?

AH | Arraes me nomeou chefe da Divisão de Parques e Jardins. Cuidava das praças, dos cemitérios e era o comandante em chefe da Guarda Municipal. Como chefe da guarda negociei com ambulantes e pacifiquei a cidade. Por conta disso os ambulantes queriam me dar presentes. Recusava tudo. Traziam peixes e outras coisas, fato que levou Arraes a dar grandes risadas.

AM | E como foi a gestão artística na Prefeitura?

AH | Participei das mobilizações do MCP e a pedido da prefeitura produzi esculturas de tipos populares que estão até hoje em praças do Recife. Construí a Galeria de Arte, às margens do rio Capibaribe, centros de artes plásticas e artesanato e cinco praças de Cultura.

AM | Teve também a lei que obrigou as novas edificações terem obras de arte?

AH | A iniciativa foi minha. Com aprovação de Arraes, pedi ao presidente da Câmara Municipal do Recife, Carlos Duarte, para aprovar uma lei que obrigasse os prédios novos a terem obras de arte, uma escultura ou mural. Isso aconteceu no final dos anos 60. No ano seguinte já estava incluída no Código de Obras da cidade.

AM | A política fervilhava?

AH | Claro. No fim do mandato de Arraes na Prefeitura Recife o Partido Comunista articulou o apoio a Pelópidas Silveira, candidato do PSB. O meu cunhado, Augusto Lucena, ia ser nosso candidato a vice na chapa de Pelópidas. Procuramos Lucena e ele disse que tinha passado a semana pensando nessa possibilidade, mas recebeu a visita de João Cleofas, Cid Sampaio e seu irmão, Lael Sampaio, também candidato a prefeito, e foi convidado para ser vice-prefeito nessa chapa. Lucena só pôde mandar um abraço para Arraes e agradecer ao Partido Comunista. Disse na hora: perdemos o vice-prefeito. Naquela época ninguém tomava uma eleição de Lucena, Arraes e Pelópidas. Foram eleitos Pelópidas e o vice Augusto Lucena, da outra chapa.

AM | E Arraes no Governo do Estado dava para você a impressão de um período tranqüilo para o artista Abelardo e para o militante comunista, secretário de Agitação e Propaganda do PCB?

AH | Mas não foi. Quando houve o golpe, a minha proposta como dirigente do PCB foi de pegar o governador do Estado, o prefeito do Recife, o presidente da Assembleia e o da Câmara, juntamente com desembargador presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, ir em comissão ao comandante do 4º Exército para ele dar apoio à legalidade contra o golpe. Pensava numa reação de Pernambuco semelhante a de movimentos do passado. Essa idéia não prosperou E deu no deu.

AM | Pouco antes do golpe militar, os comunistas se sentiram abandonados?

AH | De fato, no 5º congresso nacional do PCB, antes do golpe, foi constatado que tínhamos condições de tomar o poder por meio das eleições. Os militares souberam disso e ficaram revoltados com essa perspectiva. Mas com a proximidade do movimento militar a conversa foi outra. Estávamos eu, Hugo Martins e Gregório Bezerra quando fomos informados pela direção nacional que não havia mais nada a fazer. A ordem foi “salve-se quem puder”. Gregório acusou de ser uma direção partidária de comadres e ameaçou sair do partido. Não houve tempo para isso, nem resistência ao golpe.

AM | Você foi preso?

AH | Logo depois do golpe. Estava na mesma cela com Gregório Bezerra, em Casa Forte. De onde ele foi levado para ser arrastado pelos militares nas ruas do bairro a mando do coronel Viloq. O próximo seria eu. Mas por ser cunhado de Augusto Lucena, já substituindo Pelópidas na Prefeitura do Recife, nada demais aconteceu comigo.

AM | E você foi embora para São Paulo.

