Perfil de Rogê, o novo presidente da TV Pernambuco
7 de março de 2010 – 22:41Em julho de 2007, Rogê deu essa entrevista a revista Algomais. Com a sua nomeação para presidente da TV Pernambuco, televisão do Governo do Estado, vale a pena conhecer um pouco da sua vida.
Antonio Magalhães
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A sopa do Chacrinha da esquerda
Drogas | A favor da descriminalização da maconha, mas contra o crack, a droga que é o combustível da violência urbana
Por Antonio Magalhães
A cena é diária como seu programa na TV Universitária. O apresentador Roger de Renor, o Rogê, 47 anos, chega esbaforido, suado, depois de pedaladas de Boa Viagem à rua da Aurora, troca a camiseta no estúdio, ainda suado veste por cima um blaser de cor indefinida e entra no ar às 12 horas com seu Sopa Diário, a sopa vista pela ótica da mosca. Um cenário exótico abriga a mesa de entrevista, um carretel gigante de fios de telecomunicação. Os temas puxam para o popular, a visão do povo pela ótica da esquerda. As conversas giram sobre tudo que interessa a galera que lhe dá audiência, política, sexo, drogas e música. No palco ao lado recebe bandas e músicos conhecidos. E também desconhecidos, iniciantes, marginais, populares, todos que tenham talento.
Filho de um oficial da Aeronáutica, nascido em Piedade, morador da vila militar, Rogê não assimilou a disciplina militar. É um anárquico. Começou como capoeirista, foi divulgador de disco, dono de bar, apresentador de rádio e agora está na TV, atuações formais. Numa delas, como dono da Soparia, bar que fez sucesso nos anos 90, no Pina, foi processado pela Ordem dos Músicos de Pernambuco porque deixava os músicos tocarem sem contrato. Talvez sem essa irreverência não houvesse o movimento Mangue Beat, que teve seu palco inicial nesse local.Só agora está chegando a um acordo judicial com a Ordem.
No vídeo se multiplica: é sério, irritado, engraçado, debochado, em momentos diferentes, e tem língua solta para gírias e palavrões hoje pueris, uma mistura da linguagem dos anos 70 com o palavreado jovem atual. “A minha importância na cultura pernambucana é por estar no lugar certo, na hora certa. Estou aqui na TV mais como articulador. Esse papo de abrir espaço fica para o Dr Smith (da série dos anos 60 Perdidos no Espaço)”, diz Rogê.
Ele pode não gostar, mas alguns o chamam de Chacrinha da esquerda. Ao contrário do velho apresentador dos anos 70 já falecido, que lançava bacalhau para o público, Rogê lança mensagens culturais e torpedos políticos. Vale a pena saber o que ele pensa na entrevista abaixo.
Algomais | Como você se define? É um produtor cultural, um artista ou um articulador cultural?
Roger de Renor | Acho que eu sou mais um comunicador popular do que um produtor cultural. Na comunicação você está sempre produzindo e o tipo de coisa que faço está sempre ligado à cultura, então eu levo o nome de produtor. Na área que trabalho, prefiro dizer que estou apresentador de TV, como eu poderia estar no radio FM, numa emissora comunitária, até mesmo numa perna de pau com um megafone, atrás de um balcão de bar ou nas mesas da praça. Eu trabalho com comunicação.
Am | Você teve um programa no rádio chamado a Sopa da Cidade?
RR | Foi na Rádio Cidade por três anos. Trabalhava de uma forma mais irresponsável, no limite permitido à comunicação das FMs. Até então a FM funcionava assim: pouco papo e muita música. Está comprovado hoje que as pessoas querem ouvir muito papo, música e opinião. Então fui aos extremos do rádio ao vivo local. O diferencial era esse, enquanto as outras emissoras não tinham opinião, lá eu tinha liberdade total de dizer o que queria. Até para falar gírias locais, como tu num sabe, oxê, peraí, meu irmão. Convencionou-se que apresentador de FM tem que dizer ô, louco! Dei um sotaque regional à FM.
Am | Por que a fixação na sopa?
