14 de novembro de 2008 – 0:19
Para quem quer conhecer melhor o arcebispo metropolitano da Paraíba, Dom Aldo Pagotto, cotado para substituir Dom José Cardoso Sobrinho na Arquidiocese de Olinda e Recife, vale a pena ler esta entrevista do religioso concedida ao portal Celino Neto, da Paraíba, em outubro passado.
Dom Aldo Di Cillo Pagotto é Arcebispo Metropolitano da Paraíba. Paulistano de nascimento, Dom Aldo é formado em Teologia e Filosofia pelo Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário em Caratinga – MG, com especialização em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Com um vastíssimo currículo de serviços prestados à vida religiosa, o Arcebispo concedeu entrevista exclusiva ao Portal Celino Neto onde fala sobre a política de Campina Grande, Celibato e Juventude.
CN - Todos querem saber onde o senhor nasceu, qual a sua origem familiar, quando começou o seu sacerdócio e como se deu a sua vinda para a Arquidiocese da Paraíba.
Dom Aldo Pagotto. Sou paulistano. Minha família é de origem italiana (nota-se pelos sobrenomes: di Cillo Pagotto). Desde os meus 20 anos entrei para o Seminário, por experiência, pois tinha tendências à Medicina, ao Direito e à Arquitetura. Ordenei-me padre aos 28 anos. Pertenço à Sociedade do Santíssimo Sacramento (SSS). Como a Congregação possui comunidades religiosas no Nordeste, vim pra Fortaleza em 1985. De 1988 a 1991 aprofundei estudos em Roma. Voltei para Fortaleza, fui transferido para Recife e em 1997 fui eleito bispo de Sobral, no Ceará. Em 2004, João Paulo II nomeou-me Arcebispo da Paraíba e aqui me encontro com muito amor e alegria.
CN - O senhor é um apreciador das artes e da cultura e toca piano muito bem. Fale um pouco desse lado da sua vida.
Dom Aldo Pagotto - De fato, aprecio as artes. Influenciado pela origem italiana, cujo ambiente familiar favorecia muito. Em São Paulo, tive oportunidades, no colégio e num contexto cultural mais amplo, de expandir essa dimensão tão agradável, sobretudo a música. Também ganhei alguns trocados pintando imagens (modéstia à parte) com gosto artístico.
CN - Nos últimos tempos, com o crescimento de outras igrejas, houve uma evasão de fiéis da Igreja Católica. Como o senhor analisa esse fenômeno no Brasil?
Dom Aldo Pagotto - Trata-se de uma série complexa de fatores, entre os quais, a mudança radical de sentimentos, pensamentos e atitudes éticas e morais. No centro dos atuais valores da sociedade de consumo está o lucro e o prazer, não mais o ser humano e sua dignidade. Os valores e crenças religiosas se voltam para a felicidade pessoal de cada indivíduo. O pluralismo de opções desvincula a pessoa das instituições. Cada qual faz a sua religião, sua fé, suas crenças e valores. Por outro lado, a Igreja tentou atualizar e adaptar a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo. Em muitos lugares houve resultados positivos. Em outros contextos, não. Sobretudo no contexto da chamada "teologia da libertação", que utiliza o viés marxista para interpretar a mensagem da Palavra de Deus. Assim, se parte da análise da realidade pelo viés sociológico e não mais do parâmetro da revelação cristã, numa perspectiva de fé. A chave de leitura é a sociologia de viés ideológico, a priori, esquerdista. Muita gente se afastou da Igreja, inclusive a minha família, por causa da mistura com da linguagem instrumentalizada, confundindo opção pelo pobre com partidarismo político de esquerda. É interessante notar que em alguns lugares a igreja fez opção pelo pobre, interpretada com gestos agressivos, como luta de classes, invasão de terras e assim por diante. Hoje há muitas pessoas de origem humilde que se identificaram com outras denominações religiosas, inclusive radicais e fundamentalistas.
CN - Religião é fé, convicção e escolha, um caminho que liga o homem a Deus. A nossa juventude está engajada neste contexto?