AH | Ficando aqui iria magoar meu cunhado responsável pela minha saída prisão. Fui para São Paulo, trabalhei como cenógrafo da TV Tupi e conheci Pietro e Lina Bardi, diretores do Museu de Arte de São Paulo. Os dois se encantaram com meu trabalho e queriam que ficasse por lá. Como iria viver numa cidade onde ninguém tem interesse em ver a lua. O ar de São Paulo era pesado, o frio me incomodava. Passei três anos e na hora de voltar, Bardi fez uma exposição de meus desenhos que vendeu tudo numa noite. Bardi perguntou se isso aconteceria no Recife. Disse ainda que eu não era do Recife, mas sim do mundo. Não houve jeito. Voltei

AM | Voltou direto para o mundo artístico?

AH | Não. Fui trabalhar na empresa de pesca do meu irmão Luciano, o que não deu certo como escultor. Comprava lagosta em Itamaracá para vender no Recife. Cheguei a ter três barcos de pesca. O maior deles era usado na procissão da Buscada de São Gonçalo.

AM | A partir dos anos 70, com os direitos políticos cassados, como trabalhava com arte?

AH | Vivia isolado na Rua do Sossego, onde moro desde 1954. Muitas pessoas deixaram de falar comigo. Trabalhava em casa e vendia muito pouco. De vez em quando me prendiam. A polícia política dizia que algumas manifestações era coisa de Abelardo e lá eu ia preso. Em toda a minha vida já fui preso umas 70 vezes.

AM | As coisas são outras agora. Você é autor da escultura que representa a família do presidente da República no Parque Dona Lindu.

AH | Só conheci o presidente Lula na inauguração do monumento a Dona Lindu, o que chamei de Memorial do Retirante. Disse a Lula que ele era o menor dos filhos na escultura. Ele ficou satisfeito com a obra. Depois João Paulo (ex-prefeito do Recife) contou a minha trajetória artística e política a Lula.

AM | Os governos podem fazer o quê pelas artes?

AH | Acho que poderiam proteger as obras de bom nível. Cadastrariam as obras e as poriam sob sua guarda para evitar o que aconteceu recentemente com as obras de Hélio Oiticica, perdidas num incêndio na casa do irmão.

AM | Francisco Brennand não dá muita atenção ao destino das suas obras depois de prontas. E você?

AH | Embora as minhas esculturas de concreto armado sejam difíceis de ser destruídas, fico preocupado com a preservação delas. É lamentável que uma pessoa deixe de comprar um pão para adquirir um spray para pichar uma obra. Deveria ter realmente uma educação nesse sentido.

AM | Qual seu conselho ao jovem artista?

AH | Que faça da sua arte um meio de vida fundamental. Como a alimentação. Ele tem que fazer arte constantemente. Não pode parar, é feito bicicleta, se parar, cai.

Jornalista do JC esconde verdade sobre Cuba

17 de outubro de 2009 – 3:50

“Samarone Lima fez um relato de visita a Cuba em “Viagem ao crepúsculo” (Casa das Musas). (…) Mas queria me referir ao livro de Samarone. Ainda não terminei de ler seu trabalho, muito bem escrito. Ele fala das pobrezas de Cuba, que não devem ser atribuídas ao socialismo, mas a alguns equívocos políticos e um cerco de 50 anos”. (Artigo do Jornal do Commercio - 17.10.2009)

A massa cinzenta do jornalista Juracy Andrade, ex-seminarista e militante da esquerda católica, deve ter petrificado.

Dizer que a pobreza de Cuba não deve ser atribuída ao socialismo, doutrina seguida fielmente pelo ditador cubano Fidel Castro, e atribuir a miséria daquela ilha a equívocos políticos e ao embargo comercial dos Estados Unidos, é desconhecer os fatos e a história, que não é seu caso. Andrade aje como um antijornalista, aquele que esconde a verdade em benefício de uma causa ou remuneração.

Basta de mentiras!

O livro de Samarone Lima é claro sobre o que acontece em Cuba. E olhe que ele já foi fã confesso do ditador Fidel.