RR | Depois de trabalhar como divulgador de disco, resolvi botar um bar, a Soparia, que durou quase 10 anos, lá no Pina. O bar ficou marcado pela diversidade cultural. Só não dava grana. Fiz uma consulta ao Sebrae para saber por que a Soparia não lucrava. Os consultores me disseram que mesmo que vendesse diariamente todo o estoque de bebidas não ia render nada. Era financeiramente inviável. Pensei depois que devíamos ter feito a consulta como veículo de comunicação. Porque, na verdade, o que eu fazia lá era isso que faço hoje: comunicação. A Soparia, como uma metáfora, virou uma marca, fui para o radio com a Sopa da Cidade e para a TV como o Sopa Diário.
Am | A Soparia teve o mérito de divulgar bandas do movimento Mangue Beat, como o Maracatu Nação Zumbi & Chico Science e a Mundo Livre?
RR | A Soparia foi mesmo um local de encontro dessa galera. Era um espaço aberto. Tinha música ao vivo com nome dos artistas ou das bandas. Dentro da Soparia tivemos as primeiras reuniões para o Abril Pro Rock. Foi um bom momento, enquanto eu saia do trabalho de divulgador de disco para abrir o bar, Fred Zero Quatro deixava o estágio de jornalismo para se dedicar à banda Mundo Livre.
Am | Como foi sua amizade com o Chico Science?
RR | Chico ia muito ao bar. Numas dessas conversas, ele identificou as minhas fantasias de carnaval como originais de uma estética Mangue, por ser uma coisa psicodélica com elementos regionais. No disco Afrociberlia tem uma foto da minha fantasia de girassol que uso até hoje. Foi mais uma identificação estética do que praticamente uma amizade diária E tem a história do Gálaxie Landau também. Eu comprei um .Na volta de uma excursão pelos Estados Unidos Chico viu meu carro e comprou igual. Mas ajeitou o dele para ficar parecendo com os carrões americanos do Brooklin. Com sonzão, luz negra. Era mais a identificação estética. Com a música que ele fez para o bar, “Cadê Rogê”, a Nação Zumbi me deu mais força do que eu dei para Chico.
Am | Depois da Soparia você abriu o bar Pina de Copacabana, na rua da Moeda?
RR | A Soparia perdeu o controle. Eram muito bares, muita gente, ambulante, policiais e traficantes. Eu não conhecia mais ninguém, não conseguia mais controlar tudo aquilo. Meus amigos não iam mais lá, já não me divertia como antes. Afinal de contas não queria que aquilo virasse um trabalho. Fui para a rua da Moeda para formar um novo público.
Am | Quanto tempo passou lá?
RR| No Pina de Copacabana fiquei dois anos e meio mas já era previsto que seria uma temporada curta. Por ser mais perto do centro do Recife também houve o descontrole da rua. Saí na hora certa, com o público lotando o bar.
Am | O Recife sobrevive culturalmente sem o apoio da prefeitura?
RR | Não. Nos últimos anos corremos atrás da Prefeitura do Recife, do Governo do Estado e da Chesf. A Chesf suspendeu os patrocínios e deixou todo mundo aperreado. A gente também depende dos sistemas de incentivo à cultura, o SIC (municipal) e o Funcultura (estadual). Muitos dos projetos aprovados, inclusive o Sopa Diário, têm que depender desse incentivo. Não há opção, no momento, para o setor cultural. A função dos fundos de cultura é financiar os projetos mais ousados até que eles possam andar com suas pernas.
Am | O patrocínio oficial não tira a independência cultural?
RR | Quando o patrocínio é direto existe a possibilidade de intervenção. Mas com fundos de cultura é diferente. Eles servem para que possamos sobreviver às mudanças de governo. Mas o que precisamos mesmo é mudar a mentalidade empresarial da cidade: muitos empresários não entram no fundo de cultura com medo de fiscalização da Fazenda.
Am | Ariano Suassuna criou o Movimento Armorial para dar ares eruditos à cultura popular. Já você valoriza a cultura popular com tecnologia. Você vê uma grande diferença entre o seu ponto de vista e o do Movimento Armorial?
RR | Não. Muda apenas a forma como se faz o trabalho. Estamos voltados, nós e o Armorial, para dar destaque ao que se faz nas comunidades, onde se faz cultura e há uma concentração de pobreza. Só que vejo para a cultura popular as possibilidades tecnológicas de mixar, de reprocessar, com outras culturas. Já Ariano trabalha a cultura popular de forma mais purista. Prefiro o remix disso tudo. Gosto de ouvir tanto o mestre Salustiano como ele toca e como o que fez mixado pelo DJ Dolores e já transformado. Acho que termina todo mundo lutando no mesmo front.