Dom Aldo Pagotto - A Igreja Católica perdeu a maioria da juventude. Crianças e adolescentes se encontram soltas. Poucas crianças fazem Catecismo para a 1ª. Comunhão e depois raramente perseveram. Idem, os adolescentes para a Crisma, pouquíssimos perseveram. Por quê? Sentimos a necessidade de adaptar a nossa linguagem e postura, apresentando ideais mais consistentes, integrando educação para a fé, para a dimensão humana e afetiva, e para a participação na construção da cidadania. Hoje há uma tentativa de recuperação, sem grandes resultados. O que se vê são eventos de massa, promovidos por bandas gospel. Alguns jovens buscam muita emoção, como uma distração qualquer. Não vejo a proposição de ideais consistentes. Não vejo compromisso com nada, nem com a concidadania. O mesmo a gente nota na UNE. A juventude das "diretas já", os "cara-pintada" se acabaram. Hoje a galera quer curtir. Cada jovem possui, sim, seu lado místico, espiritual, organizado e confeccionado a seu modo. Ao que parece nossa juventude não quer se ligar à instituição alguma. Note-se o mesmo fenômeno nos partidos políticos. Há muita emocionalidade e pouca racionalidade. Hoje vivemos no mundo da produção de imagens virtuais.
CN - Castidade e celibato. Diante de notórios casos de pedofilia envolvendo padres, a Igreja não pensa em reformular seu posicionamento diante desses dois temas seculares?
Dom Aldo Pagotto - Não é verdade que existem tantos casos de padres pedófilos. O que há é a exploração de alguns casos, dolorosos, reprováveis, inaceitáveis. Castidade não é castigo, nem repressão e sim educação, aceitação e controle afetivo-sexual. Celibato é dom, é carisma e não imposição forjada, simulada. O posicionamento da Igreja não vai mudar, segundo a série dos Papas que tratam explicitamente desses casos dolorosos, como do contexto da vida moderna. O que a Igreja deve fazer continuamente é a melhor formação, seleção e acompanhamento das vocações para a vida consagrada. A formação foi relaxada nos seminários, visivelmente decadente. Hoje há um esforço sério para a recuperação da formação sistemática, sólida, coerente, não apenas em relação à dimensão afetiva e sexual, mas teológica, espiritual, intelectual, pastoral, econômica e administrativa.
CN - Com a vida moderna e o avanço tecnológico, os apelos sexuais estão por toda parte, influenciando o comportamento e os costumes. Mais do que nunca, as tentações rondam todos os homens. Como o religioso lida com essa questão?
Dom Aldo Pagotto - Trata-se de preparar pessoas descomplexadas, livres, conscientes, responsáveis, O mesmo raciocínio se aplica à necessidade de boa formação de qualquer criança, adolescente, jovem ou adulto. Trata-se de uma formação inicial e permanente, dividida com a família, a escola, a igreja, as instituições. Não se trata de apenas lidar com as "tentações", pois as paixões humanas fazem parte da existência e servem para amadurecer o caráter. Um homem casado, uma mulher casada, uma pessoa cheia de vida jamais estará invulnerável. Sinceramente, encaro a castidade como educação permanente, para solteiros (as) e casados (as) consagrados ou de quaisquer opções. O que eu tenho dificuldade de aceitar é eliminar ou confundir a relação afetividade e sexualidade, pois são inalienáveis e inseparáveis em cada ser humano.
CN - A política brasileira registra certo avanço no que diz respeito às questões sociais. Entretanto, esses avanços ainda não correspondem plenamente aos anseios e necessidades do nosso povo. O que falta?
Dom Aldo Pagotto – A partir de projetos de Nação, de Estado e de Municípios, um planejamento que ultrapasse 4 anos, pois jamais se esgotaria em um governo de 4 anos ou de 8, com a recondução de um gestor público. Nos planejamentos estratégicos, os itens indispensáveis: o que fazer? Quem vai assumir? Com quais recursos humanos, técnicos e financeiros? Qual a metodologia de trabalho, as etapas de trabalhos, os prazos estipulados, a justa distribuição de oportunidades e rendas? E a avaliação e a prospecção dos projetos e planejamentos de programas? O que falta no Brasil é planejamento e distribuição de oportunidades e geração de ocupação e renda. Para isso, é preciso investir pesado na educação, incluindo, pois, a educação para o trabalho!