Am | A pirataria já faz hoje parte do mundo cultural?
RR | Exato. Sou contra a pirataria comercial que tem um dono e que cada carrocinha de CD pirata funciona como um elo de uma cadeia empresarial. Defendo o compartilhamento da informação, da sua distribuição gratuita na Internet, sem o atravessador e com autorização do próprio autor..
Am | Sua atuação é forte nas comunidades pobres com focos de violência. Pode-se combater isso com a arte?
RR | Quando vejo a moçada pela rua, lembro-me do ditado de minha avó: cabeça vazia morada do diabo. É preciso ocupar essa galera de rua. Ela vive o tempo inteiro bombardeada pela mídia para comprar o novo tênis, o novo celular, para ficar bonita e para comer a gostosa da propaganda da cerveja. O pessoal vai para a rua querendo isso e não vai encontrar. Vai encontrar vinho barato, pedra de crack para fumar. Vai encontrar a polícia para receber lapada. A gente precisa ocupar essa galera e ocupar mesmo, não só com eventos, mas no seu lugar para que ela não precise sair do seu bairro para ir ao centro.
Am | As políticas públicas são eficientes?
RR | Temos que ir além da atual política. Temos que fazer um corpo-a corpo, pois a gente está numa guerra. Se ninguém fizer nada não se vai ter tempo de fechar o vidro do carro para a moçada. Cada um tem que fazer a sua parte, inclusive todos os veículos de comunicação.
Am | E a música seria uma dessas ações?
RR | A trilha sonora é o fator principal para um final feliz. Para o Recife a música é o principal viés.
Am | Como você vê o crescimento do consumo de drogas em Pernambuco?
RR | Eu vejo com muito pesar e uma dor enorme. Acompanho esse pessoal desde a Soparia. Saí de lá principalmente porque o comércio de droga girava em torno do bar. A droga atrai violência, atrai gente equivocada, público equivocado, polícia e traficantes equivocados, consumidor equivocado. A droga é um grande equívoco. Sou a favor da descriminalização da maconha, mas sou a favor também de uma política de combate ao uso de crack, que tem contribuído para a violência. Os meninos de rua não cheiram mais cola fumam crack. A droga mudou.
Am | O consumo de crack acontece também na classe média?
RR | Vejo os jovens de classe média sendo internados para tratamento, mas também vejo taxistas, guardadores de carros, ambulantes, morrendo magros, secos, chupados por causa da porra dessa droga. É preciso também encarar o problema da droga de forma menos hipócrita. E menos velada do que a gente trata no Recife. Parece uma coisa que rico pode e temos que fazer silêncio. Quando o caso fica grave ele vai para clinica de desintoxicação. Já o pobre é safado, viciado, e quando fica fodido vai preso ou vai morrer no hospital público.
Am | Você é um homem das mil faces. Pinta o cabelo, deixa a barba crescer, corta um ou outro várias vezes, depois volta ao natural. Por que as mudanças?
RR | Não sei se é por ansiedade ou é uma forma de brincar. Faço do rosto uma piada, uma nova fantasia. Na verdade me fantasio o ano todo e no carnaval apareço com minha verdadeira cara. As pessoas podiam colaborar mais para o mundo ficar mais alegre. Já que não posso mudar o cenário do programa todo o mês, mudo o rosto. Fica mais barato.
Am | O bom humor é só no programa ou você se considera uma pessoa bem humorada?
RR | O meu bom humor é proporcional ao meu mau humor. Eu tenho cara de bem humorado, espirituoso nas brincadeiras, mas ao mesmo tempo fica difícil manter isso quando se trabalha com comunicação, com um programa diário. Às vezes fico pensando como posso manter o equilíbrio com tanta informação ou se deveria buscar a poesia da informação para não ficar rancoroso com o dia-a-dia, uma realidade tão cruel no Recife, uma cidade tão linda e antagônica. Então eu aproveito o meu bom humor para viver bem o dia-a-dia.
Am | E como alivia essa tensão?
RR | Moro no edifício Califórnia, em Boa Viagem, e venho de bicicleta para a TV Universitária para pensar melhor. É muito perto vir para cá, apesar de todo risco. Geralmente venho pela avenida José Estelita ou Sul e volto por um dos passeios mais lindos do Recife, pelos arrecifes. Atravesso de barco com a bicicleta por R$ 1,50, sigo pela beira da praia em Brasília Teimosa e chego logo em casa.