CN - Alinhamento ou conflitos – política e religião podem caminhar juntas?
Dom Aldo Pagotto - Ambas são realidades distintas e inseparáveis, pois um amor a Deus se desdobra no amor ao próximo. A política é uma das formas mais sublimes de exercer a caridade, o amor, efetivamente colocado na elaboração das estruturas sociais, favorecendo a inclusão com justiça social. Não se confunda religião com política partidária, nem se confunda fé com um candidato ou com um programa de partido. Veja pelas razões que expus acima, quando se confundiu "libertação" com "ideologia" assumida por um determinado partido, que hoje se fragmentou em várias facções. Para bom entendedor, pingo é letra.
CN - O senhor é sempre convocado para opinar sobre grandes e graves questões de interesse coletivo e nunca se omitiu. Já recebeu convite para ingressar na política?
Dom Aldo Pagotto - Sim, porém, não aqui na Paraíba. Também, nunca aceitaria, pois a minha missão é trabalhar pelo desenvolvimento espiritual e temporal, respeitando as realidades autônomas da Política (com P maiúsculo) e da fé cristã.
CN - Como Arcebispo da Paraíba, um Estado cheio de contrastes, qual é o seu maior desafio?
Dom Aldo Pagotto - Primeiro, o levantamento das potencialidades produtivas da Paraíba, terra amada e rica de potencial. Segundo, apresentação de um planejamento estratégico - aliás, em curso, contendo 20 itens, absorvidos e subdivididos pelos cinco eixos propulsores. Acionem o site do Governo Estadual e verão claramente ao que estou me referindo. Terceiro, eliminar uma rivalidade atrasada e atávica de dois grupos que se rivalizam e disputam a hegemonia, atrelando a mentalidade do povo a um cabo de guerra fratricida. A Paraíba é uma só, porém, integrada aos nossos irmãos circunvizinhos, especialmente os cearenses, potiguares e pernambucanos sobretudo. Notem as obras de transposição do Rio São Francisco, possibilitando o desenvolvimento integrado entre os nossos quatro Estados beneficiados. É um exemplo de outras potencialidades a serem exploradas e desempenhadas com ardor, sem partidarismo. Nossa camisa a ser vestida é o Estado da Paraíba e não outra camisa partidária.
CN - As eleições em Campina foram marcadas por ataques e denúncias entre os concorrentes. O que o senhor acha de tudo isso?
Dom Aldo Pagotto - A formiga sabe a folha que corta. O que disse anteriormente responde à questão particular de Campina Grande, considerada a co-capital paraibana. Que cada candidato mostre lados a serem enfrentados e não acusações que causam ojeriza, geram animosidades, desgastam o raciocínio lógico e baixam o nível da reflexão para o nível da emocionalidade adrenalínica.
CN - O portal Celino Neto é acessado predominantemente por jovens. Qual a mensagem que o senhor deixa para a comunidade campinense, especialmente para a juventude?
Dom Aldo Pagotto – Acredito que os jovens possam oferecer sugestões sobre duas realidades contrastantes. A primeira é o desafio para a superação do distanciamento de tantos jovens dos serviços voluntários. Há iniciativas que podem e devem ser assumidas desde que os jovens se agremiem e se disponham para assumir serviços voluntários, capacitando-se, treinando, se doando, se sacrificando a serviço do próximo. Segundo, os jovens podem e devem aproveitar sua disponibilidade, através de tantos meios de comunicação existentes, para enturmar, agregar, integrar forças a favor do bem, e não apenas usar Orkut e MSN, para curtir amizades que giram apenas em torno de si ou de pequenos grupos de interesse, quando estão ausentes os grandes ideais das políticas públicas que gerem inclusão social, os ideais da solidariedade, do desenvolvimento local e regional e assim por diante. Deus abençoe a todos!